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Elisa Freixo - Dezembro 2009

  • Musicista Elisa Freixo - Divulgação/Victor Godoy

Quando se fala em música erudita, o nome de Elisa Freixo é um dos mais importantes no País. Após concluir seus estudos por aqui, e ter estudado em escolas como a Escola Superior de Música e Artes Cênicas de Hamburgo - Alemanha, a Schola Cantorum de Paris e o Conservatório Nacional de Rueil Malmaison - França, voltou para o Brasil e tem se dedicado ao órgão histórico Arp Schnitger, instalado na Catedral da Sé de Mariana, e no Órgão da Matriz de Tiradentes. Já gravou 12 CD’s, alguns volumes dedicados especialmente ao órgão da Sé de Mariana.


“A música brasileira apresenta muita qualidade em diversos gêneros - é criativa, ousada. A lamentar apenas a imposição da grande mídia que, muitas vezes, impõe determinado tipo de repertório e com isso limita o acesso a uma escuta diferenciada.”


Por Daniel Souza, Gabriela Sthefânia e Isabella Loureiro


Descubraminas: A senhora é organista, cravista e professora de música. Como e quando iniciou seu gosto pela música?
Elisa Freixo: Na minha família todas as crianças estudam e estudaram música, e alguns se tornaram profissionais. Com isso, o ar musical sempre foi um elemento presente em nossa casa e o gosto nasceu muito cedo, ouvindo meus pais cantarem ou a minha mãe tocar piano.


DM: A senhora é paulista, mas se dedica ao Órgão Arp Schnitger da Catedral da Sé de Mariana há 22 anos. Por que decidiu vir para Minas Gerais e aqui seguir carreira?
EF: Eu vim para Minas Gerais por causa do Órgão da Sé de Mariana. Poucos músicos têm se interessado pelos órgãos históricos brasileiros, o que é uma pena, e com certeza esses instrumentos merecem atenção e cuidados.


DM: Em pesquisa, lemos que recebia em sua residência em Mariana, grupos para recitais de cravo e outros instrumentos de teclado antigos. Como é a receptividade do público para esses instrumentos?
EF:
Recebo grupos em minha casa faz muitos anos. Atualmente a minha casa está estabelecida em Tiradentes e se chama Casa da Elisa. Na verdade, tenho uma sala grande, cheia de instrumentos, e nesse espaço recebo grupos com diferentes tipos de interesses: músicos, congressistas, grupos de escolas em excursões pelas cidades históricas, turistas... A receptividade tem sido muito boa, tanto é que desenvolvo essas atividades há quatro anos ininterruptos.


DM: Muitos músicos e instrumentistas costumam afirmar que tocam com a alma. Como é essa experiência?
EF:
Bom, eu diria que o corpo tem que estar à serviço da alma. O corpo de um instrumentista tem que estar tão treinado como o corpo de um esportista. Os dedos têm que ser fortes e rápidos, a musculatura tem que ser desenvolvida adequadamente, não pode existir tensões. O músico tem ainda que conhecer a linguagem que ele utiliza repertório, a história da música e etc. Essa é a parte técnica, mecânica. Para tocar (e tocar bem) esses elementos são essenciais. Além desses, é preciso tocar com a alma, com sentimentos, com vontade e desejos, criatividade, emoção...


DM: Quais músicos você considera como os maiores mestres da música instrumental erudita, e qual a influência deles na sua trajetória como musicista?
EF:
Essa pergunta é ampla. Para um organista, a convivência com os instrumentos é muito importante, pois são eles que ensinam e inspiram. Cada órgão foi construído em um momento e em um local diferente e cada órgão atende a um repertório diferente. Portanto, sempre busquei entender os instrumentos que os grandes músicos usaram. Nessa medida, instrumentos, música e compositores andam juntos. Tenho dificuldade em citar nomes, mas posso citar dois: Johann Sebastian Bach - Alemanha e Francisco Correa de Arauxo – Espanha.


DM: Além de suas atividades como musicista, que a levam em turnês pelo Brasil e por diversos outros países, a senhora exerce atividades didáticas ministrando cursos musicais, qual o maior ensinamento deixa para seus alunos?
EF:
Dar aula é sempre uma troca. Não sei qual é o maior ensinamento que deixo para os meus alunos.


DM: Com qual frequência a senhora mescla nos concertos a música barroca européia com a barroca mineira? Qual diferenciação a senhora vê nesses dois estilos?
EF:
Infelizmente não existe música barroca mineira e nem barroca brasileira escrita para instrumentos de teclados. Quase todo o repertório produzido no Brasil é dedicado à música vocal. Nesses casos, os instrumentos de teclado funcionam como instrumentos de orquestra e, raras vezes, tem um papel solista. Por isso, nos nossos concertos tocamos música brasileira em raras oportunidades, por exemplo, quando recebemos a visita de um coro. De qualquer forma, o repertório brasileiro ainda é pouco conhecido, ainda existe muito trabalho de restauro e edição pela frente. No entanto, dentre as obras que conheço muitas apresentam alto nível de qualidade.


DM: Existe uma produção de música erudita hoje no Brasil? A senhora acredita que esse estilo musical ainda tem seu espaço e aceitação pelo público brasileiro?
EF:
Com toda certeza existe uma música muito boa sendo produzida no Brasil e creio que cabe aos intérpretes tornar essa música conhecida do grande público. Aqui entramos em um assunto muito interessante: nem sempre a produção cultural é de fácil acesso ou de fácil compreensão, portanto, nem sempre ela é popular. Nessa medida, são muito bem-vindas as iniciativas de apoio à divulgação da música brasileira através das Leis de Incentivo à Cultura.


DM: Com a grande heterogeneidade de ritmos musicais existentes, qual avaliação a senhora faz da música brasileira hoje?
EF:
Eu creio que existem músicas boas e músicas ruins, em todos os gêneros, e assim foi em todas as épocas. Existe aquele repertório que nós ouvimos e voltamos a ouvi-lo em diferentes fases das nossas vidas e existe aquele repertório que nós abandonamos quase imediatamente após a primeira escuta. A música brasileira apresenta muita qualidade em diversos gêneros - é criativa, ousada. A lamentar apenas a imposição da grande mídia que, muitas vezes, impõe determinado tipo de repertório e com isso limita o acesso a uma escuta diferenciada.


DM: A senhora realiza vários concertos na Catedral da Sé de Mariana, na Matriz de Tiradentes, entre outros locais. Existe alguma programação já definida para o mês de dezembro, especialmente para o Natal?
EF:
Em Mariana fazemos todos os anos alguns concertos a preços reduzidos: dias 11, 13, 18 e 20 de dezembro os ingressos custam R$ 3,00. Dia 20, contamos com a participação de um coro de jovens da cidade, que irá apresentar um repertório com acompanhamento do Órgão da Sé. Em Tiradentes, dia 4, sexta feira, faremos dois concertos abertos ao público: 16h30 e 20h30, com flauta e órgão. Nas sextas feiras, dias 11 e 18, os concertos acontecem às 20h30, ingressos no local.


DM: Já que estamos próximos a maior festa cristã, deixe para nosso internauta a dica das 10 melhores músicas natalinas.
EF:
O Oratório de Natal de J. S. Bach vale por 10!!

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