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Ângela Gutierrez - Setembro 2009

  • Ângela Gutierrez - Divulgação/Marcíllio Gazzinelli

Ângela Gutierrez conversou com o Descubraminas sobre suas viagens, a paixão por oratórios e o orgulho de ser porta-voz da cultura mineira através do Instituto Flávio Gutierrez.


"Nossa história foi escrita no lombo do burro, nas trilhas a pé ou no leito dos rios."


Por Daniel Souza, Gabriela Amorim e Isabella Loureiro


Descubraminas - A senhora viajou muito com o seu pai quando criança. Das suas viagens por Minas o que ficou marcado na memória?
Ângela Gutierrez -
Eu sempre viajei muito com meu pai, que era engenheiro e a profissão exigia isso. Viajei sempre ouvindo lições de mineiridade porque ele era apaixonado pelo país e pelo estado. Lições de brasilidade, na verdade. Sempre viajei com meus pais vendo coisas bonitas e importantes, coisas que caracterizavam a cultura mineira porque essa era a ótica, a forma de enxergar Minas que eles tinham. Então eu acho que aprendi desde pequena a ver exatamente os valores de Minas Gerais, e do Brasil, porque também viajei muito pelo país.


DM - Por que colecionar oratórios? Qual é a importância deste objeto na sua vida?
AG -
A coleção de oratórios começou, na verdade, sem eu saber. Eu comecei a gostar de fazer restauração muito novinha e queria aprender mais, saber mais. Sempre autodidata, nunca fiz nenhum curso de restauração. Eu via os restauradores trabalhando, meus pais levando as peças para serem restauradas ou eles trazendo alguma pessoa da área pra recuperar alguma peça dentro da minha casa, e comecei a querer fazer aquilo. E os oratórios eram um tipo de peça que chegavam muito estragados, precisando de restauro e eram pequenos, fáceis de transportar.


Como eu era jovem, pequenininha, podia pegar o oratório e levar pra cá e pra lá porque era fácil de manusear. Além disso, era um mundo maravilhoso para quem queria começar a restaurar porque eles sempre tinham pintura. Era um resto de uma florzinha, a carinha de um anjo. E eu ficava louca pra tirar aquela pintura nova e chegar na pintura antiga e assim comecei a aprender as técnicas de fixar, de conservar. Então a coleção começou assim. Eles eram fáceis, eram muitos os oratórios estragados e danificados, quase perdidos pelo descaso e pelo desuso.


O oratório foi uma peça sacra muito importante, mas que durante muitos e muitos anos ele ficou de fora do contexto, "fora de moda". Ninguém queria oratório, ninguém restaurava, os ressuscitava. Então eu comecei a fazer isso.


Fui me apaixonando por eles e costumo falar que eles também se apaixonaram por mim. De repente eu percebi que tinha um grande grupo de oratórios. Aí sim já era uma pequena coleção, que deu origem ao que está hoje em Ouro Preto


Os oratórios têm uma importância enorme na minha vida porque eu passei mais de 30 anos cuidando deles, um por um. Cada um tem um pedaço da minha história contida nele. Foram anos de restauração, recuperação, da busca pelo santo certo, os atributos daquele santo que deveriam estar dentro daquele oratório. Foi um mundo maravilhoso que eu vivi em torno dele durante todos esses anos. Por isso eles representam muito pra mim. Foi restaurando oratório, manuseando, garimpando-os que eu aprendi sobre o barroco brasileiro, sobre arte sacra, e da arte de restauração propriamente dita. Eles foram decisivos na vida da colecionadora.


DM - Em 1998, a senhora doou para o Museu do Oratório, em Ouro Preto, uma parte do seu acervo particular, e em 2005 uma doação de mais de 2.000 peças para o Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte. Por que repartir com o público o seu acervo?
AG -
Eu já tinha feito algumas poucas exposição dos oratórios no Brasil. A primeira foi beneficente, em parceria com o jornal Estado de Minas, que estava angariando fundos para uma obra social. Com toda a divulgação os oratórios começaram a ser conhecidos. Depois fiz uma exposição em Ouro Preto, no anexo do Museu da Inconfidência.


Em 1994, o Ministério das Relações Exteriores me pediu que levasse a exposição de oratórios para representar o Brasil em Lisboa, quando ela foi escolhida a Capital Cultural da Europa. Além da minha, exposições de vários países convergiram para a cidade. Foi lá que eu tive a impressão muito nítida de que essa coleção era importante. Percebi que ela era única no mundo e que continha aspectos interessantíssimos para estudiosos do assunto.


A exposição foi em um museu importantíssimo de Lisboa, o Museu de São Roque, berço do Barroco português, que por sua vez foi o grande inspirador do barroco brasileiro. Então eu estava em um lugar de grande importância nesse cenário e encontrei com vários historiadores, sociólogos, professores; não só de Portugal mas de toda a Europa; e foram eles que confirmaram que a coleção era única e muito importante. Até então eu não acredita muito quando algum amigo falava que eu tinha a única coleção de oratórios do mundo.


Voltei para o Brasil muito impressionada com isso e tive um momento de lucidez que, acredito, deve acontecer com todo colecionador. É quando ele percebe que a sua coleção é mais importante do que ele próprio, que a criou.


Eu fiquei com essa sensação e ao mesmo tempo muito preocupada com a descoberta. Percebi que não poderia continuar com ela guardada pra mim, dentro da minha casa. Achei que era hora de disponibilizar e devolver tudo aquilo para o patrimônio brasileiro.


Uma consciência que eu sempre tive é de que somos um país que trata muito mal a nossa memória. Desrespeitamos, desvalorizamos e desconsideramos uma boa parte da nossa história. Então eu pensei: se isso é tão importante, se é a única no mundo, está na hora de criar um museu.


Comecei a procurar um espaço, até que me foi oferecido pelo Padre Simões, vigário muito conhecido de Ouro Preto e a quem eu devo muito, o sobrado da Ordem Terceira do Carmo que estava em péssimo estado de conservação e merecia um fim nobre. Comecei a restaurar o casarão em parceria com a Irmandade do Carmo e foi assim que o museu nasceu.


No dia da inauguração, todos os oratórios e as imagens estavam doados para o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Hoje o Museu do Oratório, assim como o Museu de Artes e Ofícios, é um acervo público federal.


DM - Como é gerir o Instituto Cultural Flávio Gutierrez, criado em homenagem à seu pai e responsável por dois importantes museus brasileiros?
AG -
O Instituto é o gestor de dois museus federais, porque os dois acervos foram doados ao IPHAN. As duas construções são antigas, com tombamento e eu tenho comodado tanto de Ouro Preto como daqui. Então, na verdade, o Instituto Flávio Gutierrez é guardião, mantenedor desses espaços e gestor desses dois museus. Nós trabalhamos com a Lei Rouanet - a Lei de Incentivo à Cultura - e gerimos museus da forma mais contemporânea possível, porque como tudo hoje, é um desafio manter não só museu, mas qualquer negócio, qualquer coisa que precise funcionar deve ter muito critério para administrar, é o que eu procuro fazer aqui.


DM - Boa parte da sua vida é dedicada à preservação da cultura brasileira. Seu próximo projeto será um museu para abrigar uma coleção de Santanas, na cidade de Tiradentes. O que podemos esperar desse novo museu?
AG -
Em primeiro lugar, este museu será feito se houver interesse da cidade em acolhê-lo, Tiradentes precisa querer o museu. Em segundo lugar, ele vem de uma parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, que é o órgão que tem a propriedade da cadeia pública, uma construção da primeira metade do século 18, que se presta muito bem para um museu de arte sacra. A Universidade é a proprietária, cuida, administra, toma conta, durante anos ela tem feito isso com a cadeia. Então, essa parceria é essencial. Eu poderei montar o museu se a Universidade realmente quiser e isso parece que já está acertado, a UFMG quer fazer esse museu lá. Nós já temos um acordo de cooperação técnica do Instituto Flávio Gutierrez com a Universidade, para que esse museu seja feito.


A proposta da UFMG é que não seja simplesmente feito um museu. A proposta é criar uma biblioteca que contenha o tema do barroco em uma outra casa importante, antiga, que a Universidade também tem na cidade. Nessa biblioteca teria um banco de dados bem completo, bem feito, que tenha um link com bancos de dados de outros países, de vários pontos do mundo, tudo isso corando esse assunto do barroco brasileiro e estrangeiro.
Estamos em negociações, acertando esse lado burocrático. Estou começando a preparar os primeiros estudos arquitetônicos para depois termos um primeiro anti projeto para submeter, então, à apreciação da Universidade e da cidade. O Museu de Santana está caminhando, mas ainda falta muito.


DM - Várias peças do Museu do Oratório já viajaram o mundo. É perceptível alguma diferença entre o olhar do visitante brasileiro e do estrangeiro, ao percorrer um museu?
AG -
Vejo sim, principalmente ao visitar a exposição de oratórios. Não digo que são diferenças, mas sim características próprias de apreciar as obras. Os europeus veem aquelas peças com um interesse, uma curiosidade completamente diferente da nossa gente, que bem ou mal, foi criada próxima desse objeto de fé.


Para o europeu é muito raro, diferente, exótico e incrivelmente interessante. Sendo que os oratórios que nós chamamos de fatura negra, chamam muita atenção. Esses oratórios são aqueles que foram feitos pelos africanos, escravos e seus descendentes e guardam uma personalidade própria muito marcante. São muito bonitos, diferentes e muito fortes. Esses então despertam no europeu um olhar completamente extasiado.


Eles não entendem bem aquele objeto construído de maneira rústica, tosca, que mantêm dentro de si uma influência das crenças africanas, não católicas, muito diferente do que eles estão acostumados.


DM - A revista Palavra marcou época em Belo Horizonte. A senhora pensa em um dia retomar a publicação de uma revista?
AG -
A Palavra foi um sonho inicialmente do Ziraldo, que é muito meu amigo e sempre foi. Ele concebeu a revista e, naquele momento, eu participei junto com ele daquele sonho. E eu achava que a revista era uma necessidade, que ele devia realmente fazer. Ele começou a revista em um momento difícil, talvez de uma forma que não era a ideal, e não conseguiu tocar para frente. Eu assumi durante uns meses, mas também não foi possível como um negócio, como um acontecimento cultural importante, que era o que a gente queria. Então, foi impossível tocar a revista.


Mas eu mantenho a editora, o título e tenho guardado aqui comigo que, um dia quem sabe, a gente consiga reativar a revista Palavra. Porque eu acho que ela ocupou um espaço bastante interessante. Hoje temos outras opções, muito mais do que na época, mas, ainda assim, eu acho que é uma revista que não tem uma similar no mercado. Então, acho que é possível um dia voltar com a Palavra, porque eu vejo que ela marcou época.


DM - A senhora é uma das juradas do "Comida de Buteco", concurso em Belo Horizonte que escolhe os melhores petiscos da cidade. Como vê um concurso desta natureza, e qual a sua importância?
AG -
Eu acho importantíssimo e sempre dei a maior força, espero que esse concurso continue cada vez mais firme, como tem acontecido. Acho que hoje, o Comida de Buteco já é sucesso nacional, não só em Minas. E é importantíssimo porque o concurso resgata raízes interessantíssimas da nossa cultura gastronômica. É uma coisa muito própria de Minas Gerais e eu acho fabuloso e necessário.


Eu sempre vou a todos os botecos, porque eu já sou botequeira de carteirinha assinada. Então estou sempre indo, experimento. Gosto muito de comida mineira, acho as nossas raízes gastronômicas interessantíssimas e isso caracteriza Minas. Então, temos que apoiar.


DM - Minas reconhecidamente possui um diversificado patrimônio cultural. Entre gastronomia, monumentos, livros, música, artesanatos, obras de arte, dentre outros, quais a senhora elege como as mais representativas do estado?
AG -
O prato que acho muito característico da história de Minas Gerais é o feijão tropeiro. Além de ser delicioso eu vejo que as pessoas que estão fora de Minas adoram o prato. Ele conta a história dos tropeiros. O acervo do Museu de Artes e Ofício começa com os tropeiros. Nossa história foi escrita no lombo do burro, nas trilhas a pé ou no leito dos rios. Eram os tropeiros que faziam a história. Eles levavam e traziam tudo o que se tinha para negociar, para comercializar. Os acampamentos dos tropeiros eram redutos de tradição cultural. Então, os tropeiros são figuras maravilhosas da nossa história e o prato que eles faziam, que é a interpretação atual, acho que era muito importante. Eu adoro falar que o meu prato preferido é o feijão tropeiro.


Em artes, por exemplo, dentro do barroco que é a minha área de estudo e de trabalho: eu acho que Minas tem o Aleijadinho para o mundo. Aleijadinho é um artista que foi projetado daqui para o mundo. Não existe ninguém mais importante dentro da nossa arte barroca do que Aleijadinho.


Em música nós temos uma tradição fabulosa no Campo das Vertentes, São João del-Rei, Tiradentes, Prados, Diamantina... a música ali está na alma daquelas pessoas. São cidades musicais e vejo que as famílias mantêm esta tradição. São João del-Rei é muito emocionante, Diamantina também. Ali têm pessoas mais velhas que fabricaram o seu próprio instrumento. É uma coisa enraizada em Minas. Então, essa música do século 18 eu citaria como a nossa grande conquista e o nosso grande patrimônio musical.


Em literatura, nós temos vários escritores. Eu prefiro não falar dos que estão aí porque têm vários muito bons. Mas eu fico com Carlos Drummond de Andrade.


Em artes plásticas: Guignard não nasceu aqui, mas ele também se projetou de Minas para o resto do país e até para fora do país. Eu acho que é o artista contemporâneo que resume poesia, sensibilidade, qualidade em tudo o que produziu. Ele esteve aqui, viveu em Ouro Preto. Ele não era mineiro de nascimento para era de coração, porque ele retratou Minas lindamente nos seus quadros.

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