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Tião Rocha - Dezembro 2010

  • Tião Rocha - Divulgação/Carol Rolim

Para fechar o ano de 2010, o Descubraminas traz na seção "Entrevista do Mês", o educador, antropólogo e folclorista Sebastião Rocha. Tião, como gosta de ser chamado, é o fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento - CPCD - que auxilia crianças e jovens carentes em sua formação educacional. Em um ótimo bate-papo, ele conta histórias, passa vários ensinamentos e fala um pouco da situação da educação no país.


Hoje nós estamos associados com muitas instituições, empresas, inclusive, que estão pensando a mesma coisa. Como pensar essas cidades sustentáveis. A ideia é ampliar isso. Dar seguimento a esse trabalho que já vem sendo feito. Eu quero estar até o dia anterior a minha partida me dedicando a isso. Isso pra mim não é trabalho, é uma causa.


Por Gabriela Sthefânia, Jéssica Andrade e Thiago Antunes


Descubraminas - Você é natural de Belo Horizonte. Conte como foi a sua infância?
Tião Rocha -
Nasci aqui, nessa rua, nessa casa no bairro Santa Tereza. Eu fui menino de rua. Tive a melhor rua que você possa imaginar. Tem uma coisa que me marca muito. Quando fui à escola pela primeira vez, Sandoval de Azevedo. Primeiro dia de aula minha professora Dona Maria Luiza Travassos pegou um livro das mais belas histórias e começou a ler. "Era uma vez, num país muito distante, tinha um rei e uma rainha..." Aí, eu levantei a mão e falei: "Professora, eu tenho uma tia que é rainha." Aí ela falou: "Tá bom meu filho, senta ai quietinho, vamos escutar a história." E continuou lendo. Eu disse de novo: "Professora, eu tenho uma tia que é rainha." Ela falou: "Cala a boca meu filho! Eu já falei que isso é história da carochinha, não existe não." Da terceira vez ela desistiu e me levou pra sala da Dona Ondina. Aí ela falou: "Ó, esse menino está toda hora falando que tem uma tia que é rainha e tal." Aí a diretora disse: "Já começou a atrapalhar a aula é? Você quer ser expulso, quer que eu mande você embora? Volta pra sala e presta atenção na aula." Eu tinha sete anos, nunca tinha ido numa escola e depois disso nunca mais abri minha boca.


Mas um dia eu saí de uma escola primária e fui para o ginásio. Eu fui para um colégio estadual. Primeira aula que eu tive, para o meu azar, foi de História. Professor José Ramos. "Nós vamos aqui estudar história do Brasil... Os reis de Portugal..." Aí, o abestado aqui (risos): "Professor, tenho uma tia que é rainha." Aí ele disse: "Pô cara, começou mal hein! Como você se chama? Tião... Olha sua cor, não enche meu saco." Fui motivo de gozação e nunca mais falei isso pra ninguém. Quando foi a época de fazer vestibular, eu não queria estudar nada e decidi morar em Ouro Preto. Um dia estava lendo uma história de um livro "Um Deus Desconhecido", de John Steinbeck, sentado atrás do cemitério de São José e me dei conta naquele momento que eu não conhecia nada daquela cidade, da história e que tinha perdido a história da minha tia. Aí eu falei que queria recuperar isso. Vim correndo pra Belo Horizonte e fiz vestibular para estudar História.


Fui o melhor aluno que o curso teve. Tive aula de todas as dinastias, todos os reis e nunca tive uma aula sequer sobre a minha tia. Fui falar com o meu professor Caio Boschi: "Professor, vim pra cá pra estudar a história da minha tia, nunca tive uma aula. Tive todos os reis." Aí ele falou: "Você veio pro curso errado, cara! Não é aqui. Vai para Antropologia." Aí eu fui e virei antropólogo. Fui lá, fiz Antropologia, virei especialista em Cultura Popular e Folclore. Então se eu estou aqui hoje, fazendo o que eu faço, é por causa da minha tia que foi Rainha Perpétua do Congado, no bairro São Geraldo.


DM - Quando você descobriu que queria se tornar um educador?
TR -
Eu percebi que tinha que mudar no dia em que eu perdi um aluno. Dava aula de História, em uma escola de Belo Horizonte e na PUC, a mesma aula de História que eu dava no colégio, eu dava na universidade. E eu tinha uma turma que era excepcional e tinha um aluno que era excepcional. Então toda vez que eu dava aula pro Álvaro, eu sabia que eu tinha que estudar porque amanhã tinha aula com o Álvaro. Menino da sétima série. Era uma escola de classe média alta. E esse menino jogava bola, tocava flauta, normal, não tinha nada de superdotado.


Um dia cheguei na escola e fiquei sabendo que o Álvaro morreu. Eu falei: "Como um menino de 14 anos morre?". Chegando no velório, os pais me procuraram e me perguntaram: "O que aconteceu?" Eu falei: "O Álvaro morreu. Mas morreu como? Ele se matou. Se jogou do alto de um prédio. Mas por que?" Aí os pais falaram: "Olha Tião, essa é a pergunta." A esposa dele disse que o professor Tião Rocha é que iria saber a resposta, o porque que esse menino se matou. Ele era apaixonado por ele, só falava no professor Tião. Eu disse: "Não sei, desculpa, mas não sei." Ela falou: "Se o senhor não sabe, a gente não vai saber nunca porque não tem nada registrado." Isso foi uma marca pra mim. Depois disso eu fiz um compromisso comigo mesmo.


Nunca mais eu perco um aluno. Claro que eu já perdi por outras razões. Mas tem uma coisa, eu nunca mais eu vou ser o mesmo professor. Eu quero saber a história das pessoas primeiro. Chegou a um determinado momento, que eu fui dar aula na universidade em Ouro Preto e um belo dia eu tive uma coisa. Que os americanos chamam de "insight" e nós em Minas chamamos de clarão mesmo (risos). Cheguei na universidade e falei: "Chega! A partir de hoje eu não quero ser mais professor." Me perguntaram: "O que aconteceu?" Eu disse: "Eu quero ser educador." Eles falaram: "Para com isso, né bicho! É a mesma coisa, o mesmo salário, a mesma merreca. São sinônimos." Eu falei: "Não, eu acabei de perceber que são coisas absolutamente diferentes.


A diferença é que professor é aquele que ensina e o educador é aquele que aprende. E eu percebi que eu tenho que sair desse lugar, da "ensinagem" para o lugar da aprendizagem. E essa instituição precisa, mais do que eu, fazer isso. Porque nós estamos aqui fechados entre as quatro paredes, respirando gás carbônico e o único assunto que eu escuto aqui é eu te cito e tu me citas. Essa conversa no departamento, no colegiado, na congregação, toda vez que eu conversava, ao invés de gerar discussões, ela fechava portas. E eu percebi então que a universidade não queria educadores, queria professores.


Percebi que estava no lugar errado. Passei no departamento pessoal, falei com o chefe que queria sair. Para a minha surpresa, ele falou que eu não podia me demitir. Mas aí saí com a cabeça cheio de ideias e de perguntas e resolvi criar um espaço de aprendizagem. Então eu virei educador de ofício.


DM - Como surgiu a idéia de fundar o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento?
TR -
Criei, há 26 anos, o CPCD, Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, que é uma instituição guarda-chuva, que é o espaço no qual onde você pendura suas perguntas e anseios e trabalha na resolução dessas perguntas. Eu sou um apaixonado pela obra do Guimarães Rosa e um dia li uma carta dele que dizia: "Curvelo é a cidade natal da minha literatura." Eu falei é pra lá que eu vou então. Fui embora pra Curvelo, entrada para o sertão. Fui atrás, comecei a conviver com os personagens do Guimarães Rosa, a história nos mercados, feiras. Mas aí eu comecei a perceber que lá tinha muito menino. Aí eu perguntei: "De onde que sai tanto menino aqui no sertão?" Eles falavam: "Isso é por causa do pequi." E eu disse: "Mas o que que tem o pequi a ver com isso?" Eles disseram: "O pequi é afrodisíaco." Mas depois eu descobri que não era só o pequi que tinha a ver com isso, é a questão ambiental também. Porque se você não desmata o cerrado, e o pequi dá duas, três safras, nove meses depois dá os filhos pequizeiros.


Agora eu queria saber que futuro esses meninos têm. Não havia escola, e quando tinha os meninos não ficavam nela. As escolas os expulsavam muito rapidamente. É possível sim fazer educação sem escola. É possível sim fazer boa educação debaixo do pé de manga. Só que é impossível fazer educação sem ter bons educadores. Os bons educadores fazem a boa educação. Então construí esse processo. E a outra descoberta desse aprendizado nosso foi que esses educadores não estão vindo nem na quantidade e nem na qualidade de onde deveriam vir, das escolas de formação, das universidades. E que nós poderíamos formar os educadores nos lugares onde a gente fosse trabalhar. O CPCD trabalha no Brasil, no exterior, em qualquer parte do mundo fazendo educação porque não importa, as pessoas estão lá.


DM - No CPCD você desenvolve vários métodos pedagógicos, como aprender brincando. Como é a aceitação das crianças perante esses métodos?
TR -
A nossa prática é simples. Você tem uma pergunta, um desafio e uma encrenca. Nós começamos a fazer esse trabalho na roda. E se desenvolveu, se consolidou, até que virou a pedagogia da roda. Um dia nós nos perguntamos se é possível as crianças, os meninos e meninas precisam aprender tudo o que deviam aprender brincando, de forma alegre, prazerosa. A outra pergunta é se a escola tem que ser o serviço militar obrigatório aos sete anos. Será que a gente pode ter uma escola alegre, prazerosa, tão boa, que os alunos, professores exijam aulas aos sábados, domingos e feriados? Será que a gente pode fazer um lugar de aprendizagem com alegria, prazer ou a aprendizagem tem que ser carrancuda? Aí nós desenvolvemos o projeto "Ser Criança", que começou em Curvelo, se multiplicou também, etc., e nós, ao final desse aprendizado, chegamos à conclusão de que é possível os meninos aprenderem tudo brincando.


Eu fiz a primeira roda de meninos, 26 anos atrás, 120 meninos, idades variadas, dos sete até os 15 anos. Disse a eles que nós iríamos estudar, trabalhar, brincar, plantar, comer, lavar, fazer tudo brincando. Ninguém precisa comprar brinquedo pra menino, porque eles são capazes de criar os brinquedos necessários no seu tempo e no seu ritmo. E aí a gente sem nenhum discurso panfletário, ambientalista, tudo o que era lixo, resto para as outras pessoas, para nós era matéria-prima para a gente fazer coisas, brinquedos e jogos. Desse processo a gente percebeu que um dia isso não era só lúdico, vai dar pra aprender lógica, raciocínio, comunicação, história, matemática, geografia, ética, solidariedade, sexualidade, disciplina, etc.


DM - Quais os Estados ou países que você teve a oportunidade de divulgar esses projetos? Atualmente onde ele está sendo desenvolvido?
TR -
Nós trabalhamos no lixão de Vitória, Espírito Santo. Montamos lá um projeto no lixão que virou bairro resistência, aí o projeto gerou uma associação, se emancipou. Hoje é uma ONG local. No sul da Bahia, lá no Baianão, em Porto Seguro. Atuamos também no Maranhão, no Laranjal do Jari, entre o Pará e o Amapá, onde tem a maior favela fluvial de palafitas. Em Minas aqui no Vale do Jequitinhonha. Em São Paulo, em Santo André. Fora do Brasil temos em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, e principalmente Moçambique. Lá trabalho há muitos anos com a formação de educadores que trabalharam com as crianças e jovens que viviam nos campos de refugiados de guerra, no período de pós-guerra na revitalização do país. Hoje eu tenho cinco pessoas do CPCD trabalhando em 17 cidades do Maranhão. Eu vou semana sim, semana não pra lá. Nós estamos lá para fazer a redução da mortalidade infantil e neo-natal. Mobilizar as pessoas a cuidarem das crianças. Em Minas tem em várias cidades como programa cidades educativas e cidades sustentáveis. Aí tem Raposos, Araçuaí, Virgem da Lapa, e vamos começar em Caratinga, Serra da Moeda e tem um monte que estão na fila.


DM - Qual o maior obstáculo que você enfrentou durante esses 26 anos do CPCD?
TR -
O maior obstáculo, primeiro, fomos nós mesmos. Sair da caixa. Porque existe uma confusão que a maioria das pessoas fazem quando falam em educação. Elas pensam em escola, mas são coisas distintas. Então nós temos um problema de educação, porque todo mundo quer falar de educação, mas ninguém mexe na escola, dentro dela, não muda conteúdo, currículo e o jeito de ensinar são poucas. Sair da fôrma é romper com uma tradição, que é bom você ficar dentro dessa lógica. Isso gera comodismo. Quando você trabalha em grupos, comunidades que sofreram processos de violência contra seus valores, aí estão de baixa auto-estima. Mas isso tem um limite. O cara que está abaixo da linha da auto-estima já e auto-desprezo. Nós temos que tirar de lá e colocar ele lá pra cima. E quando as pessoas se sentem mobilizadas e botam tudo na conta de terceiros, essa é uma lógica complicada.


Você aprende na escola, na rua, na praça, no trabalho. Você tem que criar espaços permanentes de aprendizado. É um exercício permanente. Acho que mudar esse jeito é um grande obstáculo. O que nós aprendemos no CPCD é aprender a olhar para uma determinada realidade. Nós fomos treinados a olhar para uma realidade na comunidade, pelo IDH, Índice de Desenvolvimento Humano. Ele mede, como se fosse um copo cheio. Quando você olha para o copo você fala, ele tá meio cheio ou meio vazio? Depende. Mas o IDH olha sempre o lado vazio. Porque ele mede carências e quando você olha para um lugar pelas carências você começa a fazer políticas que tenham que suprir carências. É de fora pra dentro que é a transformação. Só que isso não transforma. E você olhando carência é um conceito muito etéreo. Quem que é carente? É o cara que mora na periferia ou nós que somos carentes porque falta ética na política? No Supremo Tribunal Federal não tem a mínima ética com que os juízes decidem, na câmara, no senado, em nada. Pô, carente sou eu que o meu time não ganha um título há 30 anos! Haja carência!(risos) Então, como se olhar o lado vazio? Você sempre acha que a solução é de fora pra dentro. Mas, pra mim, sempre interessa olhar o lado cheio. Pode ser um pouquinho, mas o que me interessa é o que tem. E isso aqui não é IDH, é IPDH, que é o Índice de Potencial do Desenvolvimento Humano. Qual que é o potencial de desenvolvimento humano que existe nessa comunidade? É a capacidade que essa comunidade tem de acolhimento, com não exclusão de ninguém, de convivência e a não descriminação de ninguém, é a aprendizagem e a geração de oportunidade. O copo começa a encher e ele se multiplica de dentro pra fora.


DM - Você já ganhou alguns prêmios por reconhecimento do seu trabalho? Como você se sente em relação a isso?
TR -
Ganhei o prêmio Criança - 1995 - da Fundação Abrinq - por projeto de educação, o prêmio Itaú - UNICEF - Ser Criança 1° lugar, também em 1995, com o projeto Sementinha, sou líder social brasileiro no fórum de líderes. Em 2007 me tornei empreendedor social mundial da fundação Schwab, que te dá uma visibilidade mundial. Recentemente me tornei Mineiro de Ouro, pelo jornal Estado de Minas. Então tenho aí alguns prêmios. Claro que é muito bom. Você sentir que o seu trabalho atinge alguém, sensibiliza, surte algum efeito. Eu sou um privilegiado. Primeiro que eu nasci e sobrevivi até os meus sete primeiros dias de vida, quando centenas de milhares de meninos morrem nos primeiros sete dias. Sou privilegiado porque fui alimentado, tive uma família, que me acolheu, que me cuidou. Pude estudar em uma escola, depois entrar em uma universidade. Sou privilegiado também porque pude viajar e conhecer o mundo. Então quando eu chego em um momento que eu tive muito privilégio, você tem que devolver sob forma de trabalho, não como privilégio, mas como direito para as pessoas. Cada vez que eu recebo um prêmio, eu falo isso. Porque isso vai me dar mais força pra continuar acreditando em tudo. E consequentemente, usar e ser mais responsável. Eu me sinto no dever de continuar o meu trabalho porque ele está longe de ser alcançado, eu to longe do caminho.


DM - Como é a participação dos parceiros e, principalmente do governo, com relação ao CPDC?
TR -
Nos primeiros 10 anos do CPCD, de 1984 a 1995, todos os recursos que nós tínhamos para o nosso trabalho vinham do exterior, através de fundações internacionais. Quando começamos a ganhar prêmios aqui no Brasil, as fundações brasileiras passaram a nos apoiar. A partir do ano 2000, nós começamos a ser chamados por prefeituras, órgãos de governo para ajudá-los a construir políticas públicas. Quando o projeto "Sementinha" virou política pública, com educação infantil, em mais de 20 cidades, é porque a cidade apropriou e incorporou aquilo. Hoje, o nosso grande parceiro no Vale do Jequitinhonha é a Petrobrás. Através de edital, ou de convite. Pontualmente a gente recebe convites. Por exemplo, a gente recebe projetos de economia sustentável, recebemos o apoio do Ministério da Educação, mas não temos nenhuma ação articulada e não nos preocupamos com isso. É uma questão que vem do nosso aprendizado, a gente percebeu que, inclusive é uma das questões que estão na nossa bandeira, que nós podemos e devemos fazer política pública. Temos que sair da caixa. Quem é que fala que política pública tem que ser governamental?.


Eu faço política pública não-governamental. Nós cuidamos do social, do público. Esse tipo é um jeito de mudança de mentalidade. E hoje dentro dos fóruns que eu participo eu boto uma banca, uma mesinha, que é chamado de setor zero. Setor zero é o seguinte, nós fomos divididos em pedaços. Existe governo no primeiro setor, as empresas no segundo setor e as ONG's no terceiro setor. Cada um cuida de um pedaço da fatia. Isso é muito legal, mas não transforma coisa nenhuma. Cada um fica no seu pedaço e terceiriza. O setor zero não é voltado nem pra política de qualquer governo, nem pra política de mercado e nem pela sociedade. É pela ética. Por uma questão de ética, eu quero fome zero. Porque não é ético que a gente morra de fome em um mundo onde há tanta comida. Eu quero também degradação ambiental zero. Nós não podemos atear fogo e polua o planeta, isso não é ético. Eu quero violência contra a criança e contra a mulher zero. Eu quero analfabetismo zero. Eu quero corrupção zero. Por isso eu criei o setor zero. Então por questões éticas nós temos que salvar o planeta, salvar as crianças. Então pra mim não existe essa coisa de bandeira partidária. É ético então vem todo mundo junto.


DM - Você percebia, desde o começo, o poder de impacto social do projeto? Qual a participação da sociedade no seu desenvolvimento?
TR -
Nem pensava. Quando você olha pra trás, você vê o passado. Ele você pode estudar, mas não pode mudar. Passou, não adianta mais, mas o aprendizado vai. Eu tenho algumas convicções que se eu fizer isso e isso eu vou chegar até aqui. Então é um aprendizado. Guimarães Rosa dizia que a gente tem que caminhar, de perseguir o acontecido, ir atrás dos acontecimentos. Mas, você corre o risco de ficar lá no passado e não voltar mais. Você tem que saber a dose certa para poder alcançar objetivos mais longes. Então eu quero construir cidades educativas, cidades sustentáveis, quero o setor zero. Eu to longe disso. Mas tenho convicção de que seu ficar trabalhando nessa direção, eu vou conseguir. Se não conseguir, pelo menos quem está vindo atrás pode pegar carona e seguir em frente.


DM - Algumas crianças não se interessam pela leitura. O que seria necessário para que elas pegassem "o gosto" pela prática de ler?
TR -
O nosso aprendizado se dá por três coisas: por imitação, por observação e por experimentação. A criança vê você fazendo uma coisa, observa aquilo e imita. Se ela gostar ou não, já é outra história. Mas ela passou por esse processo. Então a prática de ler tem que ser estimulada sob várias maneiras. A experiência que fizemos há muitos anos atrás, e que deu origem ao Ser Criança, foi fazer a seguinte pergunta: Os livros perderam o encantamento ou é a escola que não soube mantê-los encantados? Foi uma pergunta que eu me fiz há 20 tantos anos atrás. Como eu tinha dúvidas, nós pegamos um monte de livros, fomos para as ruas de Curvelo, para as praças, embaixo das árvores e colocamos livro, revistas, essas coisas. A meninada chegava e falava: "Quero esse livro. Pode pegar?" Eu falava: "Pode. Sabe ler?" Eles diziam: "Sei sim." "Então pode escolher. Só que tem uma coisa. Tudo que você ler e fizer aqui você vai ter que interpretar. Tá vendo aquele monte de sucata, aquele poste? Se você for para um lado você vai transformar em teatro, se for para aquele lado vai ter que transformar em texto, se for para o outro vai ter que transformar aquilo em música.


Quem não sabia ler, a gente lia junto. Teve um dia que uma professora passou lá e disse: "Esses meninos são alunos meus. E mora longe demais. O que eles estão fazendo aqui?" Eu falei: "Eles estão aqui todos os dias". Ela me disse Mas eles nunca entraram em uma biblioteca e vieram pegar livro aqui?Por quê?" Aí eu disse: "Porque aqui é prazer. Lá é dever. Aqui eles não têm compromisso. É ler e viajar na imaginação." Isso deu tão certo que nós fazíamos de segunda a sexta e aos sábados a gente saía pelas ruas e apresentava o "Dia da Criação", onde mostrávamos o que nós tínhamos inventamos durante a semana. Tem uma menina chamada Jéssica em Virgem da Lapa, uma cidadezinha de 16 mil habitantes, perto de Araçuaí. Nós fomos lá, montamos um projeto, tiramos os meninos da situação ruim e criamos uma cidade educativa, que é aquelas que as bibliotecas funcionam 24 horas. É tão importante uma biblioteca funcionar 24 horas, quanto um hospital. Só que elas não existem. Bibliotecas ficam abertas só de segunda a sexta e até as 18h.


No dia da inauguração da biblioteca o prefeito estava do meu lado no dia e falou assim: "Você tá me provocando?" Eu falei: "Não. Quem sabe essa aqui não vai ser a primeira cidade com biblioteca 24 horas." Aí eu perguntei: "Quantas pessoas tem como sócios aí na biblioteca?" Ele me disse que eram umas 100 pessoas. Aí eu disse a ele: "No dia em que tiver 1000, você me liga que eu mando dar uma festa aqui." E ainda disse o seguinte: "Vamos fazer melhor ainda. A cada 1000 pessoas inscritas, 2000, 3000, 4000, nós mandamos dar mais festas. Quem sabe essa cidade vai ter um dia mais leitor do que eleitor? Truco!" Mais tarde, eu recebi um telefonema do prefeito que ele dizia assim: "Tião, temos 1038 sócios. Só que tem uma coisa. Tem uma menina aqui de nove anos, chamada Jéssica, que em seis meses leu 210 livros." Aí eu disse: "É verdade? Que loucura rapaz! Além da festa nós vamos ter que falar do Guiness Book, o livro de recordes. Isso é recorde mundial de leitura de livro." A Jéssica já leu mais de 600 livros em dois anos. Na biblioteca da cidade, na parede principal, advinha de quem tem a foto. Dela né?! Aí tem a foto dela, ao lado tem a foto de mais dois meninos que são concorrentes. Embaixo tem uma lista dos dez mais e mais embaixo ainda tem um livrômetro, contador de livros. Hoje essa menina tem uns 10, 11 anos e por onde ela passa ela encanta a todos. E a biblioteca abre todos os dias, fecha 22h. Uma maravilha. Tudo isso por causa da Jéssica. Eu quero construir um país de Jéssicas, porque elas existem.


DM - Quais são os seus planos para a seqüência da sua carreira?
TR
- Em 2011 o CPCD e eu continuamos na busca da construção do setor zero e das cidades sustentáveis. Há alguns anos atrás eu dei uma entrevista na Caros Amigos e o cara me falou assim: "Qual que é o seu sonho?" E eu disse: "Construir cidades sustentáveis." E ele: "Mas quantas?" Eu respondi:" Umas 5.000." Eu acho que toda cidade com pelo menos 50.000 habitantes ela tem condições de ser auto-sustentável. Toda cidade sustentável tem dois programas: um se chama O Meu Lugar é Aqui. Porque ninguém tem que sair do seu lugar pra ser feliz em outro. O outro programa chama-se Cuidando dos Tataranetos. É um programa que garante a vida para aqueles que virão depois de nós. Hoje nós estamos associados com muitas instituições, empresas, inclusive, que estão pensando a mesma coisa. Como pensar essas cidades sustentáveis. A ideia é ampliar isso. Dar seguimento a esse trabalho que já vem sendo feito. Eu quero estar até o dia anterior a minha partida me dedicando a isso. Isso pra mim não é trabalho, é uma causa.


DM - Estamos em época de Natal. Qual mensagem você deixaria de fim de ano?
TR
- Eu acho que sempre quando tem essa mudança de ano, Natal e Ano Novo, a gente sempre olha pra trás avalia e depois projetamos algo para um futuro próximo. Sempre desejamos para o outro que seja feliz. Acho que nós humanos estamos aqui de passagem, nós somos inquilinos, nosso tempo aqui é rápido, a vida é um campeonato de turno corrido, não tem segundo turno, não tem segunda divisão, não tem repescagem, não tem campeões. Nós vivemos e passamos por aqui por quatro coisas: para ser feliz, para ser livre, para ser educado e para ser saudável. Ser saudável é você estar bem fisicamente para realizar suas coisas, ser feliz, estar sempre de bem com a vida, alegre, ter suas realizações. Ser livre é para você usar todo o seu potencial de construção e ser educado é para você aprender permanentemente.

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