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Dadá Maravilha - Junho 2010

  • Belo Horizonte - Dadá Maravilha - Gabriela Sthefânia

Em mês de Copa do Mundo, o Descubraminas, no intuito de criar boas energias para a nossa seleção e relembrar conquistas anteriores, conversou com Dadá Maravilha, participante da Copa de 1970, onde o Brasil conquistou o tricampeonato. Dono de belas histórias futebolísticas e de frases ‘poéticas’, como: "Não venha com a problemática que eu dou a solucionática", Dadá contou sobre sua vida e falou sobre a Copa da África do Sul.


Comecei a analisar o nome dos melhores jogadores de todos os tempos. Primeiro Pelé, cujo nome é Edson. Segundo Garrincha que tem como nome Manoel. E parei para pensar que se os grandes tinham apelidos não ia ser eu que ia vencer como Dario, decidi então por Dadá. Na época todos pegaram no meu pé dizendo que Dadá era coisa de mulher. Naquela tempo existia um machismo muito grande. Muitos falavaram que eu não ia dar certo com esse nome, inclusive o técnico Telê Santana. Mas eu acreditei e, hoje, todos só me conhecem como Dadá. Tem gente que até me pergunta se o meu nome é Dadá”.


Por: Gabriela Sthefânia e Thiago Antunes


Descubraminas: Dadá Maravilha, Rei Dadá, Beija-Flor, Peito-de-Aço. Quem é o verdadeiro Dario José dos Santos e quais sentimentos ele nutre por Belo Horizonte?
Dadá Maravilha: Sou carioca de nascença, mas mineiro de coração. Eu aprendi a amar Belo Horizonte. Encontrei tudo no meu Rio de Janeiro, mas me realizei em Minas Gerais e, hoje, eu amo Minas na mesma intensidade de qualquer outro mineiro.


DM: Como que o futebol apareceu na sua vida?
Dadá: Foi uma dádiva de Deus. Porque já é de conhecimento geral que até os 19 anos eu levei uma vida não muito boa, assaltando inclusive. Morei na Febem, Funabem, mas o futebol me salvou. Na realidade entrei no futebol por um prato de comida. Eu era muito ruim jogando, “pereba” como se dizia antigamente. Mas, na vida que eu levei antes do esporte, eu adquiri duas qualidades: a velocidade e a impulsão, que me auxiliou na feitoria dos meus 499 gols de cabeça, mais da metade dos meus gols marcados. Por isso me chamam de “o rei das paradinhas no ar”, por isso que eu sou um beija-flor.


DM: De 65 à 67, o senhor jogou na equipe do Campo Grande, passando pelo time júnior e time principal. No ano seguinte, seu talento despertou a atenção do Clube Atlético Mineiro. A que o senhor atribui o seu rápido crescimento no futebol profissional?
Dadá: Eu costumo dizer que a gente aprende no amor e na dor. Eu aprendi na dor. A necessidade de comer fez com que eu fosse atrás de uma profissão. Eu tinha a oitava série reprovada, no estudo não daria nada. Eu não tinha nenhuma profissão. Fui dispensado seis vezes na peneira do Campo Grande e, na sétima tentativa fui aprovado por bondade do técnico do time, que foi muito sincero comigo me chamando para conversar e falando que eu era ruim, mas que iria me dar uma chance pela minha impulsão e velocidade. Ele apostou em mim e foi meu grande descobridor.


DM: O senhor atuou em 16 times brasileiros. O Atlético Mineiro, seu time de coração, marcou sua história?
Dadá: O Atlético marcou a minha história. A página mais linda da história do Atlético eu colaborei. (Dadá marcou o gol do título brasileiro do Atlético em 71).


DM: Qual seu gol mais bonito? E qual o seu maior gol perdido?
Dadá: Eu tenho dois gols bonitos. Um foi pelo Atlético contra o Cruzeiro em 72. E, o outro foi pelo Paysandu no jogo contra o Remo. Já meu maior gol perdido foi uma vergonha. Eu jogava no Campo Grande e perdi um gol quase em cima da linha mandando a bola para fora.


DM: Como o terceiro maior artilheiro do futebol brasileiro com 926 gols, ficando atrás apenas de Romário com 1002 gols, e Pelé com 1281, conte-nos se existe uma fórmula/tática para tal conquista.
Dadá: Eu não tenho vergonha de falar que sou um perna de pau. Só que eu coloco uma vírgula: Dadá é um perna de pau, mas um gênio dentro da área. Tanto que eu entrava em campo, ia andando devagarzinho para a área e todo mundo falava que eu ia aprontar mais uma. E, geralmente quando terminava o primeiro tempo o placar já estava 1x0, 2 x0, sempre com pelo menos um gol de Dadá.


Eu entrava em campo e registrava a área falando que ela era minha. Reconheço que não tinha técnica, isso porque eu não tive tempo de aprender. Minha velocidade e a minha impulsão me levaram na carreira e o técnico do Campo Grande (time do Rio de Janeiro) me ensinou a cabecear e a chutar.


DM: Como foi para o senhor deixar de jogar bola profissionalmente? Porque largou a carreira antes de completar o miléssimo gol?
Dadá: Foi uma tristeza muito grande. A única coisa que eu sabia fazer na vida era gol. Nem jogar bola direito eu sabia. Fiz até uma frase, de tantas famosas, que diz assim: “Duas coisas eu não sei fazer na vida, jogar futebol e perder gol”. Quanto ao milésimo gol, eu não cheguei lá porque não tive competência. Se eu tivesse qualidade para bater pênaltis, com certeza eu teria passados dos mil gols. Mas deixava essa responsabilidade para quem realmente tinha capacidade para cobrar.


DM: Você sempre gosta de falar do Dadá em terceira pessoa. Como surgiu isso? Como aparece essa facilidade do marketing pessoal na sua vida?
Dadá: Eu inventei isso. Comecei a analisar o nome dos melhores jogadores de todos os tempos. Primeiro Pelé, cujo nome é Edson. Segundo Garrincha que tem como nome Manoel. E parei para pensar que se os grandes tinham apelidos não ia ser eu que ia vencer como Dario, decidi então por Dadá. Na época todos pegaram no meu pé dizendo que Dadá era coisa de mulher. Naquela época existia um machismo muito grande. Muitos falavaram que eu não ia dar certo com esse nome, inclusive o técnico Telê Santana. Mas eu acreditei e hoje todos só me conhecem como Dadá. Tem gente que até me pergunta se o meu nome é Dadá.

 

DM: No futebol de hoje os jogadores se preocupam em jogar futebol para ganhar o jogo. Conseguir os famosos “três pontos”. E não se preocupam em mostrar um futebol de qualidade, em jogar para o público. Como que você analisa isso e o futebol brasileiro como o todo?

Na minha época o dinheiro não tinha o valor que ele tem hoje. O dinheiro está comprando até a honra. Naqueles tempos os jogadores pensavam no torcedor, em passar uma boa impressão para quem acompanhava o futebol. Hoje, os jogadores se preocupam mais em ganhar mais do que o outro. É uma situação muito difícil. Os jogadores do passado passam muita necessidade. Os de hoje não se interessam com o espetáculo. Não se preocupam com o torcedor, preocupam-se apenas em chegar no campo jogar, ir para casa e no fim do mês receber seus grandiosos salários.


DM: Hoje você segue a carreira como comentarista de futebol. Você pensou um dia em ser técnico?

Dadá: Eu fui técnico no Amapá. Fui campeão pelo Ipiranga. Estava esperando uma proposta, mas o pessoal sempre dizia que eu era brincalhão e que ninguém ia me respeitar. Depois disso me chamaram para a televisão. Logo pensei: vou fazer palhaçada! Comecei a contar minhas histórias no futebol, o povo gostou e fui ficando. Hoje, sou uma grande audiência na televisão por esse meu lado brincalhão e engraçado de falar da minha vida e do futebol.


DM: Para o Dadá quem é o melhor jogador jogando no Brasil? E no mundo?

Dadá: O melhor jogador atuando no Brasil, mais especificamente em Minas, é o Fábio, goleiro do Cruzeiro, e também o Diego Tardelli, atacante do Atlético Mineiro. Já no futebol mundial o melhor é o Messi, da Argentina.


DM: O que você achou da lista de convocados para a Copa do Mundo de 2010?

Dadá: Eu estou rezando, como brasileiro, pelo o Dunga. Eu o conheço pessoalmente e, vou ser sincero, quem colocou o Dunga lá como técnico fui eu. Na copa de 2006, estávamos reunidos eu, Ricardo Teixeira, Dunga, Bebeto, Edu e Jorginho, meio às brincadeiras eu falei para o Ricardo que o Dunga sempre tinha sido um grande técnico dentro de campo e que se sairia bem fora do campo, que talvez fosse o momento, pois a seleção estava em busca de um novo técnico e o assunto acabou por ali. Algum tempo depois o Dunga foi convocado para exercer a função.


No ano retrasado, eu como o maior artilheiro de brasileiro, fui convidado para participar de um evento para entregar o troféu de artilheiro do brasileirão em um evento. Na entrega do troféu ao artilheiro, e deram a palavra, neste momento eu perguntei ao Dunga quem tinha ajudado ele a chegar na seleção. E do Dunga respondeu que havia sido o ‘Dadá’, e todos bateram palma pelo reconhecimento.


Voltando a questão principal, seleção brasileira é coisa séria, têm que ir os melhores jogadores e o Dunga não levou os melhores, levou os amigos dele.

 

DM: Como participante e campeão de uma Copa Mundial – 1970, qual dica o senhor deixa aos jogadores que estão indo para África do Sul para retornarem com o título de hexacampeão?
Dadá: Em primeiro lugar, na minha época eu ganhei U$15 mil para ser campeão, em 70, eles estão ganhando U$1 milhão, é muita coisa, eles estão sendo muito bem remunerados. Mas, o dinheiro não é a causa é a consequência. O que eles têm que fazer é imitar a turma de 70, afirmando que estão lá pelo povo brasileiro, por suas famílias, por eles próprios. Em segundo lugar ter união, a princípio, isso não havia, porque estávamos lutando cada um por sua vaga, mas após a convocação do Zagallo formamos uma família. E levar os treinos a sério.


DM: Na sua opinião, qual seria a sua Seleção ideal?
Dadá: Poderia ser retirado cinco jogadores e acrescentar Fábio (Cruzeiro), Tardelli (Atlético Mineiro), Ganso (Santos), Neymar (Santos) e Alex (Turquia).

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