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Geraldo Magela (Ceguinho) - Agosto 2009

  • Humorista Geraldo Magela   - Divulgação/Geraldo Magela

Geraldo Sebastião Magela Dias, o cego mais famoso do Brasil, perdeu a visão ainda muito jovem em decorrência da doença denominada Retinose Pigmentar. Hoje aos 51 anos e pai de dois filhos, quebra os preconceitos recorrendo ao bom humor.


"Muitas pessoas acham que, por eu ser cego, todo mundo na minha casa tem que ser cego: a mulher, os filhos, o cachorro, o papagaio..."


Por Daniel Souza, Gabriela Amorim e Isabella Loureiro


Descubraminas: Venda Nova é um dos bairros mais antigos e tradicionais de BH. Como foi sua infância no bairro?
Geraldo Magela:
Na época eu enxergava pouco, muito pouco, mas mesmo assim fazia tudo que os outros faziam. Os caras me passavam sempre para trás. Jogava bolinha, finca, nem sei se ainda existe isso, usávamos um cabo de vassoura bem curtinho, e no chão meio molhado íamos desenhando tipo uma estrada em épocas de chuva. Mas são coisas que não têm hoje em dia, porque antigamente tinha muito mato, era tudo muito mais fácil e eu brincava dessas coisas. Também vivia apanhando da minha mãe, enxergava pouco demais e ainda cismava de andar de bicicleta que eu alugava, ficava andando mais nos passeios, nas calçadas. Então minha infância foi muitíssimo ativa em Venda Nova, mesmo com o preconceito. Conheço tanto o bairro que às vezes as pessoas ficam impressionadas quando vou de carro com alguém e vou ensinando o caminho. Tenho uma memória visual, porque eu já enxerguei um pouco, então sei todos os pontos de Venda Nova. Rodava lá sempre a pé, vendendo loteria, mexerica, chup-chup e picolé.


Faziam muita sacanagem comigo, sabendo que eu era quase cego. Jogavam-me pedra quando passava e se escondiam, davam tapa, mas o saldo foi positivo. Vivia machucado porque vivia trombando, caindo em buraco. Usava óculos fundo de garrafa, com nove graus. Para você ter idéia, a lente era tão forte que quando eu fumava (tinha este defeito) eu acendia o cigarro com a lente. Colocava-a direcionada com o sol, o foco batia no cigarro e o acendia "rapidão". Então a infância, mesmo sendo quase cego, foi muito boa, muito ativa.


DM: Você criou personagens engraçados que são sucessos em todos os lugares. Há alguma diferença entre o "ceguinho" e o Geraldo Magela fora dos palcos e da telinha? Você sempre foi bem-humorado ou foi "obrigado" pela circunstância a ser assim?
GM:
Não! Existe humorista que tem a característica de ser muito tímido, outro mal-humorado, mas no meu caso não. Sou exatamente do mesmo jeito que no palco ou quando vou à televisão. Não tem problema nenhum se durmo só duas horas, uma hora. Quando eu fazia promoções de pagode, tinha um programa na Rádio Itatiaia às quatro horas da manhã, e, às vezes, nem sequer tinha tempo para dormir. Deitava por uma hora e às vezes era o programa mais inspirado que eu fazia. Então eu não sei explicar. Já acordo "pilhado", bem-humorado. Mas, como qualquer pessoa, tenho momentos de mau humor, fico meio chateado, mas passa rápido. Desde pequeno, estou sempre de bom humor.


DM: Quais foram os maiores desafios enfrentados por você para se tornar hoje um humorista reconhecido nacionalmente? Como foi lidar com o preconceito por ter deficiência visual?
GM:
Foi muito difícil, porque até então o cego era sempre visto como um pobre coitado, um pedinte, um mendigo, como vendedor de loteria - que não é demérito nenhum. Trabalhei durante 10 anos vendendo loterias, e ganhei uma grana. Ninguém ganhou comigo, mas ganhei com os outros. Eu era muito pé frio. Mas já aconteceram coisas muito tristes, por exemplo, com relação a namoradas. Sempre tive pouquíssimas porque eu conversava com elas pelo rádio de comunicação, as mulheres me davam mole, mas no momento que iam me conhecer pessoalmente, viam que eu era cego e logo se afastavam, mudavam de assunto, outras despistavam. Ao ponto, inclusive, de a minha primeira namorada falar que os pais dela preferiam vê-la morta a namorar um cego. Fiquei arrasado, mas ainda bem que isso aconteceu com a pessoa que não ia me fazer feliz. Fiquei mais chateado por isso, porque se ela realmente gostasse de mim, iria enfrentar o preconceito dos pais.


Mas esse preconceito acontece por pura falta de informação. As pessoas nos tratam desta maneira porque ao longo da vida, quando se faz uma campanha para alguma instituição ou entidade, sempre colocam uma voz e um fundo musical tristes e as pessoas veem sempre o deficiente visual (ou qualquer tipo de limitação física) como um pobre coitado. As pessoas desconhecem o verdadeiro potencial que nós temos.


Quando eu ia às emissoras de televisão, rádios, os caras diziam: "Mas você não enxerga e quer trabalhar em rádio?". E eu respondia: "Sou cego, mas eu falo é com a boca". Não dava para entender. Sempre foi muito difícil, porém sempre fui muito persistente. Até me consideraram meio "mala" de tanto que eu corro atrás.


Já aconteceram muitas coisas. Estava querendo procurar um patrocinador lá em São Paulo e fui com um amigo. Entrei na loja e já tinha conversado com o dono do estabelecimento por telefone, que me pediu para ir lá conversar com ele.


Quando cheguei o gerente me viu entrando segurando o braço do cara e com uma bengala e fez um sinal que não tinha esmola para dar. Só depois meu amigo me contou. O cara estava pensando que eu tinha ido lá para pedir alguma coisa para entidade ou esmola.


Uma incoerência que existe no Brasil é que nós temos as melhores agências de publicidade do mundo e mais competentes, só que eles têm a mania de não nos procurar para darmos sugestões quando vão fazer algum trabalho para entidades de deficientes.


Uma vez fui fazer uma campanha que já estava prontinha. Eles mostraram umas vinhetas onde os artistas falavam algumas coisas, pediam para as pessoas doarem as córneas e no final terminavam com uma frase horrorosa. Era assim: "Doe suas córneas, porque a vida para quem não enxerga não tem a menor graça", com os humoristas falando. Aí falei: "Como vocês chamam um humorista que é cego para falar que a vida para quem não enxerga não tem a menor graça? Olha que incoerência! A prova disso sou eu, que sou humorista e faço as pessoas sorrirem e sou feliz".


Muitas pessoas têm um certo receio em colocar um ator cego, com medo da crítica achar que o programa está usando a deficiência para aumentar a audiência. No show, por exemplo, tem muitas pessoas que não vão me ver no teatro por prejulgarem que um cego não dá conta de segurar o público por uma hora. Muita gente me confessou que deixou de assistir ao meu show porque achava que um show de uma hora de um cego, solo, não iria ser legal. Uma bobagem. Depois de assistirem ao show diziam que se surpreenderam positivamente.


Mas é o que falo, ao longo da vida, as campanhas só fizeram estas coisas, pedindo indiretamente esmola, pedindo doações, então infelizmente ainda tem este tipo de problema. Mas eu tenho que ser persistente, mesmo tendo a convicção, tendo a consciência que já exagerei outras vezes tentando almejar o meu espaço. Mas é melhor pecar pelo exagero do que pela falta.


DM: Você, juntamente com personalidades mineiras como Gorete Milagres, Saulo Laranjeira, Carlos Nunes, entre outros, são alguns destaques no cenário humorístico brasileiro. Você acha que o "jeitinho" mineiro de ser contribui para esse sucesso, permitindo a concorrência com humoristas do eixo Rio - São Paulo?
GM:
Eu acho que sim, as pessoas têm um carinho especial. Eles gostam do sotaque, do nosso jeito de falar. Só que, no meu caso, confesso que sou meio frustrado. Eu estou com um projeto de voltar para a rádio e fazer um programa aqui. Mas estou com dificuldades em conseguir um horário bacana. Eu tenho vontade de voltar, tenho projeto e tudo, mas as empresas não dão espaço.

Eu sou muito feliz, tenho muito orgulho de ser mineiro, ser de Venda Nova, mas eu sou muito frustrado com relação ao reconhecimento. Já fui em vários programas de televisão, em rede nacional, e fiquei até constrangido por me tratarem tão bem, me darem tanto valor, quando na minha terra, isso muitas vezes não acontece.

Tenho a consciência de que se eu morar em São Paulo profissionalmente será melhor, porque tudo acontece lá. Mas eu gosto muito de Belo Horizonte. Lá eu acho uma confusão, tudo muito grande, então prefiro ficar aqui mesmo.


DM: Seus espetáculos já viajaram todo o Brasil, levando um humor bem mineiro às diversas regiões do País. Como é a receptividade dos diferentes públicos? Existe alguma diferença quando se apresenta em casa?
GM:
Até que não, a reação é muito positiva, e fico muito feliz. O público que melhor reage positivamente é o do sul, e eles são muitos exigentes. Em Florianópolis, fiquei muito encantado porque fiz um espetáculo em um teatro lá que cabe 945 pessoas. Tivemos que vender a mais, deixar as pessoas sentadas no chão, de tanta procura pelo show. E foi o maior carinho. Fiquei impressionado por ser no sul, onde as pessoas são mais exigentes. Mas, no geral, o Brasil inteiro me recebe bem. Mas na região sul, sou mais ainda.


DM: Você participou da Campanha de Popularização do Teatro com três peças: "Ceguinho é a Mãe", "Ceguinho Chutando o balde" e "O Melhor do Ceguinho". Em sua opinião, qual a principal importância da campanha na promoção da cultura? Você acredita que ela tem cumprido o seu papel?
GM:
A campanha é legal e é um fenômeno de público. Acho que merecia um destaque até no Fantástico, porque é fantástico isso, em dois meses quase 300 mil pessoas irem ao teatro.


Mas eu acho que deveriam dar um tempinho com relação ao aumento do preço. De R$6,00 já passou para R$10,00. Até então não é muito caro mas se você sobe o preço, já não é mais popular. Imagina uma pessoa que tem cinco filhos, por exemplo. Se ela leva todos ao teatro já são R$60,00, fora as despesas com passagem e tudo mais.


Acho também que deveriam aumentar a divulgação porque a Globo dá um apoio grande no mês de janeiro. Em fevereiro a disponibilidade da grade diminui um pouco. Acredito que um complemento com outdoor e parcerias com emissoras de rádio, ajudaria na divulgação.


E no teatro, acho a questão da meia entrada para estudante justa até um certo ponto. Mas acho que tem outras classes que deveriam pagar meia entrada. Por outro lado, é injusto com o produtor que às vezes tem uma peça com 10 pessoas em cena e ele acaba tendo que sacrificar a pessoa que paga inteira colocando um valor alto. O governo poderia subsidiar um tanto, dando uma contra partida para o produtor.


Após a campanha, o que percebo é uma diminuição do público. Durante a campanha, em janeiro e fevereiro, lota e ao longo do ano fica meio vazio.


DM: Além de apresentar os seus shows por todo o Brasil, você já esteve no elenco da Escolinha do Barulho, da Rede Record, fez participação no Zorra Total, lançou um CD e um DVD, ministra palestras e está escrevendo o livro "Um cego de olho no futuro". Quais são seus próximos projetos?
GM:
Há cinco anos o livro está travado, até conversei com o Willy, do Programa do Jô, para fazer o lançamento lá, só que resolvi lançar a palestra antes. Ela é um resumo do livro. Eu estava escrevendo através do programa de voz do computador, só que há momentos que dou uma "travada" e fico triste, choro, me emociono, então dei uma parada. O livro, até onde está escrito, está bem legal. Quero que seja um livro gostoso de ser lido, não para ficar chorando. Ainda bem que estou conseguindo colocar também as partes mais sofridas de uma maneira bem suave.


Eu tenho os dois shows e tem o "Cego de Olho no Rádio" que só fiz duas vezes, satirizando um programa de uma rádio. Talvez eu possa voltar com ele, que também é bem bacana. Tenho ideia de um quadro para um programa de televisão, onde eu viajo mostrando o que as pessoas ainda não viram. Por exemplo, um ceguinho mostrando as paisagens mais bonitas do Brasil cachoeiras, mato, mar, essas coisas, brincando com isso. Tenho também um projeto com as prefeituras de "humor da praça", para levar o teatro para praças públicas. Já fiz isso e foi muito legal, a gente coloca um palanque e umas 500 cadeiras, dá um efeito bem bacana, as pessoas gostam muito.


DM: Durante a Copa do Mundo da França, em 1998, você desempenhou o papel de "olheiro" da Seleção Brasileira. Quais são as suas expectativas para a Copa de 2014, aqui no Brasil? Podemos esperar outra participação sua?
GM:
Eu queria e ainda tenho a pretensão de conseguir fazer um show para a seleção brasileira. Já fiz para o Cruzeiro e para o Volta Redonda no Rio. Mas é tudo muito burocrático, muito difícil. Na Copa de 98, eu decidi que iria para a França. Não consegui a credencial com a empresa que trabalhava, mas fui tentando até conseguir o patrocínio das passagens. Foi a maior confusão! Conheci uma menina que arranhava o francês e ela disse que conhecia um cara que morava em Londres, que conhecia uma menina que morava em Paris e ia tentar conseguir que eu ficasse na casa dela. Assim consegui as passagens e a hospedagem. Foram comigo essa menina que, por coincidência, também era fotógrafa, e mais um amigo. Levei comigo uma baita faixa, de 8 metros de comprimento por 1,60m de largura, toda colorida, escrita assim: "Geraldo Magela: olheiro oficial da Seleção Brasileira". Eu ia com essa faixa para todos os lugares. Tirei foto com ela na Torre Eiffel, em frente ao local onde a seleção treinava, dei entrevista para tudo quanto era rádio, revista e televisão. Não consegui fazer o show para a seleção, mas fiz o meu comercial por lá. Quando eu cismo de uma coisa eu corro atrás!


Uma outra coisa engraçada que aconteceu foi quando eu perdi o vôo de volta e tive que dormir em Madri. Quando chegamos ao aeroporto estava acontecendo o jogo Brasil e Chile e não tinha nenhum aparelho de televisão. Eu, rádio maníaco que sou, levei um headphone e achei uma rádio da Espanha que estava transmitindo o jogo. Mas o engraçado foi que eu estava sentado na cadeira e os brasileiros ficaram todos ao meu redor. Estava ouvindo o jogo e eles vendo através das minhas reações. Quando saiu o gol eu gritei: "Gooool do Brasil!", e a galera toda começou a vibrar, pular, gritar. Essa menina que estava comigo conseguiu tirar uma foto exatamente nesse momento.


Agora, eu queria conseguir fazer o show para a seleção brasileira até antes da Copa de 2014. Mas eu devo fazer alguma coisa, com certeza.


DM: Magela, o brasileiro, costuma fazer humor com as suas próprias dificuldades. A crise econômica, crise da gripe e até no Senado, você concorda em criar piadas com esses assuntos?
GM:
A piada bem feita é sempre válida. O "CQC" é um exemplo de programa que utiliza as piadas muito bem. Às vezes, as pessoas dizem que eles desrespeitam os políticos, mas são eles que nos desrespeitam roubando o nosso dinheiro. Tem gente ali que já devia estar aposentado. As pessoas que têm fazendas, muito dinheiro, que ganharam com o seu suor, honestamente com o trabalho, tudo bem. Fala-se muita da Xuxa, que ela tem muito dinheiro, mas ela conseguiu trabalhando. Essas pessoas merecem gastar o dinheiro como quiserem. Se for para ajudar, melhor ainda, mas o dinheiro é dela. Mas tem político que todo mundo sabe que roubou. O problema do Brasil é que aqueles que roubam são os mesmos responsáveis por fiscalizar, abrir CPIs e julgar. Assim, todos são, de alguma forma, protegidos. Os peixes pequenos são presos, mas os grandes têm todo mundo nas mãos.


Por isso, acho que tem que usar o recurso da piada sim. Mas no sentido de criticar, para ver se essas pessoas de alguma forma sejam punidas, pois um escândalo vai abafando o outro. Eu costumava falar que era o único humorista cego no Brasil. Mas agora não sou mais, somos dois: eu e o Lula. Porque ele continua fazendo de conta que não viu nada. Aliás, no Senado, eles estão sofrendo um ataque de Alzheimer. Ninguém lembra de absolutamente nada, ninguém sabe de nada. Estão todos cegos, sem memória. E ainda falam assim: -"Oh, mas esse dinheiro estava na minha conta? Nem vi...".


DM: Poderia contar um caso engraçado que aconteceu na sua vida profissional?
GM:
O próprio show "Ceguinho é a mãe" são casos engraçados. Nem tudo aconteceu comigo, são as pessoas que me enviam as experiências, coisas que as pessoas fazem como atravessar os cegos errado. Quando eu trabalhava em rádio as pessoas achavam ruim porque eu informava o telefone para ligarem e ninguém atendia. Mas é porque o telefone no estúdio não toca, acende uma luz e eu não enxergava. Aí um dia falei que o filho do diretor tinha resolvido o problema. Ele comprou um aparelho que fica acoplado ao telefone e toda vez que ele tocava dava um choque. Coisa boba, de 220 volts! Aí ficava sabendo.


DM: Pela primeira vez no mundo uma atriz cega na vida real faz o papel de uma cega na ficção. É o caso de Danieli Haloten, que interpreta Anita na novela da Globo "Caras & Bocas". Você acredita que o universo das artes cênicas no Brasil está evoluindo na inserção dos portadores de deficiência?
GM:
Acho que sim, até pelo fato de eu ter conseguido e agora a Danieli, que é uma lutadora. Ela é jornalista, formada em Artes Cênicas e correu atrás mesmo. Agora ela tem um outro desafio: ela quer fazer o papel de alguém que enxerga. As pessoas não acham que vai dar certo, mas ela diz que com a tecnologia disponível hoje é possível. Tomara que ela consiga e que façam um personagem bacana para ela, também para acabar com essa ideia de pena em relação aos cegos. Porque quando tinha o cego na novela América, o Jatobá, na primeira semana, quando o personagem já aparecia com um cachorro, dando a impressão que todo cego tem cão-guia, quando não existem mais de 50 no Brasil, por questões óbvias de custo. É muito caro. Um cachorro custa mais de R$ 15mil, tem que treinar nos Estados Unidos. Eles perderam essa oportunidade, porque o Jatobá enxergava e depois ficou cego. E há um período difícil de adaptação à bengala para quem já enxergou. A gente não quer assumir a bengala, por puro preconceito com a gente mesmo. Inventa um monte de desculpas. Mas nem sempre as pessoas estão dispostas a nos levar para cima e para baixo. Eu ficava pensando: "Quem me conheceu enxergando vai ficar com dó por eu estar andando de bengala". Bobagem, porque depois que assumi a bengala fiquei muito mais independente.


Espero que agora apareçam mais pessoas na mídia. O programa que eu tinha vontade de fazer teria também um quadro para mostrar pessoas que tenham deficiência. Tem um cego que é acunpunturista, acho que são três no Brasil. No Japão é muito comum, mas aqui ainda é pouco. Tem também um que é surfista e tem uma escola que ensina outros cegos, a própria Danieli já surfou, têm cegos que são campeões de xadrez, músicos. Há muitas coisas que as pessoas desconhecem. Não só cegos, pessoas com outras deficiências também. Conheço um músico que toca com os pés, sei de mulheres que não têm os braços, mas cozinham, costuram, fazem croché. Queria mostrar essas pessoas de uma forma bacana, engraçada. Não para as pessoas chorarem nem parecer piegas.


DM: Minas Gerais é conhecida, principalmente, por suas belas montanhas e pela culinária tradicional. Como as cidades históricas recebem os turistas que possuem algum tipo de deficiência? Você acha que elas são preparadas, oferecendo conforto e acessibilidade para esse público?
GM:
Ainda não são totalmente preparadas, mas por causa da topografia. Não tem como você adaptar uma cidade inteira para um deficiente. Eles é que acabam tendo que se adaptar à cidade. Ouro Preto, por exemplo, tem umas ruas que parecem paredes, de tão íngremes. Realmente fica difícil para um cadeirante.


Mas algumas coisas podem ser feitas, que já estão nas leis, e muitos lugares não respeitam. Como os prédios, que devem ser construídos com rampas ao lado das escadas. O cadeirante sofre muito com isso. Acaba a luz e ele tem que dormir na portaria do prédio. Na casa das pessoas, ele não pode tomar muita cerveja, ou qualquer líquido, porque para ir ao banheiro é um sacrifício danado porque a cadeira não passa na porta. Ainda têm muitas coisas a serem conquistadas.


Os ônibus com elevadores são outro problema. O governo obriga que as empresas tenham os ônibus. Aí elas colocam 2% da frota adaptado, mas tinha que ser em todos. A pessoa não pode ficar esperando tanto tempo até chegar um ônibus que seja adaptado.


Em Belo Horizonte, acho que só alguns quarteirões tem aqueles pisos que avisam quando está chegando perto de telefone público, perto de rua. Mas deveria ser na cidade inteira. Não é nada que vai gastar milhões e milhões de reais. Mas eu espero que melhore.


DM: Para você quais são as melhores características do mineiro?
GM:
O mineiro é muito receptivo, muito carismático, principalmente no interior. Se você chega a dez casas, tem que tomar dez cafezinhos. E se você não aceitar é desfeita. E são muito fartos. Todo lugar tem sempre um pé de laranja, de mexerica e eles trazem logo é a bacia. E a comida mineira que é ótima, mas que engorda para caramba (risos).


O povo mineiro é mesmo muito carismático. Acho que é por isso que as pessoas gostam tanto do nosso jeito de falar, de diminuir as palavras: "Carlim", "juntim", "ói pro cê vê".


DM: Gostaria de deixar algum recado para nossos internautas?
GM:
Gostaria de convidá-los, pois em agosto eu devo estrear um stand-up e vou fazer uma votação para o melhor nome do espetáculo, provavelmente no twitter. Serão quatro humoristas mais um convidado. E acessem também o blog: www.bloglog.com.br/geraldomagela, lá tem muitas novidades e curiosidades.

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