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Dom Walmor - Abril 2012

  • Dom Walmor Oliveira de Azevedo - Divulgação/ArquidioceseBH

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma. Membro da Academia Mineira de Letras, Dom Walmor publicou numerosos artigos e livros, além de ter lecionado Ciências Bíblicas, Teologia e Lógica II em universidades de Minas e do Rio de Janeiro. Saiba mais sobre a história deste mineiro de coração.


"Nasci em Côcos, interior da Bahia, mas também me considero mineiro. Na verdade, me vejo como um mineiro baiano e o baiano mais mineiro".


Por Roberta Almeida

Descubraminas - É possível notar em Minas Gerais uma grande ligação com a religiosidade. Nas diversas viagens que o senhor faz pelo Brasil e pelo mundo, é possível observar que o mineiro possui um diferencial em relação às manifestações de fé? Como o senhor enxerga esta religiosidade nos tempos atuais?
Dom Walmor -
A fé e a religiosidade estão enraizadas na cultura mineira. Gosto de citar o saudoso dom Luciano Mendes de Almeida, que considerava Minas um tesouro no coração católico do Brasil. O Estado é um genuíno patrimônio de referência na história cultural e religiosa do País. A religiosidade é inerente, intrínseca à história do mineiro. É impossível pensar em Minas Gerais sem a tradição cristã católica. O turismo religioso é um bom indicador desta forte relação de Minas com a fé cristã. Dos cerca de 10 milhões de peregrinos que visitam o Santuário Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, metade é de Minas Gerais.


O Estado também é um grande guardião da arte-sacra, com igrejas históricas, pinturas e esculturas que carregam a genialidade de artistas como
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Estou convencido de que este grande tesouro que surge da união da arte e da fé é responsável pela posição de destaque de Minas no ranking de Estados mais procurados pelos turistas. Pesquisa do Ministério do Turismo mostra Minas Gerais como o segundo maior destino turístico, justamente pelas riquezas dos roteiros religiosos.


DM - Este ano, o Brasil terá a mais extensa rota de peregrinação da América Latina, o Caminho Religioso da Estrada Real (Crer), que ligará o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, ao Santuário Nossa Senhora da Piedade, em Minas Gerais. Quais serão as estratégias para que esse projeto se torne o principal destino do turismo de fé do País?
DW -
O projeto envolve autoridades e a população de mais de 80 municípios, que estão neste caminho entre os santuários marianos. A estratégia é fazer chegar ao coração de todos o conhecimento sobre a força educativa, cultural e religiosa dessa rota que convida à fé, à meditação e que promove um desenvolvimento sustentável das comunidades.


Dentro desse grande e rico percurso que é o Caminho Religioso da Estrada Real destaco com carinho especial o Santuário Nossa Senhora da Piedade, a Casa da Padroeira de Minas Gerais. Entendo que cada um dos mineiros tem a responsabilidade de conhecer e tornar conhecido o Santuário Nossa Senhora da Piedade, um dos lugares mais bonitos de Minas. Localizado no alto da Serra da Piedade, a quase dois mil metros de altitude, o Santuário tem todos os elementos que identificam Minas: uma vista deslumbrante para o mar de montanhas, a natureza singular, com sua fauna e flora, a arte barroca do mestre Aleijadinho. Esses e outros tesouros, numa harmonia singular, formam a magnífica arquitetura divina, que nos convida à contemplação e à oração.


O Santuário Nossa Senhora da Piedade é reconhecidamente um patrimônio do Brasil. Recebe peregrinos desde o século 18, quando uma pequena igreja foi construída em homenagem à Santíssima Virgem Maria. O Santuário é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA), considerado monumento natural pela Constituição de Minas Gerais. É um tesouro religioso, ecológico, histórico, cultural e artístico que merece estar no coração de todos, especialmente dos mineiros.


DM -
O acervo centenário de peças sacras e históricas de igrejas, santuários e sítios tombados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA) vem enfrentando problemas com a falta de segurança e a ousadia dos ladrões. Quais medidas devem ser tomadas para que o patrimônio religioso mineiro seja preservado e quais são as consequências do roubo de imagens sacras para a cultura mineira?
DW -
Essa é uma questão extremamente séria e que exige todos os esforços das dioceses, paróquias, instituições, governos e sociedade. Na Arquidiocese de Belo Horizonte, não medimos esforços para zelar pelo patrimônio religioso. Em 2010, criamos o Memorial da Arquidiocese que realiza importante trabalho em parceria com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais. O Memorial tem como competência definir a política de proteção, pesquisa, promoção e divulgação dos bens culturais arquidiocesanos.


No final de 2011, o Memorial Arquidiocesano realizou uma exposição no Terminal Rodoviário de Belo Horizonte. Peças sacras dos séculos 19 e 20 que estavam desaparecidas há mais de 40 anos, recuperadas pela Polícia Civil, passaram por um processo de restauração e, em seguida, foram expostas no Terminal Rodoviário - estrategicamente escolhido por ser um local de grande circulação - oportunidade para que um número ainda maior de pessoas pudesse apreciar o acervo.


DM - Suntuoso projeto arquitetônico desenvolvido por Oscar Niemeyer, a construção da Catedral Cristo Rei começa a ganhar forma. Por meio dos traços arrojados de Niemeyer, o grande templo da Igreja Católica será erguido na região Norte de Belo Horizonte. De que forma a Catedral Cristo Rei continuará a prestar os serviços indispensáveis para a edificação da sociedade?
DW
- A Catedral Cristo Rei será um espaço para congregar as pessoas em grandes celebrações. Há poucos espaços para esses momentos especiais. A Catedral vai ser edificada no epicentro da região metropolitana, com o objetivo de servir Belo Horizonte, os 27 municípios que integram a Arquidiocese e toda Minas Gerais. Será um espaço para iniciativas que objetivem o desenvolvimento cultural, educacional e de trabalhos sociais, voltados, sobretudo, para aqueles que mais precisam. A Catedral é a Casa do povo de Deus, lugar de encontro, de difusão da solidariedade, da fraternidade, valores inegociáveis no contexto da fé cristã e imprescindíveis para a edificação de uma sociedade melhor.


É importante lembrar que a Catedral ficará no chamado Vetor Norte da capital, o que alavancará um avanço importante no contexto global de tudo o que está acontecendo para o desenvolvimento desta importante região.


Convido a todos a participarem da construção da Catedral Cristo Rei, um sonho que nasceu junto com a Arquidiocese de Belo Horizonte, há mais de 90 anos. Este sonho, que hoje ganha novos contornos, adequados à realidade atual de uma metrópole com mais de 5 milhões de habitantes, com suas dificuldades e desafios, deve ser cultivado em cada coração. Espero e convido cada um dos mineiros a se encorajar e participar dessa caminhada rumo à edificação da Catedral Cristo Rei.


DM -
Uma das questões sempre em pauta no Brasil, a saúde pública é uma das principais preocupações da sociedade, já que os cidadãos dependem e tem direito aos serviços de saúde oferecidos pelo Estado. Como sabemos, o tema da Campanha da Fraternidade 2012 é "Fraternidade e Saúde Pública". Sob este mote, como a campanha desse ano ajudará na conscientização dos governos em relação à garantia do direito à saúde para os brasileiros?
DW -
O propósito da Campanha da Fraternidade 2012 é a corajosa abordagem do sistema público de saúde, visando melhorias. A Igreja Católica tem um grande alcance, graças à rede de comunidades e paróquias, presentes em praticamente todo o território brasileiro. Com esta capilaridade, em intercâmbio com tantos segmentos diferentes da sociedade, a Igreja busca conscientizar a população a respeito da própria saúde e daquilo que precisamos trabalhar em termos de legislação, em função de melhorias no sistema de saúde público. A Campanha da Fraternidade também busca cultivar no coração de todos a importância da solidariedade junto aos enfermos.


A abertura da Campanha da Fraternidade na Arquidiocese de Belo Horizonte fez surgir um horizonte promissor. Estiveram presentes neste momento especial diversos segmentos da sociedade, as secretarias de saúde dos 28 municípios que integram a Arquidiocese, padres, religiosos e fiéis. Contou com o importante apoio de entidades, como o Sistema Fecomércio, Sesc e Senac. O encontro possibilitou às secretarias a partilha de experiências de sucesso, que certamente vão resultar em ações integradas, tão necessárias para promover melhorias na saúde pública.


DM - Muitos imaginam, mas poucos sabem a resposta. Conte-nos como é o dia a dia de um bispo.
DW -
A Arquidiocese de Belo Horizonte é muito grande. Congrega várias paróquias, santuários e instituições. As paróquias, por exemplo, são aproximadamente 270, reunindo milhares de comunidades. Os padres, diocesanos e religiosos, são cerca de 650. O território da Arquidiocese envolve 28 municípios. Temos instituições que cuidam de obras sociais em todas as instâncias, beneficiando segmentos diversos, como a pastoral da mulher, da sobriedade, da criança, da saúde e do idoso. Temos os Vicariatos que realizam relevantes trabalhos, inclusive, de acompanhamento das políticas públicas.


Diariamente, realizo visitas pastorais, participo de celebrações, encontros e audiências. Busco sempre receber e ouvir todos aqueles que estão envolvidos com os inúmeros projetos de evangelização, de assistência social e de desenvolvimento humano, vinculados à Arquidiocese. Também aqueles que procuram um conselho e uma orientação. Dirigir a Arquidiocese de Belo Horizonte, pela complexidade, é viver um permanente desafio. É estar sempre em busca de soluções, novos caminhos e horizontes. Ao mesmo tempo, é uma alegria poder servir ao povo mineiro, que tanto gosto. Nasci em Côcos, interior da Bahia, mas também me considero mineiro. Na verdade, me vejo como um mineiro baiano e o baiano mais mineiro. Agradeço a Deus por poder contar com a ajuda de muitos, dos padres, religiosos, de um grande número de leigos e, especialmente, dos bispos auxiliares dom Joaquim Mol, dom Luiz Gonzaga, dom Wilson Angotti e dom João Justino.


DM - Neste mês em que a Igreja Católica celebra a Quaresma e a Semana Santa, qual a mensagem de Páscoa o senhor deixaria para nossos internautas?
DW -
Neste tempo da Quaresma ecoa a profecia que convida insistentemente para um encontro com Deus, de todo o coração. É importante cultivar a honestidade na palavra dada, no respeito aos outros. É muito importante também seguir as regras de ouro que Jesus ensina aos discípulos, em vista de uma vida melhor: a caridade, a oração e o jejum. Indicações presentes no Evangelho de Mateus. A caridade significa compromisso com a vida de todos, sobretudo dos pobres e dos miseráveis. O jejum, num tempo de tanta fartura, de desperdício, mas também de tanta gente que sofre com a fome, é um exercício de correção dos costumes e hábitos. Promove maior respeito aos alimentos e é um estímulo à partilha. Também é um exercício que dá temperança indispensável para não cairmos nos exageros da corrupção, dos apegos nascidos da voracidade que põem o indivíduo diante das coisas e dos bens. Para finalizar, recomendo que todos redescubram o poder da oração, verdadeiro tratado de ciência do bem viver e de qualificação da existência. Um autor do século IV diz que "a oração é a luz da alma". As práticas meditativas são um antídoto para os males do coração.


Estagiária: Caroline Melo

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