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Deolinda Alice dos Santos - Agosto 2010

  • Belo Horizonte - Deolinda dos Santos - Divulgação/Jorge Santos

No dia 22 de agosto é comemorado o Dia do Folclore, e nessa oportunidade o Descubraminas traz, na entrevista do mês, a pesquisadora e professora do folclore mineiro Deolinda Alice dos Santos. Entre outras coisas, ela fala sobre a sua vida dedicada ao folclore.

"Toda a minha caminhada foi muito agradável; durante a minha infância e adolescência, em meio às histórias, aos ‘causos' e à participação em várias atividades artísticas em Ouro Preto".

Por: Gabriela Sthefânia e Thiago Antunes


dm: A senhora é natural de Ouro Preto; conte-nos como foi sua infância na cidade que recebeu o título de Patrimônio da Humanidade.
Deolinda:
Participei do catecismo, do coral da igreja, de peças teatrais nas igrejas, brincava de pegador, bola de meia, tico-tico queimado e parava muito para ouvir pessoas antigas da cidade. Sempre gostei de ouvir as histórias de assombrações, por exemplo. Toda a minha caminhada foi muito agradável; durante a minha infância e adolescência, em meio às histórias, aos causos e à participação em várias atividades artísticas em Ouro Preto.

Eu tocava acordeom, e o meu pai, violino. Ele tocava em festas religiosas e profanas, e eu sempre tocava junto com ele. Muitas vezes participava de festas nas repúblicas, de festas da cidade e nas serestas. Participava de tudo que envolvia a família. Diante de todo esse processo histórico, eu peguei o gosto de observar tudo e assistir a tudo.

dm: Como surgiu o interesse pelas tradições folclóricas em sua vida?
Deolinda: Eu fazia parte assiduamente de várias atividades culturais e religiosas, ajudava a fazer tudo, desde a preparação da comida até a decoração. Minha família sempre foi muito alegre e animada em participar dos eventos religiosos e profanos. No carnaval, por exemplo, saíamos nas escolas de samba e nos blocos tradicionais da cidade. Na Semana Santa, me vestia de figura bíblica e ajudava a confeccionar os tapetes. Quando comecei a dar aula de Geografia e História em Saramenha, a atividade continuou.

dm: Mesmo após a carta do Folclore, criada no I Congresso Brasileiro de Folclore, em 1954, a conceituação do termo "folclore" varia muito. Existe uma discussão para que haja uma mudança, passando a definição para "cultura popular". Qual a definição e diferenciação dos termos "folclore", "cultura popular" e "manifestações folclóricas"?
Deolinda:
O folclore possui características próprias; são elas: o acontecimento tem de passar por no mínimo três gerações, tendo em média 18 anos cada uma. Toda a comunidade tem de ter uma aceitação, bem como a transmissão do conhecimento oral. Existe uma preocupação da geração que é passar de pai para filho e de filho para neto dentro do folclore. Uma coisa importante é que o folclore adapta-se ao tempo e ao espaço. As coisas evoluem de acordo com o tempo, mas o povo não esquece a identidade do processo histórico que o levou a criar e recriar os eventos, o pagamento de promessas, a receita de culinária ou um artesanato. O folclore tem o anonimato, já que quem criou não está preocupado em dar direitos autorais sobre aquilo que criou; ele cria e doa para o povo, e com isso aquele mesmo povo usa a criação do jeito que achar melhor. Portanto, passando por todo esse processo e continuando com essas características, ele é um fato folclórico.

A cultura popular é quando acontece uma coisa que todo mundo participa, mas, se ele vencer três gerações e continuar gostando, achando interessante e continuar refazendo, esse evento passa a ser um fato folclórico. O fato popular ainda está na vivência do povo, sem uma tradição. As manifestações folclóricas, por sua vez, são assim designadas somente quando se tem a certeza de que o povo assumiu o gosto, o prazer de produzir, fazer e consumir.

dm: O folclore só congrega o valor imaterial?
Deolinda: O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, para valorizar toda a tradição cultural de um povo, dividiu em patrimônio material (arquitetura, escultura, pintura, música, literatura) e patrimônio imaterial (manifestações culturais e sociais). Hoje, propõe-se aos municípios um levantamento desse patrimônio material e do imaterial para resgatar a memória histórica e cultural.

dm: A senhora considera que o folclore é mais valorizado/praticado pelas classes mais baixas?
Deolinda:
Não. Hoje, você vê pessoas com alto estilo mantendo a culinária típica tradicional. Quando você vai passear em alguns lugares, você vê artesãos se posicionarem economicamente, socialmente e com uma produção de qualidade, uma vez que foram orientados para que fizessem um trabalho com um bom acabamento. Isso só ocorre porque o folclore evolui no tempo e no espaço. Atualmente, existem várias instituições que se preocupam em melhorar a qualidade de vida tanto das quitandeiras quanto dos artesãos. Nas danças e nos folguedos, acontece a mesma coisa. Vemos pessoas de baixo nível de escolaridade dançando junto com um advogado, por exemplo. Com isso, mantém-se a tradição de família, sem distinção de classe. Em várias localidades, podemos ver as pessoas mantendo as tradições, sem perderem a identidade.

dm: A senhora acredita que a midiatização, a tecnologia e os novos "valores" passados aos jovens de hoje têm provocado mudanças nas manifestações folclóricas? Caso positivo, como saber se essas modificações representam para o folclore "deformações" ou "dinâmicas" advindas do tempo?
Deolinda:
No caso dos folguedos, a dança dramatizada, percebo certa dificuldade em relação aos jovens de entender e compreender o processo histórico e cultural. Eles veem isso com uma total discriminação. O que precisava ser feito para que se melhorasse isso seria as escolas fazerem um estudo histórico e artístico cultural das manifestações culturais que ocorrem dentro do município, dando oportunidade para ouvir, por exemplo, o mestre da música, o mestre do artesão, de tambor, enfim, obter experiência com diversas pessoas. Trabalho nesse sentido fazendo uma atividade na Secretaria Municipal de Educação para que seja passado aos professores de alguns municípios todo o meu conhecimento para posteriormente isso ser repassado aos alunos.

dm: O folclore tem um caráter lúdico muito forte envolvendo atividades como a dança, a brincadeira, os contos e os "causos". A senhora acredita que isso pode ser uma porta de entrada do folclore na sala de aula para os nossos jovens?
Deolinda:
Claro. Aprendi matemática através de brincadeiras. Inúmeros valores tanto psíquicos quanto sociais servem para ser passados para os jovens por meio de brincadeiras. Os psicólogos fazem uso de brincadeiras, como as parlendas, para aguçar a capacidade de percepção, memória, raciocínio lógico e coordenação motora, e cresci em meio a essas atividades. Meu pai sempre fez muita questão de exercitar esse lado.

dm: A senhora possui uma longa experiência de ensino de cultura popular em curso superior. Quais os cursos que possuem a temática em sua grade curricular? Como é a aceitação da disciplina pelos alunos?
Deolinda:
Apenas o curso de Turismo. A aceitação por parte dos alunos é ótima; eu fazia com que fossem aos lugares comigo para adquirirem conhecimento amplo do folclore em troca de pontos (risos). Acredito que, para você obter conhecimento, você tem de estar presente no local para ver a "coisa" acontecer de perto, e não apenas ficar na parte teórica. Tem de existir a prática. E sempre fiz isso com meus alunos, e eles sempre adoraram, voltavam para a sala de aula e com cara de que acharam tudo uma maravilha, dizendo que adoraram tudo (risos).

dm: Tutu de feijão, frango com quiabo, frango ao molho pardo, feijão-tropeiro e frango com ora-pro-nóbis são pratos típicos da culinária mineira. Mas existem muitos outros, poderia citar alguns?
Deolinda: Em Minas, existem vários pratos para várias regiões do Estado. Na Mineração, existe uma lógica para o feijão-tropeiro. Quando se vai para o Triângulo Mineiro, você encontra a pamonha, o churrasco, tudo com influência da agricultura da região. Subindo para o Vale do São Francisco, encontra-se uma culinária voltada para o peixe, para a farinha e para o pequi. No Nordeste de Minas, você encontra os doces em calda e o queijo do Serro, que não pode ser esquecido. Também são típicos dessa região os caldos quentes e os biscoitos. Na Zona da Mata, existe forte influência da nobreza do Rio de Janeiro; então, lá se encontram os doces cristalizados, o leitão pururuca, a ambrosia. Já no Sul de Minas, tem-se a influência italiana com os queijos, as roscas, os pães e o macarrão.

dm: Quais são os desafios dos cidadãos que buscam o resgate e a conservação do folclore, hoje, em Minas Gerais?
Deolinda:
Existem alguns problemas que são enfrentados pelas pessoas hoje; temos como exemplo a burocratização. Quando uma pessoa precisa de uma documentação junto ao governo para a produção de uma Folia de Reis, por exemplo, as coisas se complicam. Às vezes, uma empresa tem vontade de ajudar, mas não tem como emitir nota fiscal, o que é exigido pelo governo. Então existe muita burocracia, por parte do governo, para a liberação de certa documentação. Creio que as prefeituras poderiam, dentro de sua área jurídica, ter mecanismos que pudessem ajudar essas pessoas.

dm: A senhora é uma grande pesquisadora de cultura popular. Existem métodos de pesquisa específicos para tais pesquisas? A senhora possui métodos próprios?
Deolinda:
Primeiro, nunca falo que sou professora. Sempre escuto muito as pessoas e isso é uma coisa que gosto de fazer independentemente de minhas pesquisas. Outro ponto é que eu procuro sempre contar "causos" da minha família para, com isso, as pessoas, minhas fontes, irem tomando confiança. Para que haja uma troca de informações, é necessária a simplicidade; de que adianta chegar a um local simples com todo aquele gabarito todo, sendo que, na hora de obter as informações na fonte, provavelmente, você vai se sentir acuada e constrangida por não saber falar um português rebuscado, por exemplo? Por isso, sei conversar e questionar as pessoas sem ferir o espaço e a formação escolar que elas têm.

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