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Roberto Carlos Ramos - Abril 2010

  • Roberto Carlos Ramos - O Contador de Histórias - Divulgação/Roberto Carlos Ramos

Sua história de vida deve ser vista como exemplo para a população como um todo, trata-se de uma mescla de vários sentimentos: compaixão, solidariedade, superação e acima de tudo: amor ao próximo. Você confere abaixo a entrevista com Roberto Carlos Ramos - "O contador de histórias" retratado no filme de Luiz Villaça.


“Até certo tempo tinha a esperança de ser adotado, sonhava com uma família, mas depois que me envolvi com as fugas, drogas e furtos, esta esperança foi desaparecendo da minha vida e só se renovou quando passei a conviver com minha mãe adotiva. Embora eu achasse que em algum momento ela me diria, o sonho acabou, não te amo mais, volta pra rua. Só aos 14 anos é que eu acreditei que o ato de adotar é efetivamente irreversível.“


Por: Daniel Souza e Gabriela Sthefânia


Descubraminas: O senhor é o mais novo de 10 irmãos, poderia falar como foi sua infância em Belo Horizonte? O senhor ainda se lembra de algum momento quando morava na comunidade Pedreira Prado Lopes?

Roberto Carlos Ramos: Bom, sou o mais novo de 10 irmãos. Até o ponto que me lembro tive uma infância normal, morávamos na Pedreira, éramos pobres e eu empinava pipa sempre.


DM: Aos seis anos, o senhor foi levado por sua mãe para a Fundação para o Bem-Estar do Menor (FEBEM) onde se envolveu em 132 fugas contabilizadas. Em 1979, sua vida começou a mudar e, nesta época, você era considerado um “caso irrecuperável” devido à vivência na rua com furtos e drogas. Como o senhor viu a oportunidade de ser adotado? Acreditava mesmo que tudo poderia mudar?

RC: Até certo tempo tinha a esperança de ser adotado, sonhava com uma família, mas depois que me envolvi com as fugas, drogas e furtos, esta esperança foi desaparecendo da minha vida e só se renovou quando passei a conviver com minha mãe adotiva. Embora eu achasse que em algum momento ela me diria, o sonho acabou, não te amo mais, volta pra rua. Só aos 14 anos é que eu acreditei que o ato de adotar é efetivamente irreversível.


DM: O senhor saiu do Brasil semi-alfabetizado para a França na companhia de sua mãe adotiva, a educadora francesa Marguerit Duvas e, a partir de então, tudo em sua vida foi modificado. Qual a educação que lhe foi oferecida, o senhor hoje tem conhecimento de qual(is) idioma(s) e é formado em qual(is) curso(s)?

RC: Na França tive uma boa educação, aprendi Português, Francês, espanhol e falo Inglês o suficiente para não morrer de fome (risos). Sou pedagogo e mestrado em literatura infantil.


DM: Qual maior dificuldade enfrentada por você na mudança para a França?

RC: A minha maior dificuldade era o medo de errar e decepcionar a minha mãe adotiva, fazer amigos foi muito fácil, pois eles adoravam as minhas histórias.


DM: Quais foram os maiores ensinamentos que você trouxe da Europa?

RC: Noções de ética, civilidade, cidadania, participação e cooperativismo.


DM: Após voltar da França e concluir um curso superior, o senhor retornou a mesma FEBEM que morou e adotou uma criança. Atualmente quantas crianças o senhor já adotou?

RC: Passaram pela minha casa 25 dos quais 13 foram adotados oficialmente e os outros 12 vieram numa condição provisória.


DM: O senhor procurou sua mãe biológica após ter voltado para o Brasil? Se sim, conte-nos como foi este encontro.

RC: Sim, foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida e apesar de ter passado 14 anos, eu a reconheci no ato do encontro e ela também me reconheceu. Foi emocionante, tudo regado a muito choro e muita alegria.


DM: Em 2009, sua história foi o tema do filme “O Contador de Histórias”. Como foi ver sua história nas telas do cinema?

RC: Ainda quando assisto ao filme fico rindo de mim mesmo com a certeza de que valeu a pena ter passado por tudo que passei.


DM: Qual parte do filme mais te emocionou, te fazendo ‘viver’ novamente o acontecimento?

RC: As minhas várias fugas da FEBEM e o reencontro com minha mãe.


DM: Se pudesse falar algo agora à sua mãe francesa, Marguerit, o que seria?

RC: Seria um verdadeiro muito obrigado por ela não ter desistido de mim e me ensinado o verdadeiro sentido da palavra amor.


DM: O senhor é reconhecido como um dos melhores contadores de histórias do mundo. Poderia explicar um pouco da temática que aborda nas palestras que ministra?

RC: Eu falo sobre a perseverança, a necessidade de se mudar sempre e se aceitar como um ser que veio para fazer coisas boas. Na verdade eu me intitulo como Contador de histórias e ao mesmo tempo soldado da esperança.


DM: Qual ensinamento o senhor faz questão de deixar para o público em suas palestras, ou até mesmo para aqueles que assistiram ao filme que conta sua história?

RC: No mundo existem dois tipos de pessoas, as que choram e as que vendem lenços. É você é quem escolhe qual desses papéis quer exercer.

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