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Bernardo Riedel - Janeiro 2011

  • Astrônomo Bernardo Riedel - Gabriela Sthefânia
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  • Riedel recebe o descubraminas em sua oficina - Gabriela Sthefânia

Para começar o ano, o Descubraminas.com conversou com Bernardo Riedel, um dos astrônomos mais renomados do Brasil. Riedel abriu as portas da sua oficina para um ótimo bate-papo. Confira abaixo a entrevista!


Precisamos levantar a visão para cima e sermos seres mais conscientes e podermos contemplar a grandiosidade infinita do universo. Porque o universo não tem explicação. O universo é inexplicável.


Por Gabriela Sthefânia, Jéssica Andrade e Thiago Antunes


Descubraminas - Você é filho de pai polonês e mãe húngara, mas é mineiro de Belo Horizonte. Conte-nos como foi sua infância?
Bernardo Riedel
- Tive uma infância normal, mas um pouco atribulada porque meus pais saíram fugidos da Europa, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Eu sou de ascendência judaica, nossa família morreu toda no holocausto. Mas minha mãe e meu pai escaparam porque vieram para o Brasil antes da guerra. Então, os problemas de você ter um familiar que tiveram entes queridos, pais, irmãos, tios, primos, que morreram de forma tão dramática, fez com que a minha mãe se sentisse incomodada e acabasse gostando do Brasil. Aqui ela tinha toda a liberdade.


Eu tive uma infância normal, até que aos 13 anos eu comecei a gostar de astronomia. De repente, sabe. E aos 14 eu construí meu primeiro telescópio. De forma muito sumária. Não tinha muito conhecimento e passei então a desenvolver tudo isso. Contava com a ajuda do seu Faria, da ótica Faria, que conseguia pra mim esmeril, essas coisas, e me dava alguma informações. Então eu comecei a me aperfeiçoar.


Ingressei também aos 14 anos no Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais, uma entidade de astrônomos amadores que foi fundada pelo casal Vicrota. Mas eu não fiz astronomia propriamente dita, não havia um curso de astronomia. Então eu me enveredei por outras áreas.


Entrei no curso de Farmácia e Bioquímica, depois para Escola de Engenharia, fiz um curso de Engenharia Sanitária e exerci minha profissão. Até que em 1978 eu resolvi abandoná-la e me dedicar à fabricação de telescópios. Não foi uma mudança fácil. Eu saí de uma profissão que eu estava ganhando bem. Já era professor da UFMG desde 1970, como professor do curso de Farmácia e de Bioquímica. Fui transferido para o Instituto de Ciências Exatas e fiquei à disposição do Observatório da Serra da Piedade onde permaneci até me aposentar. Trabalhei durante 22 anos e segui com empreendimento muito difícil aqui no Brasil, que é a fabricação de instrumentos de precisão. Nos últimos anos, estou me dedicando à instalação de observatórios astronômicos no Brasil. Já implantei 12 observatórios, sendo que nove com cúpulas. Eu construo o observatório completo. Achei isso uma coisa muito interessante e é sinal que a astronomia está crescendo no Brasil. Isso é muito bom.


DM - De onde vem a sua criatividade para a construção de telescópios de materiais inimagináveis?
BR -
A gente nasce com ela. É como se tivesse sido programado, como se fosse um programa de computador. De repente aos 12, 13 anos comecei a gostar de astronomia. Esse foi um grande momento pra mim, mas eu não esperava gostar de astronomia não. Eu gostava de astronomia como hobby. Mas a coisa foi crescendo e fui me aperfeiçoando muito. Fui me munindo de livros, literatura, consultava muito a biblioteca da escola de engenharia, que tinha alguns livros interessantes.


Eu tive alguns mestres, alguns virtuais como Jean Texereau, que foi o meu grande mestre, célebre construtor de telescópio, francês, tem até um livro muito interessante de construção de telescópios. Cheguei até a trocar carta com ele no passado. Fui desenvolvendo essa habilidade na produção de telescópio, que não é fácil. No Brasil não tem material para fazer telescópio, não tem vidro próprio para isso, dificilmente você encontra os esmeris e os pós para polir. Você tem que importar as máquinas, eu mesmo construí as máquinas.


Comprei máquinas velhas, mecânicas para fazer os espelhos, as lentes, eu mesmo construí todas essas máquinas. E adaptei outras compradas em ferro velho para essa função. E para executar a parte mecânica do telescópio, eu comprei essas máquinas aqui, são antigas, mas que funcionam bem. Para o nosso trabalho, que é semi-artesanal até que elas funcionam bem. Só que infelizmente é pequena.


DM - Como foi largar a carreira de professor universitário na UFMG para trabalhar como ótico no Observatório da Serra da Piedade?
BR -
Não foi fácil não. Quando eu estava começando a fazer mestrado, na faculdade de Farmácia, com um grande professor, a minha área era outra. Tinha sido convidado para fazer o mestrado e eu tinha uma habilidade muito grande para mexer com câmeras e máquinas.


Eu adaptava uma máquina fotográfica para um microscópio, fotografava bactérias, como trypanosoma cruzi e amebas. Eu montei um dispositivo que fotografava livros para dar aula e todas as minhas aulas eram ilustradas com slides. O pessoal gostava do meu trabalho, eu era constantemente convidado para trabalhar aqui e ali.


Fui desenvolvendo a estabilidade e, de repente, deu à louca e larguei mesmo. Deixei a minha profissão e fui para a Serra da Piedade trabalhar como ótico e manter o observatório. Foi quando então eu me aperfeiçoei muito porque eu tive acesso ao departamento de física, que é muito bom. A biblioteca do departamento tem centenas de livros, dezenas de revistas sobre ótica, mecânica e física.


Tenho hoje milhares de artigos xerocados, milhares de tecnologia de vácuo, que eu gosto de mexer, manipulação de vidros, então é um universo que a gente precisa concentrar nele, mergulhar e que é muito difícil de achar no Brasil.


Fui levando uma empresa pequena, que luta com dificuldade até hoje, e eu acompanhei os alemães no desenvolvimento dos telescópios de lá. Em 1972, eu já era professor na UFMG, e acompanhei o Henrique Vicrota nas andanças dele para conseguir dinheiro para a construção do observatório. Ele era professor na faculdade de odontologia, nada a ver com a física. Mas ele era amigo do governador Israel Pinheiro e conseguiu com o governador o dinheiro para a construção do observatório na Serra da Piedade. Aliás, é município de Caeté, onde Israel Pinheiro inclusive está enterrado na sua terra natal. Então eu acompanhava o Vicrota e fiquei interessado.


Portanto, acompanhei os alemães que vieram aqui e instalaram o observatório e achei interessante. Eles tinham muita tecnologia em 72. Eu fiquei vários meses com ele. Subia na Piedade pra ver todo o trabalho. Conversava com eles e me passavam muito conhecimento, como é que as cúpulas eram feitas. Lá eles terceirizam a cúpula, pois eles não constroem. Mostravam-me também os telescópios, então comecei a fermentar a construção de observatórios.


DM - Como se iniciou o projeto de implantação de Observatórios Astronômicos? Quantos já foram construídos?
BR -
Em 1995 eu, de vez em quando, dava algumas aulas no colégio Santo Agostinho. Eu levava telescópios lá pra eles. E eles gostavam. De repente, o Santo Agostinho começou a construir um prédio. Eu tive uma ideia louca junto com o engenheiro que estava construindo-o. Eu disse a ele: "Quem sabe não vamos colocar um observatório aqui." Ele me falou: "Você é louco? Colocar um observatório". Mas ele comprou a ideia. Ele batalhou pela causa, o Osvaldo Neri, que era o engenheiro da construtora que construiu o prédio do colégio. Ele falou pra mim: "Professor, eu vou construir esse observatório aqui, eu dou um jeito de construí-lo". Na época, eu já tinha mudado para esse espaço aqui, porque a outra oficina era muito pequena. Então nós começamos a construir o observatório.


Lá foi a primeira cúpula que eu construí de alumínio. Então eu fiz a cúpula, fiz um telescópio, coloquei todo o mecanismo e foi uma guerra para colocar aquela cúpula de 3,90 m lá pro alto do prédio, 11 andares. Foi uma coisa louca, mas eu implantei o observatório lá no Santo Agostinho.


Depois fui chamado por um médico oftalmologista, amigo meu, e pediu pra montar um observatório pra ele no Retiro das Pedras. Montei um pequeno observatório pra ele. E com isso foi evoluindo. Depois montei outro na escola de Nossa Senhora de Nazaré, em Conselheiro Lafaiete, um colégio que tem mais de 100 anos, colégio de freiras.


Montei também outro na Universidade Federal de Viçosa, professor Evandro Passos. Ele tem um trabalho muito bonito lá na universidade, que é o centro de referência do professor. E fui montando assim. Todos esses observatórios foram deficitários. Eu tomei grande prejuízo nesses observatórios, principalmente no da Universidade de Itaúna.


Logo em seguida, montei um para o colégio Santa Dorotéia e outro para um pessoal de São Paulo que, inclusive, estão automatizando para o pessoal que acessa a Internet. Eu pedi para que eles disponibilizassem na internet para os estudantes e certamente eles vão liberar.


Agora o pessoal vai apresentar uma proposta para a automação dos telescópios do observatório no Instituto Nacional de Astrofísica, em Itajubá, e colocá-lo à disposição dos jovens do Brasil inteiro. Então ele não precisa estar necessariamente lá. Ele pode ganhar uma olimpíada de física e consequentemente ganhar horas de trabalho lá no observatório, por exemplo. Então vai despertar o interesse das pessoas. O jovem vai poder chegar lá, apontar o telescópio pra Lua, a cúpula vai rodar, ela é sincronizada, motorizada. Todo mundo vai se interessar por várias áreas, física, matemática, geografia, enfim, muitas coisas. É uma forma de induzir o jovem a ler. O Brasil está muito mal classificado em termos de leitura no mundo. A ideia é levar conhecimento ao jovem.


DM - Qual a sensação de ser chamado na comunidade astronômica de "Professor Pardal"?
BR -
Toda vida o pessoal sempre me chamou assim. Porque eu sou inventor. Aqui na oficina nós temos um grupo de inventores e se eles não fossem inventores eu não conseguiria, em hipótese alguma, fazer o que eu faço. Porque aqui tudo é invenção. Os métodos de fabricação do telescópio, as máquinas que eu criei para fabricar os espelhos, os dispositivos que eu coloco nas máquinas para poder fazer peças que eu não tenho condições de comprar. Então realmente eu me tornei inventor e não tem como registrar tanta patente. O Brasil cria obstáculos até para você registrar a patente.


DM - Como você analisa a situação da Astronomia no Brasil?
BR -
A astronomia no Brasil está crescendo muito. O maior telescópio do Brasil fica em Itajubá, no sul de Minas. Um telescópio americano de 1,60m. Eles têm um bom telescópio e uma equipe de cerca de 100 pessoas. Eles têm uma sede em Itajubá e a sede fica em Brasópolis a 1840 m de altitude no Pico dos Dias.


Eles estão em convênio com americanos, ingleses, canadenses e têm convênio com três telescópios, o Soar, e tem o Gêmini norte e o Gêmini sul. O Soar com 4,20 m e os dois Gêminis com 8 m cada. Eles possuem um grupo trabalhando nesses instrumentos, que não foram construídos no Brasil, então tem crescido demais. Isso também tem que ser válido pelo trabalho feito pelos astrônomos amadores, porque eles incentivam os jovens desde cedo. Muitos e muitos astrônomos profissionais hoje fazem Física na UFMG para se dedicar à astronomia, começaram como astrônomos amadores.


DM - Em seu perfil no site telescopios.com.br, consta que o senhor participou de quase todos os movimentos para divulgar e incentivar a astronomia em Minas. Qual sua maior conquista? Pelos movimentos em vão, a que o senhor atribui a "derrota"?
BR -
Em 1967, começamos um projeto de implantar um planetário em Belo Horizonte. Começamos ainda com o Vicrota e, depois que eu entrei como presidente do Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais, batalhamos muito. Conseguimos um planetário, depois eu me afastei da UFMG e consequentemente desse projeto, mas o professor Renato Las Casas, também da UFMG, comprou essa briga e ele vem batalhando nesse projeto do planetário.


Então uma das conquistas iniciadas por mim foi à obtenção de um planetário por Belo Horizonte, que foi instalado dentro de um projeto do governo do Estado, na Praça da Liberdade. Não era o planetário que nós queríamos. Eu já cheguei a ter com um determinado prefeito um contrato de um grande planetário, mas ele não acreditou no projeto. Tentei colocar o planetário no Parque Municipal, depois falei com ele que colocaria o planetário no Parque das Mangabeiras. Seria cultural e turístico e depois tentamos colocar na Pampulha. Não conseguimos de forma nenhuma.


Mas aí houve doação de uma quantia razoável de cerca de R$10 milhões, por uma empresa telefônica e o planetário foi comprado na Alemanha e está funcionando hoje na Praça da Liberdade. Essa foi uma das conquistas iniciadas por mim em 1967. Outra conquista foi ter acompanhado de perto a construção do Observatório da Serra da Piedade, acompanhei desde a década de 60, quando o Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais queria instalar um observatório em Minas, mas um observatório de maior porte.


A minha conquista foi a implantação desses observatórios. Eu coloquei um em Teresina, no Piauí. Estamos tentando interiorizar a astronomia para levar conhecimento. E agora, estamos tentando levar para a cidade de Baturité, no Ceará. Eu percebo que tem muita gente inteligente e com vontade de aprender e evoluir também no interior do Brasil. Não é fácil convencer quem tem o direito a fazer isso, às vezes não é muito dinheiro. E esse projeto está indo em frente e eu to batalhando pra viabilizá-lo.


Já o projeto do planetário quase que foi uma derrota, porque nós tentamos tudo e não tinha como convencer os políticos. São eles que manipulam o dinheiro. Não conseguimos também pela UFMG, mas nunca se desistiu dessa ideia do planetário.


DM - O senhor recebe recursos públicos e/ou privados para desenvolver suas pesquisas e trabalhos?
BR -
Não. Eu tenho que sobreviver do que eu consigo gerar dos meus próprios recursos. Nunca recebi. Eu tenho que fazer, construir os telescópios, tenho que receber alguma quantia, até porque eu tenho uma equipe aqui comigo, porque tudo gera custo. Eu tenho que comprar peças também. Com isso, procuro dar aulas, palestras.


O Brasil é um país pobre em ciência da tecnologia, nunca se preocupou em investir, o que é ruim. O país é um grande exportador de minério e de produtos primários. Tanto que está exportando para China alumínio e ferro. Eles mandam telescópio, microscópio, binóculo, luneta e bússola.


Nós tentamos fabricar tudo isso, mas não conseguimos porque não temos investimentos pra isso. O custo no Brasil está muito elevado, o dólar muito barato, então não vale a pena você fabricar. Existem muitas empresas aqui em Belo Horizonte que tentaram fabricar muitas coisas e que quebraram. Você não tem um ambiente aqui no Brasil para fazer a ciência da tecnologia. A carga tributária é elevada e a complexidade de uma empresa no Brasil é muito grande.


DM - Existe algum tipo de luneta/telescópio amador que seja fácil de fazer e que o senhor, considerado pela comunidade científica um dos principais especialistas brasileiros na construção de telescópios, possa ensinar aos internautas?
BR -
Nós tentamos fabricar aqui um telescópio muito simples, mas só que hoje ficou tão barato comprar os instrumentos dos chineses que hoje você compra uma luneta chinesa por R$280,00 que consegue ver, pelo menos, as crateras da Lua, os satélites de Júpiter. Então não vale a pena fabricar esses projetos.


Nós tínhamos um projeto para que a própria criança consiga construir. Fornecíamos o básico pra ela, mas nós não conseguíamos executar esse projeto porque precisaria contratar mais gente, treinar pessoas, colocar máquina para funcionar. Então tudo isso gera um custo elevado, e acaba que causa uma complicação tremenda.


DM - Qual a situação mais assustadora/inusitada/agraciadora que você vivenciou com os olhos atentos ao céu?
BR -
Foi o choque do cometa Schumacher-Levy em Júpiter, que eu observei. Observamos inclusive com um telescópio grande lá da Serra da Piedade. Foi uma coisa impressionante porque o que aconteceu por lá pode acontecer conosco também. Foram 14 fragmentos e aí extinguiria a vida em nosso país. Mas Júpiter, nesse caso, foi um salvador da pátria do planeta Terra.


DM - Qual a melhor época para visitar o Observatório da Serra da Piedade?
BR -
A partir de abril, quando o céu começa a limpar, maio, junho, julho, agosto, o observatório lá da Serra da Piedade fica aberto todo primeiro sábado de cada mês e as pessoas podem ir lá visitar. Eventualmente, eu vou. Costumo ir, apesar de não fazer parte. Dou algumas aulas a convite. Mas tenho certeza que eles não vão se arrepender. Aqui também no Instituto Agronômico acredito que a partir de março ou abril deve abrir para o público.


DM - Para o senhor o que existe/significa (n)o céu? E além dele?
BR -
Olha, o universo é uma coisa fantástica. Ele vai além da nossa imaginação. Porque nós fazemos parte dele, mas nós vivemos em um pequeno mundo que nós não percebemos isso. Fazemos parte de um universo imenso e que não temos dimensão das coisas. Um planeta que consegue reunir todas as dimensões possíveis e existentes para que haja vida lá, é impossível ou, se existe, é muito difícil. O mesmo átomo que está dentro do Sol, de um monte de estrelas, está dentro de nós. O ferro, que também faz parte da composição das estrelas, está dentro da nossa hemoglobina, então tudo isso é muito importante. Precisamos levantar a visão para cima e sermos seres mais conscientes e podermos contemplar a grandiosidade infinita do universo. Porque o universo não tem explicação. O universo é inexplicável.

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