Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

Pedro Paulo Cava - Fevereiro 2010

  • Pedro Paulo Cava - Divulgação/Guto Muniz

Com uma trajetória veiculada a política e religião, o ator, produtor e diretor do Teatro da Cidade Pedro Paulo Cava, tem participações significativas no âmbito cultural de Belo Horizonte.


“Então a história é essa, parece um pouco fantasiosa, mas é a verdade que aconteceu, nós impedimos a demolição de uma casa de espetáculo.“


Por:
Daniel Souza e Gabriela Sthefânia.


Descubraminas: Foi na Igreja São José, no centro de Belo Horizonte, em 1963, que você começou a fazer teatro. Em sua opinião, qual a maior diferença ocorrida na maneira de fazer teatro na década de 60 para hoje?
Pedro Paulo Cava:
Eu tinha catorze anos e o Papa João XXIII tinha feito uma renovação na igreja, revigorando a liturgia das missas. Nesta época eu fui até a igreja de São José para ver a novidade. Era uma missa diferente com o uso do violão e uma maior presença de jovens, além disso, a missa dominical das 18 horas era só dos jovens. 


Após a celebração acontecia na casa paroquial da igreja a hora dançante, na qual reunia os jovens do centro, recebemos até o nome de “Juventude do Centro”. Neste momento, as casas paroquiais do Brasil começaram a reunir a juventude com uma tendência muito forte para a esquerda, chamada esquerda católica. Criou-se então comunidades eclesiais de base, os movimentos de jovens cristãos – Juventude Estudantil Cristã (JEC), Juventude Operaria Cristã (JOC) e Juventude Universitária Cristãos (JUC) -, formados fundamentalmente por pessoas ligadas aos partidos socialistas e comunistas.


A partir da ideia desses grupos a Igreja Católica começou a perceber que não poderiam ficar somente voltada para a direita. Meio a tudo isso as comunidades de base criam laços com a arte. Além da mudança da liturgia, passou-se a ter festas, grupos de teatro, dança e música no intuito de aproximar os jovens da igreja católica. Eu entro em uma dessas histórias, na Juventude Estudantil Católica (JEC) e no Grupo Jovem de Teatro.


Muitos jovens passaram a participar amadoramente destes grupos e, daqueles aproximadamente 20 que estavam ali fazendo teatro naquela época, nenhum deles abraçou a profissão, o único que veio a trabalhar com o teatro profissional mais tarde, foi eu. Portanto, a diferença dos anos 60 para cá é que Belo Horizonte não tinha nada nos anos 60, éramos cerca de 700 mil habitantes, hoje somos quase 2,5 milhões. Antigamente tínhamos apenas dois teatros: Francisco Nunes e Instituto de Educação, hoje temos 46 casas de espetáculo. BH não tinha companhias profissionais, hoje temos. Além disso, hoje a cidade se situa no cenário nacional como grande pólo produtor de artes cênicas, teatro, dança e ópera. 


Essa trajetória de 50 anos foi muito pesada para quem escolheu ficar aqui, é difícil ser reconhecido pelo seu talento na capital mineira. Os mineiros em geral são muitos desconfiados. 


Eu me profissionalizei com 17 anos e praticamente já estava vivendo de teatro, fui fazendo cursos, viagens e virei um profissional, em Belo Horizonte, em Minas Gerais e no Brasil. Tem gente, a exemplo de José Mayer, que dirigiu o teatro do Senac/MG, que tinha o sonho de ser reconhecido nacionalmente. Mas, foram poucos dos que eu vi sair em busca do sucesso lá fora que o conquistaram. O Mayer conseguiu, mas ralou muito para ter o sucesso que ele é hoje na televisão. 


DM: Fazendo um levantamento sobre sua vida profissional, pudemos ver que o início de sua carreira teatral não foi fácil. Teve que passar por diferentes funções, desde vender ingressos a atuar no palco. Qual maior ensinamento você tirou desta época para hoje ser uma das maiores referências das artes cênicas em MG?
PP:
Se você tem paixão por determinada coisa, você vai fazer essa coisa. Varrer o palco, fazer a iluminação, vender ingresso, tínhamos que fazer isso naquela época, e posso dizer que faço isso até hoje. No meu teatro eu faço isso, eu aprendi assim. 


O teatro é uma atividade que depende de você estar muito apaixonado por ela, é um casamento. Então acho válido tudo o que já passei, pois com isso pude tirar ensinamentos de todos os lados. Aprendi a fazer luz, maquiagem, mudar cenário, ser contraregra, maquinista e figurinista. Acabou que comecei a trabalhar com o todo das artes cênicas, e isso só vem a somar. Hoje em dia é que a vida é especializada demais, tem um profissional para cada coisa. Teatro também tem algumas especializações hoje, têm uns que são só teóricos, outros que só atuam ou dirigem, estes não pegam na vassoura. Mas, na verdade qualquer atividade/profissão se você quiser se dar bem, tem-se que saber o todo, é necessário entender o processo.


DM: Durante a Semana Santa de 1975, você juntamente com outros artistas foram os responsáveis por barrar uma ordem de demolição do Teatro Francisco Nunes, que fica no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, em Belo Horizonte. Poderia contar como isso aconteceu?
PP:
O prefeito da época, Luís Verano, ignorante na questão de cultura, foi convencido de que deveria demolir o Teatro Francisco Nunes. Logo ajeitaram uma forma de demoli-lo na calada da noite. Entraram com todo o maquinário para o Parque Municipal na noite de uma quinta-feira, antes da Semana Santa e as deixaram escondidas. A ideia dele era: ‘todos vão viajar para o feriado e quando voltarem ele já estará no chão’, pois Luís Verano sabia que haveria resistência.


Para o azar do prefeito, ele tinha um funcionário de gabinete que acompanhou a história e que era um apaixonado por teatro. Este funcionário então me ligou, dizendo que se eu não agisse rapidamente eles iriam demolir o teatro na calada da noite. Enfim, governo da ditadura, tempo difícil, eu assustado, mesmo assim plantei na porta do Parque Municipal onde fica o Teatro Francisco Nunes, às 6 horas da manhã. 


Naquele tempo não tinha celular, então eu liguei para duas ou três pessoas antes de sair de casa e falei: “Vamos para a porta do parque, mas vai ligando aí de madrugada para as pessoas e convoca mais gente. Não sei como vocês vão fazer, mas eu vou parar na frente das máquinas”. E foi o que eu fiz. Parei lá em frente, chamei alguns jornalistas e nós impedimos a demolição.


Enfim, a história é essa, parece um pouco fantasiosa, mas é a verdade que aconteceu, nós impedimos a demolição de uma casa de espetáculo. 


DM: Em 1990, você fundou o Teatro da Cidade, em Belo Horizonte. Como é administrar um espaço deste gênero?
PP:
Eu criei o Teatro da Cidade, aliás, estou criando ele desde os anos 60 na minha cabeça. Nem sabia se seria como é o Teatro da Cidade, enfim, eu queria ter uma casa de espetáculo minha. Com muito esforço, parcerias, eu ganhei aquele espaço, um comodato de uma empresa de engenharia de amigos. Deram-me a ‘casca’ e disseram que por 20 anos o espaço seria meu. Tempos se passaram e já se completou os 20 anos. Provavelmente vou ficar mais 10 anos, não sei.  Portanto, são duas realidades, a primeira, é a casca que não é minha, a outra é o recheio que eu construí, ou seja, o que está dentro é meu. 


Sou artista, não sou um bom administrador, o tempo que eu fico sem secretária ou sem administradores eu me embolo todo, eu não sou uma pessoa que tem um bom trato com a lógica cartesiana da administração, com burocracia. Se eu não tivesse em todos estes anos contado com pessoas para exercerem a função de administradores por mim, não sei como seria. É muito difícil manter uma casa, a companhia e os espetáculos. Tenho que colocar os espetáculos em cartaz, fazer a produção, então se eu não tiver uma boa equipe, afinada - o que eu sempre tive - eu não consigo realizar as coisas, mas mesmo assim certas decisões acabam caindo sobre mim, tem coisas que apenas o diretor da casa pode resolver.


DM: Você gosta de experimentar novas formas teatrais, foi por este motivo que criou o Teatro de Pesquisa. Qual era a função deste espaço?
PP:
O Teatro de Pesquisa é uma entidade sem fins lucrativos, de utilidade pública, foi criada para ser um grupo experimental nos anos 70, na Faculdade de Filosofia, onde eu estudava sociologia e que hoje tem 39 anos. Naquela época eu comecei a dar aula de teatro para os meus colegas e criei este grupo, cheguei a montar peças com estes alunos, levei muita gente boa para fazer seminário sobre teatro na Faculdade.


Já passaram pelo Teatro de Pesquisa mais de dois mil atores, muitos cenotecnicos, cenógrafos, figurinistas, diretores, dentre outros profissionais. É este Teatro de Pesquisa que vai fundar a Oficina de Teatro, que é a segunda escola livre de artes cênicas de Minas Gerais. Hoje a escola está na Pontifícia Universidade Católica (PUC-MG). 


Ele foi criado com este propósito: ‘fazer teatro experimental’. Experimentar linguagens, teatro infantil e principalmente teatro juvenil. Só que fazer teatro juvenil no passado era difícil, por conta da ditadura. Os adolescentes entre 12 e 17 anos durante aquele período gostavam de falar coisas que a ditadura não permitia. Então esta vertente para qual a gente pretendia se dirigir, não pudemos nunca realizar. Depois ficou tarde, a ditadura terminou, veio a Constituinte 88 e já tinha passado da minha cabeça a ideia do teatro jovem. 


Considero que o teatro brasileiro tenha uma deficiência muito grande, pois temos teatro infantil e adulto, mas para a faixa etária de 12 a 17 anos não. Isto por quê? As escolas que deviam fazer, não fazem; as instituições que deviam fazer, não fazem. O teatro é uma arte que trabalha a palavra, a pronuncia, e o que um jovem de 12 a 17 anos vai falar? De corrupção, sexo, drogas e rock. Então eu acho que tudo isso amedronta muito. O teatro é uma arte que sempre assustou o mundo, por isso ele sempre foi perseguido.


DM: Em 1981, você participou de um evento no Instituto Nacional de Educação Popular da França, que reuniu 700 diretores de teatro de todo o mundo. Para você qual(is) característica(s) o teatro brasileiro tem de melhor e pior em relação aos outros países?
PP:
O Instituto Nacional de Educação Popular resolveu convidar diretores de vários países para se fazer um encontro no intuito não apenas de trabalhar uns com os outros, mas de discutir experiências e trocar vivências. 


No meu grupo de trabalho tinha espanhol, sueco, romeno e polonês, cada um com uma cultura e linguagem diferente. Esta experiência de quase cinco meses foi absolutamente interessante no ponto de vista de disseminar uma visão teatral para um grupo de grande de diretores. O bacana do encontro foi que ninguém quis empurrar nada ‘goela’ abaixo dos participantes, mas o encontro destas pessoas, os debates, os pequenos exercícios que fazíamos uns com os outros, foi um passo importante no sentido de internacionalizar cada vez mais o fazer teatral. Isto, mesmo que o teatro seja uma arte muito localizada e não tende a ser globalizada com facilidade. Nem no Brasil conhecemos o teatro de todos os estados. Enfim, esta experiência foi crucial na minha vida, para o meu entendimento com outras linguagens e culturas. 


DM: No musical “Mulheres de Holanda”, baseado nas canções femininas de Chico Buarque, você conseguiu juntar temáticas distintas num único universo – “a forma de ver a vida da mulher brasileira”. De onde veio à inspiração para a criação desta peça?
PP:
Eu queria fazer um espetáculo sobre a mulher brasileira, sobre a sensualidade delas, porque é diferente de todas as mulheres do mundo que eu conheci. Comecei então a pesquisar sobre várias questões. Além da sensualidade, da sexualidade da mulher, eu queria falar do feminino, e cheguei até as músicas do Chico Buarque. A peça iria se chamar “Ópera Chico”, o título “Mulheres de Holanda” veio depois. 


Na verdade o que eu faço no “Mulheres de Holanda” é dar uma visão de 40 anos da mulher ou das várias mulheres, das incontáveis mulheres brasileiras, através da poesia e dramaturgia do Chico. Eu fiz uma grande costura de textos com as músicas para criar um espetáculo. Procurei falar de todos os tipos de mulher brasileira: a submissa, a revoltada, a mãe, a mulher que se liberta, a mulher que não se liberta, a mulher que apanha do marido, da mulher que perde o filho para a ditadura, daquela que perde o filho em um tiroteio, então fui costurando essas mulheres que estão nas músicas do Chico.


DM: Foi durante a peça “Mulheres de Holanda”, que você disse em outras entrevistas ter recebido o maior elogio da sua carreira, por quê?
PP:
Durante a apresentação da peça no Rio de Janeiro, em 1992, na qual ficamos quatro meses em cartaz, o Chico foi assisti-la. Ao final do espetáculo ele disse que era um “chicologo”, e a Marieta Severo disse que eu entendia muito mais de Chico, que o próprio Chico. Claro e evidente que foi uma brincadeira, um elogio simpático, agradável. Então eu virei um “chicologo”.


DM: Existe algum teatrólogo que você admira e tem como ídolo?
PP:
Existem vários teatrólogos e vários artistas que eu admiro no teatro brasileiro, Juca de Oliveira é um deles. Paulo Autran eu admirava muito e tinha amizade. Em Belo Horizonte minha admiração recai por aquele que foi meu pai teatral que é o Jota Dangelo. Ele hoje não está mais fazendo teatro, está escrevendo um livro sobre a história do teatro mineiro. Quando eu cheguei ao teatro com 14 anos, o Dangelo já estava na área há muitos anos, então ele foi um guia, por isso eu tenho uma admiração muito grande pela capacidade dele.


DM: Poderia destacar as principais peças de sua carreira?
PP:
Eu gosto de todas, mas tem algumas que são minhas preferidas. ‘Bella Ciao’ foi uma peça que eu fiz no ano de 88 sobre a imigração italiana, acho que é o espetáculo mais contundente que já fiz. Depois tem ‘Rasga Coração’; ‘Galileu Galilei’; ‘Lua de Cetim’; ‘Na Era do Rádio’; ‘Estrela Dalva’; ‘Mulheres de Holanda’; ‘O Bravo Soldado Schweik’ e ‘Mãos Sujas de Terra’. São peças cada uma com a sua temática. Por exemplo, eu fiz uma ópera em 78, ‘O Rei Momo’. Eram 47 atores em cena, um espetáculo maravilhoso, eu adorava aquilo, lotava, saia gente pelo ladrão, o teatro não tinha nem cadeira, porque era na biblioteca pública, era todo mundo sentado no chão.


Tem uma série de peças que curto muito. ‘Brasileiro Profissão Esperança’ eu gostei muito ter feito, ter adaptado texto e dramaturgia para chegar um pouco mais perto dos dias atuais, para falar um pouco mais do brasileiro hoje, como que ele está, se ainda tem mesmo está profissão esperança. No passado a peça foi um clássico com Paulo Gracindo e Clara Nunes, era muito triste e eu dei certa alegria.


DM: Você quando estava à frente do Sindicato dos Artistas organizou a 1ª Campanha de Popularização do Teatro de BH. Aproveitando que a Campanha está em cartaz, fale um pouco sobre a desenvoltura do evento e indique algumas peças teatrais para nossos internautas irem conferir.
PP:
Bom, eu não vou indicar, vou falar o motivo. Se eu indico uma, o outro fica com ciúmes. Agora quanto a Campanha eu acho que é o maior evento teatral brasileiro. Trouxemos para BH no ano de 73 e, logo na primeira campanha foram vendidos cerca de 600 ingressos para 10 peças em cartaz, foi um sucesso. 


Hoje, são vendidos 360 mil, para mais de 100 espetáculos em cartaz, por isso digo que é o maior evento teatral do Brasil. Antes a campanha acontecia também em várias outras cidades do Brasil, mas a população deixou que ela morresse, o importante é que nós não deixamos ela morrer aqui, em BH. 


Quanto às peças, tem muita coisa boa e muita ruim, porque é uma campanha democrática e tem que ter de tudo. Mas, ela já se tornou irreversível, 360 mil ingressos vendidos no ano passado, isso nem o Festival de Avignon, na França ou outros festivais que eu conheci na minha vida alcançaram.


DM: Quais são as tradicionais peças da dramaturgia mineira?
PP:
“Oh! Oh! Oh! Minas Gerais” é hoje um clássico, porque foi uma das primeiras peças da dramaturgia mineira que falou sobre o estado.


DM: Além de diretor de teatro, artista, produtor, você está fazendo um curso de gastronomia. Por que fazer algo tão diferente da sua área de atuação?
PP:
Sempre quis fazer curso de gastronomia. Não adianta ter apenas intuição na cozinha, é preciso dominar as técnicas e era isso que eu queria. Eu gosto de cozinhar em casa, receber os amigos e fazer uma comida.
A professora Jussara Keiko Tanaka é uma pessoa excelente, o curso aqui do Senac/MG oferece instalações excelentes e eu pretendo voltar para fazer outros cursos, porque me admirou muito à estrutura do Senac.

Enviar link

Outras entrevistas