Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Wilma Henriques - Outubro 2009

  • Wilma Henriques  - Divulgação/Reis

“Desde criança em festas de família eu já dançava, cantava e falava que queria ser artista. Imagina falar isso 50 anos atrás, para uma família conservadora...”


Por Daniel Souza, Gabriela Amorim e Isabella Loureiro.


Descubraminas: A senhora é mineira de Conselheiro Lafaiete. Como foi a sua infância em uma cidade do interior mineiro?
Wilma Henriques: Eu não fiquei lá. Saí de Conselheiro Lafaiete com dois anos de idade, vim para Belo Horizonte e aqui fiquei. Voltei lá algumas vezes, mas a minha infância toda foi aqui em Belo Horizonte.


Desde criança em festas de família eu já dançava, cantava e falava que queria ser artista. Imagina falar isso 50 anos atrás, para uma família conservadora, que não tinha ninguém que trabalhava com cinema. Naquela época, Belo Horizonte, não tinha emissoras de televisão e o teatro era algo muito restrito, apenas os cinemas faziam parte dos momentos de lazer. Eu ia ao cinema, via os filmes e falava com o meu pai: “eu quero fazer isso”, mas ninguém acreditou. Meu pai morreu muito cedo, quando eu tinha 14 anos, se ele tivesse vivo talvez eu não seguisse essa carreira. Naquela ocasião, ele queria que eu estudasse química industrial, algo nada a ver com o teatro.


Eu estudei no Colégio Santa Maria, de freiras dominicanas, e elas eram muito atentas à cultura. Aos sete anos de idade, quando entrei lá, já comecei a aprender francês e a participar de festas, como as Garden Party, festas comemorativas de Joana D´arc, festa de maio, entre outras. Cheguei a fazer Joana D´arc no palco quando criança.


DM: O que a motivou a iniciar sua carreira artística na extinta TV Itacolomi?
WH: Fui trabalhar no SESI, quando a TV Itacolomi já tinha sido inaugurada. Certo dia, eu estava na cantina conversando sobre a programação da televisão com uma amiga chamada Dagmar, e falei: “eu queria tanto fazer teatro, ser artista...” e ela disse: “se você quiser, eu te apresento para um diretor.” Na mesma hora saímos e fomos à agência de propaganda do Antônio Augusto Vampré, que havia sido diretor de televisão e, na época, contratava elenco. Quando o conheci, ele falou que eu ia começar fazendo um programa feminino chamado O Espelho. Eu nunca tinha feito roteiro nem programa, mas quando me lançaram, comecei a me informar e aprendi a fazer muita coisa que eu nunca tinha visto na vida.


Depois, ele precisou de mim para substituir uma atriz, Léa Delba, que sofreu uma queda, quebrou o pé e não pôde trabalhar. Ela era muito mais velha que eu na época, e fazia o papel da mulher do Pigmaleão, de Bernard Shaw. Eu muito jovem, fiz o papel, com muito medo e tremia apavorada. Continuei fazendo teatro, até que fui contratada pela televisão, onde fiz vários trabalhos.


Quando surgiu o videotape, em 1965, fomos avisados que o teatro acabaria. Nesse momento, eu mesma pedi demissão e fui fazer um programa feminino que se chamava O assunto é mulher, no Teatro Alterosa. Depois comecei a fazer comerciais na TV Belo Horizonte, que passou a ser a Globo. Quando foi em 1966, eu estreei no palco e não parei mais. Fiz teatro, cinema, continuei fazendo comercial ao vivo, apresentei programas e desfiles de moda.


DM: Sabemos que o eixo Rio / São Paulo comanda as telas e palcos do Brasil. A senhora optou por ficar em Belo Horizonte, e quis aqui fazer escola, por quê?
WH: Em 1969, minha irmã que tinha 30 anos faleceu. Passei então a ser filha única e, assim, não tinha como deixar a minha mãe sozinha. Ela não dependia de mim, mas não ficaria sem a minha presença em casa. Eu tive oportunidades para ir para o Rio, para São Paulo, mas eu não pude por isso.


Foi uma bobagem muito grande que eu fiz, pois eu poderia ter tido uma carreira muito bonita lá fora, hoje eu poderia estar muito bem, porque Minas não te dá essa condição. A visibilidade lá é outra. Quando a mamãe faleceu, em 1988, eu já estava desanimada e não quis mais.


Em 2002, eu estava fazendo a peça Três Mães, e uma produtora do Rio de Janeiro estava aqui procurando atores para fazer vídeos e levar para lá. Ela foi ver a minha peça, gostou muito e queria fazer um vídeo meu. Marcamos dia e hora na Globo, mas eu não fui.


Após dois anos, ela voltou à Belo Horizonte, procurando pessoas. Novamente me convidou, mas falei que eu não queria mais sair de Belo Horizonte. Eu não tenho mais coragem de enfrentar Rio e São Paulo. Acho que a logística é muito legal, mas tenho pavor da violência.


DM: A senhora é considera a “dama do teatro mineiro”, trabalhou em inúmeras peças teatrais, participou de filmes, atuou em TV, enfim, recebeu aplausos de várias gerações durante estes 50 anos de carreira. Existe algum momento que marcou essa trajetória?
WH: Vários. A minha carreira foi pontilhada de muito sucesso, muita alegria, mas também de muita lágrima, dedicação, renúncia, de muito preconceito, e fracassos também, como todo mundo tem.


Premiações eu recebi várias. Acabei de receber mais uma, a Medalha da Inconfidência, em Ouro Preto. Ano passado recebi um Colar do Mérito Artístico da câmara dos vereadores. Tenho, também, vários troféus.


A peça A Prostituta Respeitosa, do Jean-Paul Sartre, um dos textos mais importantes dele, foi um marco na minha carreira. Começamos a ensaiar a peça e já tínhamos iniciado a produção. Quando chegou uma carta da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) – que havia consultado a França para pedir autorização – avisando que proibiram todas as obras do Sartre no Brasil, por causa da ditadura, embargaram a nossa peça. Mas o diretor da peça, que por acaso era advogado, fez um relatório e explicou que já havíamos iniciado a produção, inclusive com gasto de dinheiro. Assim, autorizaram a permanência da peça somente em Belo Horizonte. Foi um estouro de bilheteria, mas tivemos que parar. O dia da estreia foi lindíssimo, estava lotado, meu camarim estava repleto de flores, tinham ido até autoridades. Mas eu estava tão cansada que eu tive que sair do teatro e ir para casa. No dia seguinte voltei para fazer a peça, com medo de não ter ninguém e perguntei: “tem gente?” e me falaram: “está lotado!”. E foram 60 espetáculos assim. Foi um fenômeno de bilheteria, um fenômeno artístico que marcou.


DM: Na década de 80, a sociedade mineira se viu atordoada com a apresentação de uma peça teatral sobre a figura de dona Beja, produzida pelo Palácio das Artes. Como foi participar dessa peça, e quais foram às dificuldades?
WH: Eu achei uma delícia. Tivemos dificuldade para fazer o roteiro porque nenhum autor topava a idéia. Eu acho que havia um pouco de preconceito com o diretor, que era mais underground, o Paulo César Bicalho, e também por ser uma produção do Estado. O Paulo César foi buscar autores em São Paulo, foi então que o Mário Prata, que alias é muito bom, ousado e corajoso, aceitou.


Eles foram para Araxá pesquisar sobre Beja e descobriram que não tem nada escrito. Primeiro porque ela era analfabeta. As pessoas que a rodiavam, se escreveram algo sobre ela, não deixaram. Ela deixou muito pouca coisa.


De Araxá, Beja foi para Bagagem, que hoje é Estrela do Sul. Comprou duas casas para as filhas que casaram e moraram lá. Em 1980, visitamos a cidade de Estrela do Sul onde morava uma tetra neta de Beja. Ela nos mostrou uma foto, a mesma que está em Araxá, mas que ninguém comprova se é de Beja.


Então, como não achamos nada, o Mario Prata fez um roteiro muito legal, que criticou o mito. Segundo a história de Agripa Vasconcelos, a casa de Dona Beja, era frequentada pelo padre, pelo delegado, então Mario Prata colocou isso no texto, mas criticando a polícia, o poder e o clero. Como estávamos na ditadura, o exército de Juiz de Fora pressionou o governo para tirar a peça de cena.


Ele fez uma história com três Beja. A primeira Beja era horrorosa e chegava em Araxá nua, com os cabelos compridos sobre os seios, em uma carroça puxada pelo avô. Em uma das cenas, ela entrava em uma garrafa de água mineral, de onde saía a segunda Beja, linda e jovem, interpretada pela Bete Coelho. A minha personagem ficava toda tampada, vestida de pomba gira, e acompanhava a segunda Beja. Depois ela me desmontava e aparecia a Beja mulher.


Foi um espetáculo lindo, maravilhoso. Fomos à Brasília e Goiânia com a peça. Aqui foi um grande sucesso, até o governador da época - Francelino Pereira - foi à estreia. Mas houve um preconceito, do próprio meio. Algumas pessoas me perguntavam: “como você teve coragem de fazer essa peça?”


DM: Com toda a bagagem e dedicação nas artes cênicas, quais são as principais diferenças entre trabalhar na TV e no teatro?
WH: O palco é uma troca de energia imediata, você manda e recebe do espectador. A reação é instantânea, quando a cena está realmente envolvendo a platéia, você sente. Ela fica estática, você quase não escuta a respiração, ou ela se mexe muito na cadeira, incomodada, ou ela chora, ou ela ri muito. Ela te manda uma resposta, um feedback.


Na televisão você não vê o público. Você tem alguma resposta através das pessoas com quem você está trabalhando, como técnicos, diretor, assistente de direção e produtor. Isso também acontece, normalmente, nos ensaios de teatro. Mas interação mesmo, só no palco. É quase um corpo a corpo. Tem espetáculo inclusive que às vezes o espectador reage de uma forma agressiva, de repente ele não gosta, levanta e vai embora. São reações que você percebe. 


DM: Como à senhora escolhe as peças em que irá trabalhar?
WH: Para te falar a verdade eu escolhi poucas, como A Prostituta Respeitosa, normalmente eu sempre fui escolhida. Mas sempre com personagens que eu me interessei e quis fazer. Acho que no máximo quatro vezes, em cinquenta anos, chegou um texto em minhas mãos que eu não me interessei em fazer.


DM: Todos sabem como é trabalhosa a preparação e criação de um personagem. Nesses 50 anos de carreira, qual personagem ou peça, foi mais difícil de dar vida?
WH: Não existe isso, porque cada um tem uma personalidade, uma emoção, uma época, um sentimento. Exige de você uma pesquisa, uma reflexão, um estudo muito próprio daquela situação, tem todo um contexto. Acho que existem desafios.


Por exemplo, uma peça que eu fiz chamada Ensina-me a viver (foi feito até um filme com a atriz inglesa Ruth Gordon). Contava a história de uma mulher de 80 anos, chamada Maude, mas com cabeça de 20. Um rapaz adolescente, chamado Harold, tem fixação por morte e se apaixona por ela, que consegue resgatar nele o gosto pela vida. No dia em que Harold vai entregar as alianças de casamento à Maude, que estava completando 80 anos, ela toma umas pílulas e morre. Foi muito difícil, pois eu tive que avançar no tempo mais de 40 anos para chegar na idade dela. O andar é outro, e ela não era decrépita, era espevitada, tinha uma vitalidade incrível, vivia sozinha dentro de um vagão de trem, mas andava de bicicleta, roubava carro e subia em árvore para roubar fruta. Esse foi o desafio, ter que avançar cronologicamente tanto fisicamente como psicologicamente.


DM: Com a Lei de Incentivo a Cultura e a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, como a senhora avalia este cenário? É mais fácil fazer teatro hoje do que no passado?
WH: A intenção é sempre colaborar e somar, embora no passado não tínhamos a Lei de incentivo e fazíamos teatro do mesmo jeito.  A lei foi criada com um objetivo legal, só acho que o empresariado mineiro não foi ainda conscientizado. Você conta nos dedos aqueles que realmente colaboram, que você leva um projeto e eles se interessam, apesar do número de pedidos ser muito grande. Eu não acho que o empresariado esteja muito interessado em colaborar, apesar da renúncia fiscal. Eu acho que a Lei Rouanet funciona melhor que a Lei do ICMS. Porque a Rouanet qualquer empresa, ainda que seja pública, pode entrar e a do ICMS não, somente particular, então acho que limita. A captação não é fácil, é difícil.


Já a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança tem uma resposta muito boa do público. Mas uma coisa que me incomoda são os espetáculos ficando rotulados como peças para a campanha. Os produtores sabem que determinado espetáculo terá público, porque o ingresso está barato. Isso para mim não é cultural.


Eu faço uma crítica nesse ponto: eu acho que temos uma responsabilidade muito grande do que vamos colocar para o povo ver, tanto infantil como adulto, tanto comédia como drama, mas a qualidade me preocupa. Se você coloca algo muito fácil de ser digerido, eu acho que fica uma coisa rotulada para a Campanha. Eu sei que é difícil levar público ao teatro, que o povo está sofrendo muito, tem que ter diversão, o Brasil e o mundo estão em uma situação muito difícil. O nosso público não costuma ir facilmente à casa de espetáculo, gosta mesmo é de barzinho. Por exemplo, William Shakespeare, que é um autor eterno. Se colocarmos espetáculos dele, o povo não vai ver. Isso é falta de hábito e quem faz o hábito somos nós. Então, é isso que me preocupa.


Mas eu acho que é importante, a Campanha tem que ser feita. Mas como nós estamos caminhando para uma época em que as pessoas estão cada vez mais alienadas, o artista deve se preocupar com a qualidade cultural. Em um palco o artista vai para falar com as pessoas, para contar histórias, seja para rir ou chorar, mas você tem que saber até que ponto você vai atingir aquela pessoa. Tem que haver uma identificação da vida das pessoas com a história que está lá. É lógico que nem tudo que está no palco é realista, mas assemelha.


DM: A senhora é veterana e referência no cenário mineiro das artes cênicas. Qual dica a senhora daria para os artistas que estão começando agora?
WH: Acho que nós não sabemos o que vai acontecer conosco na semana que vem. Existe uma coisa muito séria que é a nossa sobrevivência e a de nossa família. Então, às vezes se a pessoa for fazer um trabalho porque ela realmente ama, tem vocação, tem talento e quer melhorá-lo, quer adquirir conhecimento e precisa trabalhar, eu acho que ela deve investir, seja ela preta, branca, velha, nova, o que for. Mas tem que pensar que é um trampolim para ir para o Rio de Janeiro ou São Paulo. Não estou falando que é ruim, porque realmente ficar aqui é o que aconteceu com a maioria das pessoas.


Então, se quiser fazer, gosta, ama, se tem disciplina, cultura pelo menos, porque tem gente que não sabe falar, não sabe ler. Tem que ter cultura e vontade de fazer algo primeiro por Minas, depois pode até querer ir para um lugar melhor, isso é normal. Não estou criticando o comportamento, só estou falando para os jovens artistas abrirem os olhos, porque daqui a pouco tudo vai ser igual. Ele tem que adquirir cultura, conhecimento, ter ética, uma coisa importantíssima em qualquer profissional, disciplina e amor ao que faz.


DM: Quais são as peças que a senhora considera como representativas do Teatro Mineiro?
WH: Oh! Oh! Oh! Minas Gerais fez um grande sucesso e é uma peça que eu gosto muito, pois conta a história do Brasil. É um musical agradável, interessante, leve, engraçado, que na década de 60 foi muito importante, fenômeno de bilheteria, inclusive o Juscelino Kubitschek foi assistir.


O Ílvio Amaral tem feito muita coisa interessante e boa, eu acho que quando ele vai lá para fora de Minas representa bem o que ele faz aqui. Um espírito baixou em mim já tem 10 anos que está em cartaz e é uma comédia engraçadíssima. É uma peça que tem um homossexual, mas é tão leve, fala do amor, do homossexual e suas trapalhadas, mas não agride, não apela. Não sou pudica, mas apelação me incomoda um pouco.


Os espetáculos do Grupo Cara de Palco, que tem o Jair Raso como diretor e produtor. A que eu fiz, Três Mães, é uma peça muito boa que eu fiz, todo mundo que viu gostou muito.


Tem Chico Rosa, que fala da história da música, de Noel Rosa que morreu com 24 anos e deixou 300 obras, foi um gênio. Tem gente que nem sabe quem foi Noel Rosa, o que é natural. Eu posso não saber dos autores da década de 20, quando eu não tinha nascido, mas eu tinha obrigação de procurar pesquisar. 


As peças do Pedro Paulo Cava também são muito representativas, como Mulheres de Holanda, por exemplo.


Eu não gosto de nomear, porque de repente você acaba sendo injusta e às vezes as pessoas entendem como censura e não é, pois não existe censura, quem faz censura é o público.

Enviar link

Outras entrevistas