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Marco Túlio Lara - Outubro 2010

  • Marco Túlio Lara - Divulgação

Quando criança carregava o sonho de ser jogador de futebol, mas para a felicidade do público que gosta de um bom pop rock, Marco Túlio Lara, tornou-se um renomado guitarrista integrante de uma das maiores bandas do segmento no Brasil.


Muito simpático, o guitarrista abriu as portas da sua casa para um bate papo descontraído com o Descubraminas. Detalhe: em um dos dias mais importantes de sua vida e a poucas horas do nascimento de seu segundo filho [20 de setembro].


"[...] A gente tem tantos sonhos que às vezes a gente não queira nem admitir. Queremos que ele fique bem guardadinho com a gente. Sonho é algo que se renova a cada momento. Quando você realiza um sonho, você já está pensando em outro, é algo que, automaticamente, se renova. Viver sem sonhos deve ser muito difícil. Sem expectativas.[...]"


Por: Gabriela Sthefânia, Jéssica Andrade e Thiago Antunes.


Descubraminas: Como foi sua infância na capital mineira?
Marco Túlio Lara:
Nasci e fui criado aqui em Belo Horizonte e passei minha infância entre os bairros Cruzeiro e Anchieta. Eu morava em apartamento e, por isso, as brincadeiras, com os vizinhos de prédio, aconteciam na rua. Hoje em dia, a gente vê pouco isso. Tempos diferentes... Mas isso é normal. De geração em geração se vê mudanças significativas. Era tudo diferente da época do meu pequeno aqui [referindo-se ao seu filho que estava sentado ao seu lado]. Não vou dizer que é melhor e nem pior, apenas que foi uma fase diferente, boa.


DM: Você quase se formou em engenharia civil, como foi à transição para a carreira artística?
MT:
Na verdade, quando criança, carregava comigo o grande sonho de ser jogador de futebol. No colégio onde eu estudava me considerava o craque, mas lá só estudavam 500 alunos na época [risos]. Após algum tempo, fui para um colégio maior e cheguei lá achando que ia ter meu espaço para continuar a saga de "jogador" e não consegui nada. Nessa época eu tinha 12 anos de idade e já flertava com a música. Essa minha frustração do sonho de ser jogador de futebol coincidiu com o início dos anos 80, onde o rock nacional ganhou peso e começou a se tornar, de fato, um segmento e, a partir daí, abracei a causa da guitarra. Bandas como Blitz, Erva Doce, Paralamas, Legião Urbana estavam começando a despontar.


Paralelo a música, fui levando os estudos, mas era muito despretensioso. Fui conhecendo pessoas e, assim, montando bandinhas de bairro. Até que me formei no ensino médio e cheguei à idade mais decisiva, onde tive que tomar algumas decisões realmente difíceis. Foi ai que decidi por fazer engenharia. Quando resolvi largar a faculdade, foi um choque para minha família, pois lá em casa não tinha nenhum músico. A música sempre foi um ambiente muito instável devido à informalidade que ela vive e seu caráter subjetivo. Acho que hoje em dia, com mais realismo, tudo é um pouco instável. Mas, graças a Deus, ao longo dos anos, eu fui mostrando que era a música que eu queria. O fato de ter feito sucesso já é outra coisa. Acredito que o que me proporcionou isso foi o ambiente tranquilo da minha casa, somado ao fato dos meus pais terem enxergado que eu estava levando aquilo a sério. Muito mais a sério do que eu levava a própria engenharia. Acho que foi uma escolha correta.


DM: O surgimento do grupo aconteceu por iniciativa do baixista PJ e do baterista Paulinho Fonseca. Você juntamente ao tecladista Márcio Buzelin e o Flausino juntaram-se ao grupo posteriormente. Como aconteceu esse seu encontro com a banda?
MT:
A banda se deu da seguinte maneira: eu não conhecia o PJ [baixista], mas ele, por indicação, pegou meu telefone e me ligou falando que tinha um baterista [Paulinho] e que, juntos, estavam a fim de montar uma banda e que precisavam de um guitarrista. Eu topei na hora. Isso era uma coisa cotidiana na minha vida. Toda semana montava e desmontava uma banda. Nesta época eu tinha uns 20 anos. Quando a gente começou a tocar, éramos apenas nós três [PJ, Paulinho Fonseca e Marco Túlio]. De repente, essa banda tinha uma liga, uma coisa mais bacana e, naquele momento, a gente começou a vislumbrar e vimos que poderíamos levar a banda a sério, mais adiante. Era muito mais do que diversão.


A entrada do Márcio [tecladista] se deu neste período em que decidimos levar a sério. Eu já o conhecia, liguei para ele e disse que tinha uma banda, que estava bem bacana e ele, assim como eu, topou se integrar na hora. O Rogério foi o 14º vocalista. Passamos tempos tentando encontrar um vocalista, alguém que se identificasse com o que queríamos fazer, até que ele apareceu. Depois da entrada dele é que consideramos o início da banda. Esse foi todo o processo de encontros e desencontros até querermos sair da garagem.


DM: Você segue alguma tendência musical e/ou tem como referência algum músico?
MT:
Acho que em todos os ambientes tem muita coisa boa. Dentro do ambiente da música pop eu escuto um pouco de tudo. Gosto mais de ouvir Rock e Black Music ligada ao Soul. Não tenho preconceito, escuto um pouco de tudo, mas isso é o que eu gosto mais.


DM: De todos os álbuns do Jota Quest, qual foi o que mais marcou para você?
MT:
Todos têm uma característica marcante, positiva ou negativa e, assim como na fotografia, fica registrado aquele momento. Mas, o segundo álbum [De Volta ao Planeta] é um disco que me chama a atenção, que eu trato ele de uma maneira especial. É um "filho" que eu cuido com mais carinho do que os outros, porque eu acho que ele simbolizou, internamente, a abertura da banda musicalmente e artisticamente. Além disso, foi ele que popularizou o Jota Quest e deve estar, hoje, com um milhão de cópias vendidas. Esse impacto foi muito importante para o Jota deixar de ser uma banda segmentada e passar a ser uma banda pop com apelo de público.


DM: A banda já possui trajetória internacional e, ainda sim, vocês carregam traços e referências de Minas Gerais. O que Minas representa para vocês?
MT:
Somos todos mineiros, eu, Paulinho e Buzelin de BH, Rogério de Alfenas e PJ de Curvelo. O nosso encontro foi em Belo Horizonte e a nossa carreira inteira a gente morou aqui, desde o primeiro ensaio. O fato de levarmos a nossa vida aqui em Belo Horizonte, por mais que profissionalmente fosse benéfica a nossa ida para São Paulo ou Rio de Janeiro, foi um consenso ficar em BH e poder desligar um pouco da tomada aquele ambiente dos grandes centros, do caldeirão de vaidades. Às vezes até deu vontade de ir, mas nunca movimentamos nesse sentido, achamos que não seria fundamental para a banda, pelo contrário. A gente gosta muito de Belo Horizonte, temos um carinho muito grande com este lugar.


Sobre a trajetória internacional ela está começando. Ainda não consideramos que temos uma carreira internacional. Temos uma "coisa" em Portugal, alguns shows fora do Brasil, mas todos eles para comunidades brasileiras que moram no exterior.


DM: Fale para a gente um show inesquecível e se você tem vontade de tocar em algum lugar especial.
MT:
O show inesquecível para mim foi o da Praça do Papa, onde gravamos o nosso primeiro DVD. Foi um show inesquecível pelo tamanho e pela representatividade. Guardo-o com carinho porque foi o primeiro momento em que juntamos ali todo o nosso repertório para registrar, gravar, performance ao vivo... tudo isso junto. E ele ter sido bem sucedido só faz com que a gente tenha mais carinho. É uma história que a gente conta e que muita gente quis ter em casa para assistir e compartilhar com a gente aquele momento.


Quanto a um lugar que eu gostaria de tocar... [risos] Tem muitos lugares, mas um show aberto no Central Park, em Nova Iorque, é um show que eu gostaria muito de fazer. Nós já fizemos um show muito bacana no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, neste mesmo molde que eu tinha vontade de fazer no Central Park, foi muito legal. Se não tivéssemos feitos esse do Ibirapuera, talvez eu o citasse como opção, mas, sem dúvida, esse do Central Park seria especial.


DM: Você considera que ao longo da trajetória da banda houve transformações no seguimento musical?
MT:
Com certeza. A música é um veículo. Música pop é comportamento. Através da música você envia uma mensagem e, às vezes, muitas pessoas se identificam. Não é só a audição da música. Música é a presença, é o discurso, é dinamismo, transformação, é todo um pacote que vem junto. Os últimos dez anos, para a música, talvez tenham sido os mais dinâmicos, devido aos avanços tecnológicos. Até o formato de se ouvir música mudou. Hoje em dia você entra na internet e escuta as músicas que você quer, não mais uma obra inteira. São rituais diferentes e nós vamos observando e vivendo isso, porque é de interesse da banda também, se situar bem diante desse cenário todo. É uma mudança de comportamento generalizada. Essa mudança do espectador existe e a mudança interna da banda também, porque você vai vivendo, o tempo vai passando e as suas ideias vão sendo reforçadas ou se modificando. Enfim, isso tudo vai nessa mensagem que a gente envia o tempo todo.


DM: Qual a expectativa do Jota Quest em relação ao novo CD gravado em espanhol? O que o público pode esperar do conteúdo desse novo projeto?
MT:
A banda quer que dê certo. O dar certo é muito difícil de dizer, porque muitas coisas podem significar dar certo. O tamanho desse sucesso é algo que eu prefiro não ficar tentando dimensionar para não criar uma expectativa e que isso tire a lucidez do momento. A gente quer que dê certo, que outras gravações venham, enfim... Acho que esse é o nosso pensamento principal.


O que o público pode esperar é o Jota Quest que todo o Brasil já conhece. Um pouquinho mais velho [risos], mas não mais cansado. Nós juntamos todo um material e escolhemos algumas músicas que foram sucesso no Brasil e outras que achamos que combinam com o projeto. No CD em espanhol não tem nenhuma música inédita, são 12 músicas que já fazem parte do nosso repertório.


DM: Quais sonhos você já realizou em sua vida e os que ainda faltam realizar?
MT:
Nossa! Já realizei tantos. Estou com 39 anos e já realizei tantas coisas. Um sonho realizado é a minha família que é uma coisa maravilhosa, um núcleo que não existia no começo da banda e que surgiu e tomou conta. Passou a ser meu principal ponto de equilíbrio, preocupação e prazer. Outro sonho realizado é o de ter uma banda de sucesso e poder fazer disso uma profissão. A junção desses dois sonhos citados também é a realização de outro sonho, pois ter conseguido equacionar a família com a minha profissão, fazer tudo isso funcionar bem é uma coisa importante para que esses sonhos continuem sendo harmônicos.


Carrego comigo também o sonho de ter uma carreira latina, que estamos tentando começar ela agora com o lançamento do CD em espanhol. Meu sobrinho também é um sonho realizado. A gente tem tantos sonhos que às vezes a gente não queira nem admitir. Queremos que ele fique bem guardadinho com a gente. Sonho é algo que se renova a cada momento. Quando você realiza um sonho, você já está pensando em outro, é algo que, automaticamente, se renova. Viver sem sonhos deve ser muito difícil. Sem expectativas. Meu segundo filho [que nasceu poucas horas após a entrevista] também é mais um sonho, uma aventura.


DM: Recentemente você escreveu o livro "Meu pequeno Cruzeirense" que é voltado para crianças. Qual é a sua relação com o Cruzeiro?
MT:
Meu pai sempre foi cruzeirense então, lá em casa, sempre foi algo que sempre conversávamos. Na época em que eu sonhava em ser jogador de futebol eu era um torcedor muito próximo. Depois da minha primeira desilusão com o futebol me afastei um pouco. De uns anos pra cá, voltei com meu flerte com o futebol. Na minha adolescência, nos anos 80, o Cruzeiro passou por uma fase ruim e era difícil ser cruzeirense. Isso porque naquele tempo o grande time de Minas Gerais era o Atlético. Mas eu passei dessa fase e, no meu coração, o Cruzeiro ficou concretado.


Eu gosto muito de futebol, é como uma mágica. É um negócio tão sem importância, a sua vida não vai mudar nada com a vitória ou uma derrota, mas ao mesmo tempo aquilo toma conta, consegue trazer uma emoção, consegue participar da sua vida de um jeito tão intenso, que vira uma coisa maluca. É um entretenimento que invade sua vida, sua casa e que eu gosto muito.


DM: Quais os projetos da banda para 2011?
MT: Em outubro tem o lançamento do CD em espanhol pela América Latina, começando pela Argentina. Esse disco, também vai ter uma tiragem especial para o Brasil, direcionado para colecionador. Até novembro a gente lança uma coletânea pela Sony e pela Som Livre, aqui no Brasil. Ano que vem a gente deve fazer uma turnê especial de uns 100 shows só para comemorar essa coletânea, que é a primeira que a gente faz. E, simultâneo a tudo isso, para 2011, vamos preparar um novo disco de inéditas para ser lançado no final do ano. A ideia para esse lançamento é que sejam 12 músicas inéditas.


Os próximos dois, três anos já temos projetos para nós tocarmos em diante. Turnê nova é uma coisa que exige exclusividade, tempo e disponibilidade física. Imaginem só, 130 shows por ano, cada um em uma cidade. É um trabalho muito desgastante, não o de tocar que é a minha paixão, mas o de estar sempre com o pé na estrada. Fica parecendo mais vida de atleta do que de artista. Mas é isso que move uma banda e, apesar de tudo, é bom conhecer lugares novos. É muito interessante e engraçado também, um dia estamos em um hotel cinco estrelas e no outro estamos em uma pensão. É sempre uma aventura. Imagina cinco "caras", há mais de 15 anos juntos, falando bobagem numa van. Você volta a ser adolescente.


O Descubraminas preparou, para esta entrevista, um ping pong especial cuja as "perguntinhas e/ou frases para reflexão são nomes de músicas. Confira:


DM: O seu "Amor Maior"...
MT:
Ângela, João Marcos e Théo.


DM: Quais as maiores "Dores do Mundo"?
MT:
A natureza humana às vezes me causa muita angustia.


DM: O que você gostaria de fazer "Mais Uma Vez"?
MT: Queria ter mais filhos.


DM: Quem você gostaria que viesse "De Volta ao Planeta"?
MT:
Elvis Presley.


DM: Você espera por "Dias Melhores"?
MT: Sempre.


DM: O que/quem você gosta de ter sempre "Do seu Lado"?
MT: Coragem.


DM: Para você o que existe "Além do Horizonte"?
MT: Imaginação.


DM: Quais são as "Palavras de Um Futuro Bom"?
MT: Força e fé.


DM: "Tudo Faz Você Lembrar"....
MT: Da vida.

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