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Chico Lobo - Outubro 2011

  • Belo Horizonte - Violeiro, compositor e pesquisador Chico Lobo - Divulgação/Empresa das Artes

O violeiro, compositor e pesquisador, Chico Lobo, é o entrevistado, deste mês, do Descubraminas. O mineiro de São João del-Rei nos contou do seu amor pela viola e a importância da identidade cultural de um povo para que não se perca esta memória.


"Eu mantenho essa relação com a cultura mineira muito forte porque é meu alimento para eu poder compor e levar a minha música para o palco. Eu mantenho esse contato direto, senão a fonte seca e ela é o grande manancial do meu trabalho".


Por Caroline Melo e Jéssica Andrade


Descubraminas - Como foi sua infância em São João del-Rei?
Chico Lobo - Eu sou natural de São João del-Rei e tive a felicidade de nascer já em um berço de música. Meu pai Aldo Lobo e minha mãe Nieta, sempre cantaram para eu e meus irmãos desde pequenos. E eu nasci em uma época que em São João del-Rei, a gente ainda brincava na rua e fazia expedição pelos matos, pelas cavernas que tem perto de Tiradentes e tudo.


Guardo de São João toda a cultura que lá tem impregnada. O barroco é muito forte, eu sempre acompanhei as cerimônias da Semana Santa que também são muito fortes em São João del-Rei. Minha mãe, meu pai e toda a família saía durante a semana santa para ver as procissões, as igrejas enfeitadas e isso marca a minha vida porque a religiosidade também está muito presente na viola. Em São João del-Rei a religiosidade é impregnada.


O carnaval também era muito típico, não era como é hoje em que o axé praticamente domina. A gente tinha as escolas de samba, os blocos, e me lembro muito dos blocos do Caveira, dos Cabeções. Eu vivi isso tudo, brincando na rua com os colegas, nós saíamos pela cidade depois, já adolescentes.


Quando formei o segundo grau, no primeiro grupo de música, a gente ensaiava a noite e fazia serenata. Cantávamos de porta em porta, debaixo das janelas, escolhendo as meninas para quem íamos fazer a serenata, tinha um roteiro e é uma coisa que hoje praticamente não se vê mais. Era muito lírico, muito bonito.


DM - Quando e como foi o seu primeiro contato com a música? E o que veio depois?
CL - A música chegou para mim pelas mãos de papai e da mamãe. Papai sempre cantando, teve uma dupla caipira, já na juventude. Ele era seresteiro e a gente ouvia muito rádio e recebíamos muito das manifestações da cultura popular em casa.


Todo ano papai recebia as folias e aí foi onde fui marcado para ser violeiro porque eu tenho a lembrança de quando a folia entrava na minha casa e o instrumento principal eram as violas de caravela de madeira, umas violas antigas, eu ficava maravilhado com aquele som.


Com 12 anos, ele me deu a minha primeira viola e ensinou os primeiros acordes, o resto fui aprendendo sozinho. Formamos um grupo de música estudantil, que era o "Mutirão", isso já lá com os meus 14 anos, quando eu comecei a tocar e gostar de uma música mais regional, mais mineira, muito em função das folias.


Mudei para Belo Horizonte quando eu tinha 20 anos para fazer cursinho e prestar o vestibular. Nos primeiros três meses que eu já estava em BH, fiz uma prova para o grupo "Aruanda", de danças folclóricas, que para mim, é o mais importante de Minas e talvez do Brasil. Entrei para o grupo já jovem, tocando viola porque ela sempre comandou as manifestações como as folias, as catiras, Dança de São Gonçalo e um tanto de coisa que era o universo que o "Aruanda" apresentava, então, eu caí como uma luva nesse grupo.


Foram quase oito anos viajando pelo Brasil e aprendendo. Eu chegava nas cidades e procurava saber se lá tinha algum violeiro, porque na minha época a viola não estava no momento em que está hoje, era um instrumento que ficava guardado no interior, nas comunidades.


A gente tinha um grande artista violeiro que eu conheci quando eu ainda morava em São João del-Rei que era o senhor Renato Andrade, que foi uma influência muito grande para mim. Assim, fui formando a minha musicalidade.


De 1990 para 1991 eu comecei a sair do grupo "Aruanda" para seguir uma carreira de violeiro já compondo, tocando, e iniciando os meus primeiros pequenos shows.


DM - Você é formado em educação física e pós-graduado em psicomotricidade e pedagogia do movimento, ou seja, áreas diferentes da música. O que te levou a escolha dessa formação?
CL - Diferentes entre aspas. Quando eu entrei para a educação física eu sempre busquei a parte educacional e não a parte física de academia, por exemplo. E na educação física eu tive aula e trabalhei com um grupo de folclore da escola de Educação Física da UFMG.


Quando escolhi o curso, eu trabalhava muito com a viola, com as cantigas de roda como forma de educação. Quando fiz a pós-graduação na Universidade Gamar Filho, no Rio de Janeiro, de 1991 para 1992, eu quase fui morar lá porque eles ficaram admirados com o jeito diferente de educação física e me fizeram o convite para eu levar esse tipo de ensino para lá. Só que coincidiu com o momento que eu estava pensando em largar todos os meus empregos de educação física e correr atrás do sonho de ser violeiro e de ser cantador. Então, a educação física sempre teve esse nexo com a viola através das cantigas de roda. Eu fazia ginástica historiada com os alunos, às vezes estava no Minas Tênis Clube e tirava aquele tanto de meninos da quadra e íamos tocar viola, cantar cantigas e representar. Fazíamos muitas atividades. Sempre teve um nexo e principalmente na cultura popular, que é a minha paixão.


DM - Além de atuar na música, fazendo diversos shows, você também tem um programa na rádio Inconfidência, Canto da Viola, e um programa de TV na rede Horizonte, Viola Brasil. Qual é o perfil do seu público no rádio e na TV? É o mesmo de quem te acompanha nos palcos?"
CL - Já tentamos mapear se temos uma faixa etária do meu público e chegamos à conclusão que é toda a faixa etária, desde a criança, que liga demais com essa alegria, até os jovens que estão tentando redescobrir sua identidade.


Existe esse processo de revalorização da identidade e muitos jovens estão buscando isso porque está tudo tão massificado, a música, a vida e todo mundo individualista atrás do capitalismo. Acho que tem um pequeno movimento que eu enxergo, não é somente no Brasil, mas no mundo, que caminha para essa busca da identidade. Assim, o jovem se aproxima da minha música, já a pessoa da minha geração se aproxima da minha música porque a gente já cresceu buscando essa identidade e vem de uma época pós-ditadura, que se movimentava enquanto estudante. A pessoa com idade mais adulta busca na minha música aqueles conceitos que eles lembram que carregam lá de trás, da vida interiorana deles.


Dessa forma, mapeamos que o meu público é de todas as idades e os meus programas funcionam como veículos que se aprofundam nessa cultura da viola, de identidade mineira e brasileira.


DM - Você tocou, por um período, no grupo "Aruanda", de danças folclóricas. Qual sua ligação com os movimentos folclóricos de Minas Gerais?
CL - O grupo "Aruanda" apresenta danças folclóricas é o que a gente chama de parafolclórico porque a gente pesquisa as manifestações autênticas e leva isso para o palco como espetáculo, dando uma roupagem de espetáculo. Eu tenho total ligação com os movimentos folclóricos.


Hoje, mesmo com o pouco tempo que tenho por causa das viagens, principalmente, na minha terra eu mantenho contato. Toda a festa do Divino Espírito Santo estou presente, fui intitulado embaixador do Divino Espírito Santo, nas festas de folia de Reis. Todo dia 6 de janeiro, tem o encontro em São João del-Rei que eu também estou presente. Em outras cidades eu mantenho um vínculo, como por exemplo, uma cidade próxima de Belo Horizonte que é Jequitibá.


Tinha um grande mestre, que foi um dos grandes mestres na minha vida, o senhor Nelson Jacó. Eu ia sempre a Jequitibá conviver e aprender com ele. O senhor Nelson Jacó faleceu no ano passado, mas consegui, há dois anos, levá-lo a Portugal em um grande evento, foi uma das coisas mais bonitas da minha vida poder levar a Portugal o meu mestre, que me ensinou muita coisa de viola e de crença porque a viola é cercada de várias crenças, como pontear as pintas de uma cobra coral para ter agilidade nas mãos. Ele fazia isso e me ensinou.


Em Santana dos Montes, que é uma cidade do Circuito das Vilas e Fazendas, a gente desenvolve o projeto de escola de viola junto com a Secretaria de Turismo e Cultura e lá tem a Oficina de Viola Chico Lobo, que são mais de 30 alunos. Abrimos agora em Joselândia, distrito de Santana dos Montes, uma filial com mais de 40 alunos que estão estudando viola e os professores são os mestres das folias de reis, a gente faz essa consultoria. Eu mantenho essa relação com a cultura mineira muito forte porque é meu alimento para eu poder compor e levar a minha música para o palco.


DM - O que você vê de mais especial em sua carreira como violeiro? Qual o momento mais marcante exercendo este ofício?
CL - Eu tive muitos momentos marcantes e é difícil pontuar um ou outro. Mas, por exemplo, como artista foi quando eu gravei o meu primeiro DVD, que foi artisticamente o primeiro de viola do Brasil, e tenho uma alegria muito grande nisso.


Outra coisa que me marcou muito foi o relacionamento com Portugal. Há sete anos viajo para o país fazendo shows e eu trago artistas de lá para Minas Gerais. Em Portugal gravei um disco juntando a viola brasileira com a portuguesa, um reencontro de culturas porque a nossa viola caipira descende da viola portuguesa, que chegou ao Brasil na época da colonização e aqui ela se abrasileirou.


São momentos que vão marcando a minha vida, e é lógico que, quando estou com os mestres, nos encontros de folia, tudo isso é muito importante. Também, em 1997, quando o meu primeiro disco de carreira "No Braço Dessa Viola" foi selecionado e indicado como finalista no Prêmio Sharp como revelação da música regional brasileira, e após a gente ir para a premiação no Teatro Municipal, no Rio, eu fui para Itália, convidado a fazer 10 shows junto aos centros culturais de lá e foi a minha primeira saída com o meu trabalho para o exterior.


No ano passado, a convite da Secretaria do Estado eu fui representar a cultura de Minas na Expo Xangai, na China. Segundo o Pavilhão do Brasil a Comissão Mineira, foi uma das mais completas e fortes [representações] que esteve presente no evento. Fazer os chineses baterem palmas e cantarem comigo foi uma emoção muito grande porque é uma outra cultura que se abre para a nossa cultura, e sempre vai ser inesquecível para mim.


DM - Quais músicos você admira? Tem algum artista que você gostaria de fazer uma parceria e ainda não conseguiu?
CL - Adoro os artistas mineiros, como o Celso Adolfo, Paulinho Pedra Azul, Skank, tanto que nesse disco eu faço um instrumental com a releitura de "Dois Rios", que é uma música do Samuel, Lô Borges e Nando Reis.


Tem vários artistas e é até difícil pensar. Quero fazer mais coisas com o Vander Lee, outras cantoras como Titane, Celma Carvalho... a turma nova. Penso que quanto mais tiver esse diálogo mais se cresce a viola, esses [novos] artistas, porque experimenta outras coisas.


Eu admiro muito o Rolando Boldrin, que foi muito importante. Pena Branca e Xavantinho, que já falecerem. Depois que Xavantinho faleceu, eu viajei e fiz shows por 10 anos com o Pena Branca e foi uma escola fantástica. Recebi, recentemente, o José Geraldo que é um outro artista que eu sempre admirei.


Sou uma pessoa muito aberta para parceria e relacionamento. Temos um trabalho muito bacana no "Viva Viola", e estamos fortalecendo a nossa viola em Belo Horizonte. Reunimos seis violeiros em um palco, que sou eu, o Pereira da Viola, o Joacior Nelas, o Wilson Dias, o Gustavo Guimarães e o Bilora. Já lançamos um disco e pretendemos fazer um outro e mais shows coletivos.


DM - Você lançou recentemente, no Palácio das Artes, o seu novo CD, "Caipira do Mundo", que conta com a parceria dos músicos Vander Lee, Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, entre outros. Como foram essas parcerias e qual o significado delas para esse álbum?
CL - Tudo partiu do convite da produtora Rosana Decelso, que é nossa amiga e foi produtora do Zeca Baleiro. Ela perguntou se eu não topava fazer um trabalho diferente onde eu dialogasse com esses artistas. Assim se iniciaram os contatos, muitos já me conheciam, como o Vander Lee.


O objetivo era trazer esses poetas para o universo da viola e a viola se aproximar deles. A grande questão disso é esse diálogo, aberto e franco, de uma regionalidade que se amplia e mostra que a viola é dinâmica a cultura, e que há essa possibilidade do diálogo com a contemporaneidade. Com isso mostro que a nossa viola e a cultura raiz está mais viva do que nunca.


DM - Você acredita que a música caipira é valorizada em Minas? Qual é a importância do resgate cultural da moda de viola?
CL - Temos que entender um pouco sobre essa questão de valorização. Ela é respeitada, está voltando com muita força, muita gente quer ouvir essa música tradicional de viola, mas Minas também tem o sertanejo universitário. É uma música moderna, que chega e não guarda nenhuma referência da autêntica música de viola, é mais voltada para o romântico e o pop, mas que ganhou muita força em Minas Gerais e a gente caminha paralelamente a isso. Nesse processo que falei, que as pessoas querem se rever quanto pessoas e identidade, não podemos falar isso enquanto multidão, em um público enorme.


É um processo devagar, mas que está se tornando consistente e eu não falo nem em resgate porque é de algo que sumiu e você tem que resgatar pra ele voltar à tona. Mas essa música nunca sumiu, a gente dá um passo mesmo em Belo Horizonte e ela está muito forte, porque ela tem função nas comunidades, seja para pagamento de promessas, para festejar as boas colheitas de mutirões, festas religiosas e diversão, ela encontra função e sobrevive.


A viola e essa cultura caipira é muito viva e hoje ela chega com força na cidade grande. Então eu não falo em regaste e sim revalorização de uma música que está presente na vida da gente.


DM - Você está envolvido em outros trabalhos além dos citados anteriormente?
CL - Minha sobrevivência é nos shows e eu tento sempre aliar com oficinas porque eu acho muito importante o trabalho de base de levar essa cultura para as crianças. Também tenho esse trabalho com o Viva Viola, com os seis violeiros. Estamos preparando agora para gravar o DVD, "Gerais de Minas", com o grupo "Sarandeiro", que deve ser em outubro, no SESI Minas. Já estou com outro CD pronto para o ano que vem que vai chamar "Três Brasis", meu primeiro disco instrumental, onde eu convidei dois grandes artistas, o Paulo Sérgio Santos, na clarineta, e o Marcio Malard no violoncelo.


Ao mesmo tempo, já estou pensando no "Caipira do Mundo II", em outros projetos... a gente nunca para. Como vou há três anos ao Encontro de Violas de Arame, em Portugal, onde estão presentes vários tipos de viola e eu represento a viola mineira e brasileira, a gente quer para o ano que vem trazer esse encontro para Minas. São cinco violeiros do mundo, sendo dois de Portugal, um da Ilha da Madeira, um da Ilha do Açores e eu representando Minas e o Brasil.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
CL -
Renato Andrade.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
CL -
Calix Bento.


DM - Adoro um bom prato de...
CL -
Pão de queijo com café.


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
CL -
As cidades históricas principalmente São João del-Rei.


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
CL -
Trabalhos meus e dos meus amigos. 


DM - Qual melhor cantor que representa Minas?
CL -
Milton Nascimento.


DM - A paisagem que te inspira...
CL - Cerrado de Guimarães Rosa.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
CL -
Atlético.


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
CL -
Cidade.


DM - Quando estou fora morro de saudades...
CL -
Família.


DM - Minas Gerais é...
CL - Meu coração.

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