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Sérgio Pena - Maio 2012

  • Belo Horizonte - Dr. Sérgio Danilo Junho Pena - Arquivo Pessoal

Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Dr. Sérgio Danilo Junho Pena concluiu seu Doutorado no Department of Human Genetics da University of Manitoba, no Canadá, e o Pós-Doutorado no Institute for Medical Research em Mill Hill, de Londres. Em constante aprendizado, Dr. Sérgio se divide entre o Núcleo de Genética Médica de Minas (GENE), a empresa veterinária Gene-Genealógica e a cadeira de Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG. É membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências dos Países em Desenvolvimento (TWAS). Confira, no Descubraminas, algumas curiosidades sobre o mundo da genética.


"Esperamos que a humanidade do futuro não acreditará em raças mais do que acreditamos hoje em bruxaria. E o racismo será relatado no futuro como mais uma abominação histórica passageira, assim como percebemos hoje o disparate que foi a perseguição às bruxas."


Por Roberta Almeida


Descubraminas - O senhor é natural de Belo Horizonte, obteve uma experiência de muitos anos fora do País e voltou ao Brasil depois de algum tempo. Quais são as suas principais lembranças da capital mineira, da época em que cursava medicina na UFMG?
Sérgio Pena -
Belo Horizonte era uma cidade menor, mais arborizada, mais limpa, mais agradável. Ou será que isso é só saudosismo de minha parte?


DM - Em 1988, quando o código genético humano ainda era um mistério, o Gene - Núcleo de Genética Médica - tornou-se o primeiro laboratório da América Latina a realizar o exame de paternidade pelo DNA. Como foi trazer para o Brasil os conhecimentos sobre biologia molecular e de que forma aconteceu a implantação dos estudos genéticos no Brasil?
SP -
O GENE - Núcleo de Genética Médica - tem inovação no seu DNA. Inovamos trazendo de forma pioneira para o Brasil não só os testes de paternidade em DNA, mas também os testes de citogenética molecular (usados nos estudos de genética pré-natal), os estudos de genealogia pelo DNA e mais recentemente a medicina genômica (check-up genômico e check-up genético).


DM - Por meio dos exames moleculares de DNA, feitos a partir de amostras de sangue ou células bucais, também é possível diagnosticar a predisposição ao desenvolvimento futuro de várias doenças hereditárias. De que maneira a medicina genômica auxilia na prevenção de tais doenças? É possível comprovar um aumento na expectativa de vida do ser humano?
SP -
Sim, através dos estudos de medicina genômica queremos fazer a prevenção das doenças crônicas comuns de nossa espécie, permitindo às pessoas envelhecerem com saúde.


DM - Na publicação "Homo Brasilis", que esse ano completa uma década, o senhor aborda aspectos genéticos, linguísticos, históricos e socioantropológicos. De onde surgiu a ideia de falar sobre a formação do povo brasileiro e quais foram os desafios enfrentados na elaboração desse trabalho?
SP
- Junto com o desenvolvimento dos testes de paternidade em DNA usei a metodologia molecular para estabelecermos no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG um laboratório dedicado ao estudo e impacto da variabilidade genética humana ao nível do DNA. Desses estudos brotaram as nossas investigações sobre a estrutura e formação do povo brasileiro que além de trazer à luz uma série de fatos insuspeitados, fizeram a confirmação genética das teses de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Darcy Ribeiro.


DM - Nos séculos 18 e 19, o Brasil foi o ponto de encontro de diversos povos. No entanto, de acordo com informações do livro "Homo Brasilis", estudos de Genética Molecular Moderna comprovam que, do ponto de vista biológico, não existem raças humanas. O senhor pode nos explicar melhor sobre essa desmistificação da existência de raças pela biologia?
SP
- Em um artigo na Revista USP, eu e a filósofa Telma Birchal defendemos a tese de que embora a ciência não seja o campo de origem dos mandamentos morais, ela tem um papel importante na instrução da esfera social. Ao mostrar "o que não é", ela liberta pelo poder de afastar erros e preconceitos. Assim, a ciência, que já demonstrou a inexistência das raças em seu seio, pode catalisar a desconstrução das raças como entidades sociais. Há um importante precedente histórico para isto, pois o declínio da perseguição às bruxas foi em grande parte causado pela revolução científica no século 17, que tornou impossível a crença continuada em bruxaria.

Uma sociedade coerente e desejável seria aquela na qual há valorização da singularidade de cada cidadão. Em sua individualidade, cada um pode construir suas identidades de maneira multidimensional, ao invés de se deixar definir de forma única como membro de um grupo "racial" ou "de cor". Esperamos que a humanidade do futuro não acreditará em raças mais do que acreditamos hoje em bruxaria. E o racismo será relatado no futuro como mais uma abominação histórica passageira, assim como percebemos hoje o disparate que foi a perseguição às bruxas.


DM - "É praticamente impossível encontrar um brasileiro genuinamente branco ou negro", afirmou o senhor em uma entrevista sobre o estudo da ancestralidade do homem brasileiro. Em relação às nossas raízes ancestrais, como pode ser caracterizada a formação e a estrutura da população do nosso País? Existe algum estudo, em particular, sobre o mineiro?
SP -
Em muitos dos estudos que fizemos, usamos o povo mineiro como objeto de estudo. Na estrutura genética de sua população, assim como em praticamente todos os indicadores do IBGE, Minas é a média do Brasil - o coração deste país!


DM - Nos livros "À flor da pele - reflexões de um geneticista", "Humanidades sem raça" e "Igualmente diferentes", o senhor reforça a defesa de uma sociedade desracializada. Até que ponto os estudos genéticos podem auxiliar na redução dos contrastes sociais?
SP
- Sou a favor da ideia de que o fato científico da inexistência das "raças" deva ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais, se opondo às crenças em qualquer forma de hierarquia entre povos ou grupos humanos. Assim formaremos uma comunidade irmã na qual as pessoas se respeitam como "igualmente diferentes" e na qual as desigualdades sociais serão muito atenuadas.


DM - O senhor se divide entre as atividades no Laboratório Gene, a vida acadêmica na UFMG, ministra palestras e ainda se dedica às artes. Como administra o seu tempo?
SP
- Você deixou de fora a empresa veterinária Gene-Genealógica que se dedica a estudos de DNA em animais de interesse comercial (bovinos, equinos, ovinos e caprinos) e o novíssimo Laboratório de Genômica Clínica na Faculdade de Medicina da UFMG. Para coordenar tudo isso é necessário o investimento de 13 a 15 horas de trabalho diário. Entretanto, devo dizer que o faço com grande entusiasmo, pois gosto muito dos desafios intelectuais diários que povoam minha vida.


Como é um costume do Descubraminas.com, é hora do "Papo de Mineiro".


DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
SP -
Prof. Wilson Teixeira Beraldo, JK, Hilton Rocha, Guimarães Rosa


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
SP -
Hino do Atlético


DM - Adoro um bom prato de...
SP
- Costelinha frita


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
SP -
Ouro Preto


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
SP -
Goiabada


DM - Qual cantor melhor representa Minas?
SP
- Milton Nascimento


DM - A paisagem que te inspira...
SP
- Serra do Curral


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
SP -
Atlético


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
SP -
Cidade grande. Sou viciado em pó de asfalto e poeira de livro...


DM - Quando estou fora morro de saudades...
SP -
Minha casa e minha rotina


DM - Minas Gerais é...
SP -
A média do Brasil.


*Estagiária de produção: Caroline Melo

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