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Otávio di Toledo - Setembro 2010

  • Otávio di Toledo - Divulgação/Rafael Motta

O apresentador do Viação Cipó e comentarista do Alterosa Esporte, Otávio di Toledo, em conversa com o Descubraminas, conta um pouco da sua trajetória de vida, de suas experiências e dá dicas de viagem para os internautas. Confira abaixo a entrevista.


"Acredito que Minas Gerais tem um grande espírito de cultura, saber, história e que nós precisamos cultuar esse espírito. O espírito dos inconfidentes, da liberdade, das montanhas, das cachoeiras. Eu faço esse programa me divertindo, cultuando meu espírito. Não apenas o Viação Cipó, onde viajo por toda Minas Gerais, mas também o Alterosa Esporte onde jogo conversa fora sobre futebol."


Por Gabriela Sthefânia, Jéssica Andrade e Thiago Antunes


Descubraminas: Você é belorizontino, como foi passar a infância em Belo Horizonte? Quais as recordações que você tem da cidade nessa época?
Otávio di Toledo:
Guardo lembranças de uma Belo Horizonte muito diferente. Morei próximo à Igreja da Boa Viagem, no bairro Funcionários, e vivi como uma criança do interior. Brincava, jogava bola na rua e na igreja, enfim, tenho recordações de uma infância muito gostosa. Carrego comigo excelentes lembranças de BH.


DM: Durante alguns anos você jogou futebol e ganhou títulos. Por que não continuou a carreira no esporte e optou por cursar jornalismo?
OT:
Aos 17 anos eu já cursava jornalismo e tinha um salário bom como jogador de futebol de salão. Aos 19, passei a atuar no futebol de campo do Cruzeiro Esporte Clube, só que o esporte exige muito do atleta, mesmo sendo na categoria de base. Chegou num ponto que começou a ficar difícil conciliar o trabalho com o estudo. Até que a diretoria do clube me convocou para uma conversa e me deixou a escolha de jogar bola ou continuar na faculdade. Fiquei numa encruzilhada de ou tentar a sorte dentro do campo, que eu sei que é muito difícil, ou seguir a vida por outro rumo, como jornalista.


O futebol é um meio muito sujo. Você depende muito dos outros e também da sorte. Se você sofre uma lesão quebrando a perna, por exemplo, nunca mais joga. Preferi seguir o outro lado, o lado dos estudos, da cultura e não me arrependo. Sou muito feliz com o que faço hoje. Tenho um filho de 15 anos que joga futebol e já estou torcendo para ele parar também. Acho que o sofrimento do jogador de futebol é muito grande. Se você faz uma faculdade de jornalismo, medicina ou qualquer outro curso de sua escolha, e é bom naquilo, ninguém lhe tira o conhecimento. Já com o futebol é diferente, pois não depende apenas do talento e do esforço da pessoa, mas também de estar no lugar e momento certo.


DM: Como surgiu a proposta de fazer o programa Viação Cipó?
OT:
Quando me formei em jornalismo fui trabalhar no Diário da Tarde como repórter. Lá substituí o jornalista Miguel Santiago, que tinha uma coluna que falava do América Futebol Clube. Por causa disso, eu fui chamado para trabalhar na bancada democrática do Alterosa Esporte. Com cinco anos de programa, sempre contava "causos" das minhas viagens para o interior, até que fui convidado pelo diretor da produtora, que faz o Viação Cipó, para fazer um piloto do programa. No início achei que não iria dar conta, mas ficou muito bom e a direção logo me aprovou. O que eu faço no Viação Cipó é por hobby. Sempre gostei de viajar, de ir para a roça, para o interior. Um tempo atrás, eu e minha esposa atual, quando estávamos namorando, pegávamos um fusquinha e colocávamos o pé na estrada.


DM: Como é o dia-a-dia na produção do Viação Cipó? Existe algum critério na escolha das cidades a serem apresentadas ao público?
OT:
Tenho muita autonomia para fazer o programa. A TV Alterosa acredita muito em nosso trabalho. Participo de tudo no programa, sou apresentador, editor, escolho a pauta, e também coordeno todo o processo de produção. Quando chego à cidade, o meu produtor define as matérias, mas quando estou no local faço do meu jeito.


Quanto à escolha dos municípios que serão trabalhados, nós escolhemos de duas formas: a primeira é quando a cidade que nos contrata. Elas entram em contato conosco e negociam com a emissora para que possamos visitá-la. Só que o programa não sai da linha que é a do turismo e da cultura. A segunda maneira, eu escolho de acordo com várias coisas que vão acontecendo. Por exemplo, as pessoas me param na rua e dão dicas, ou então no meio de um papo alguém fala de uma cidade ou um lugarejo que visitou. Essas dicas são as melhores, porque as cidades históricas e grande BH todo mundo já conhece. O legal é quando conhecemos lugares como Cabeça de Boi, Luminária, Santana dos Montes, lugares novos para o mineiro.


DM: Existe algum local que você sonha em mostrar no programa, mas ainda não surgiu a oportunidade?
OT:
Na verdade não, porque se eu tenho vontade de conhecer algum lugar eu posso ir até lá e conhecer. Minas Gerais é dona de muitos lugares bonitos. O Sul de Minas, por exemplo, tem muito o que se mostrar como a Serra da Mantiqueira e a Serra de Agulhas Negras. Existe muita coisa para se conhecer e apresentar ao público, mas não por ser um sonho meu. Nós temos um Estado muito grande, são 853 municípios e eu já conheço uns 350.


DM: Viajar pelas cidades de Minas Gerais e conhecer culturas e histórias diferentes é uma grande experiência. Conte alguma história ou curiosidade que você vivenciou em uma de suas viagens.
OT:
Tem muita coisa que eu descubro fazendo o Viação Cipó. Mesmo com meus conhecimentos da graduação em jornalismo e minha pós-graduação em história, me surpreendo com muitas coisas. Por exemplo, quando descobri, através de uma historiadora local, que Borba Gato teve minas de ouro e metais preciosos em Igarapé, isso quase ninguém sabia antes do programa. De acordo com a pesquisadora, Borba Gato tinha um sistema de irrigação em Igarapé com muitas faixas de córregos que desviava da serra e que fazia a lavagem dos minérios lá em baixo. São curiosidades como essa que eu fui descobrindo ao longo das viagens. Minas é um Estado muito rico e ainda pouco historiografado.


DM: O que representa a história e a cultura de Minas Gerais para você?
OT:
Creio que Minas Gerais é o Estado mais rico tanto em história quanto em cultura do país. Na Bahia, por exemplo, temos coisas importantes para a história do Brasil, mas o principal momento de Portugal aqui foi com o ciclo do ouro. Além disso, as principais coisas aconteceram no nosso Estado. Muitos fatos históricos, as principais revoluções, as igrejas mais bonitas. Acredito que Minas Gerais tem um grande espírito de cultura, saber, história e que nós precisamos cultuar esse espírito. O espírito dos inconfidentes, da liberdade, das montanhas, das cachoeiras. Eu faço esse programa me divertindo, cultuando meu espírito. Não apenas o Viação Cipó, onde viajo por toda Minas Gerais, mas também o Alterosa Esporte onde jogo conversa fora sobre futebol.


DM: A culinária está ligada a cultura e ao turismo. Quais são seus pratos favoritos da culinária mineira? No programa você já experimentou algo totalmente inusitado?
OT:
Não. No meu programa eu não deixo. Existem coisas que eu não gosto e eu não vou falar que não gostei na frente das pessoas, pois isso seria indelicado da minha parte. Mas já fizemos coisas diferentes. As pessoas hoje são muito criativas, para se ter uma ideia, até hoje já fizemos 350 programas e foram 350 receitas diferentes, todas elas gostosas.


A culinária mineira é muito famosa pelo feijão tropeiro, pelo frango ao molho pardo, frango com quiabo, pelo tutu, que são comidas pesadas. São comidas que os tropeiros comiam porque na época não existiam condições de armazenamento. Eles tinham que fazer uma viagem do Rio de Janeiro até aqui, que pelo caminho velho durava 45 dias e pelo caminho novo 15. Então eles tinham que sobreviver a base de alimentos que durasse todo esse percurso.


Hoje, a culinária se modernizou, tem chefes de cozinha mineiros que inventam coisas maravilhosas com a mesma base que é o queijo, o ovo e o milho. Essas coisas que nós temos em abundância aqui em Minas Gerais fazem parte de nossa cultura. Fazemos coisas deliciosas desde os doces aos salgados e, às vezes, até misturamos doce com salgado.


DM: Pela sua vivência no interior mineiro, você considera que falta infraestrutura para o turismo em nosso Estado?
OT:
Acho que não existe infraestrutura no turismo mineiro em cidade nenhuma. Minas tem as atrações, naturais, culturais e históricas, mas não tem os produtos. Em Ouro Preto, por exemplo, a estrutura ainda é carente, em Mariana também. Certa vez, em Mariana, estávamos eu e a equipe gravando e, quando fomos jantar não tinha nenhum lugar. Agora já existe. Não é uma crítica à cidade, mas acho que tem que existir um investimento. Outro exemplo é a Estrada Real. O governo de Minas lançou a propaganda antes do produto. A Estrada Real ainda não existe por completo, agora que o Instituto da Estrada Real está melhorando um pouco a situação, mas as atrações são excelentes.


DM: Participar do programa Alterosa Esporte representando o América Futebol Clube na bancada democrática e ser apresentador do Viação Cipó, que apresenta o turismo e cultura em Minas, são atividades totalmente distintas. Como você concilia?
OT: Conciliar é fácil. Porque eu não tenho a necessidade de ir ao América todos os dias. Não sou o setorista do América. Então procuro me informar bem e assistir aos jogos. Quando tenho que viajar para gravar o programa, tento conciliar as datas com os jogos do América. Por exemplo, se o América tem um jogo importante na quarta-feira, viajo na segunda e na terça. Então dá para conciliar sem problemas.
Quanto ao público, as pessoas, hoje, me enxergam como o mineiro da Viação Cipó. Elas confundem o Toledo do Alterosa Esporte com o do Viação Cipó.


DM: Você e mais oito amigos, tiveram a ideia de criar o Forrobol, que é uma ONG que ajuda jovens através do futebol. Como foi o desenvolvimento desse projeto e o que ele representa para você?
OT:
O Forrobol é uma ONG que eu criei há mais de 7 anos e que apoia cerca de 500 jovens, a maioria carentes. Nós temos um time de futebol que já fez em média 80 jogos pelo interior de Minas, sempre beneficentes, com os alimentos, arrecadados na entrada da partida, sendo revertidos para instituições de caridade das cidades. Quando o Forrobol vai aos locais é uma festa, a cidade para. Isso é muito bacana. Tem alguns jogos que levamos ao estádio de quatro a cinco mil pessoas. Ajudo esses jovens porque acho que todo mundo tem um compromisso com a sociedade, mas ando um pouco decepcionado. Os políticos que poderiam ajudar, mas não ajudam, ou quando se disponibilizam a ajudar querem algo em troca e isso eu não topo, não vou emprestar meu prestígio para político. Eu fico muito feliz de ver os meninos jogando futebol, mas não sei se vou continuar porque tenho feito muito por eles, mas sempre me deparo com portas fechadas quando o assunto é investimento.


DM: Quais lugares imperdíveis em Minas você recomenda para nossos internautas?
OT: Eu gosto muito de uma cidade que fica depois de Conselheiro Lafaiete que se chama Santana dos Montes. Ela é maravilhosa. Eu adoro cidades históricas, curto muito Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Sabará, Caeté e Conceição do Mato Dentro. É difícil até de recomendar uma cidade porque Minas Gerais é muito maravilhosa. O Norte de Minas é muito bacana com o Rio São Francisco passando em algumas cidades. Eu já tomei banho no São Francisco lá na nascente, no meio e lá no final dele saindo de Minas Gerais e me sinto privilegiado por isso. As cachoeiras também são maravilhosas. São 350 programas cada um mais bonito do que o outro. Mas as coisas imperdíveis que eu acho em Minas são as cidades históricas, o Lago de Furnas também, Três Marias, o Sul de Minas, Serra da Mantiqueira, Agulhas Negras, a região de Juiz de Fora também tem lugares maravilhosos. É muito complicado porque eu gosto de tudo.

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