Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Helvécio Ratton - Setembro 2008

  • Helvécio Ratton - Divulgação

Mineiro de Divinópolis, o diretor e produtor, Helvécio Ratton conversa com o Descubraminas sobre seu novo filme Pequenas Histórias, da dicas para quem deseja seguir carreira de cineasta e fala como é fazer cinema em Minas Gerais.


Por Juliana Linhares


DM: Seus filmes, na maioria, retratam algo de Minas Gerais, há uma intenção em utilizar o cinema para difundir a cultura mineira?
HR:
Isso vem de forma natural, não planejo colocar em meus filmes a cultura mineira, está em mim. Quando um produto cultural é autêntico, ele expressa a cultura do lugar onde foi produzido. Às vezes as pessoas se equivocam ao pensar que, no mundo globalizado em que vivemos, os filmes não devem expressar uma cultura regional, devem ser "universais". Isso é um grande erro, o universal está justamente no particular, é a partir de sua aldeia que você pode falar para o mundo.


DM: Você é de Divinópolis. De que mais tem lembranças da sua terra natal e da infância em Minas?
HR:
Na verdade, eu saí muito pequeno de Divinópolis e quase não tenho lembranças de lá. Meu pai, Luiz Mourão Ratton, era juiz de direito e foi transferido depois para Peçanha, onde morei até os 6 anos, quando nos mudamos para Belo Horizonte. Considero Belo Horizonte, onde cresci e me formei, minha cidade, mas tenho muita simpatia por Divinópolis e também por Peçanha. Passei muitas férias no interior de Minas, em São João del- Rei, terra de meu pai, em Pará de Minas e muitas outras cidades. Conheço muito Minas Gerais, é o pedaço do planeta onde nasci e mais tarde escolhi para viver.


DM: Os cineclubes se tornaram grande influência na formação de críticos, roteiristas e professores de cinema. Você pertence a uma geração que freqüentou os cineclubes de Belo Horizonte. Adquiriu alguma experiência ou aprendizado nesses espaços?
HR:
Freqüentei muitas sessões promovidas pelo Cineclube Universitário, que ajudei a organizar e divulgar, e também do CEC. Nestes cineclubes assisti clássicos do cinema mundial e muitos filmes brasileiros, em especial do Cinema Novo, que me encantavam.


Os cineclubes mudaram minha relação com o cinema, foram portas que me permitiram "entrar" nos filmes, ter informações sobre eles e olhar crítico, desconstruí-los. Foram um ótimo caminho para o cinema.


DM: Você aplica de alguma forma os conhecimentos adquiridos no seu curso de Psicologia pela PUC Minas no seu trabalho de direção e produção?
HR:
Com certeza. Nunca exerci profissionalmente a Psicologia, antes de me formar eu já sabia que isso ia acontecer. Mas o que aprendi me ajuda a viver e a me relacionar com as pessoas. Fazer cinema é trabalhar em grupo, é se relacionar com muita gente, com pessoas diferentes. Quando estou filmando, ao mesmo tempo em que dirijo atores, pessoas de muita sensibilidade, dirijo também uma equipe muito diversificada de profissionais, que tem gente simples, e até iniciantes, ao lado de profissionais experientes e sofisticados. É preciso muita psicologia para dirigir bem um conjunto de pessoas tão diferentes.


DM: Em 1986, lançou seu primeiro filme, A dança dos bonecos, e desde então vem firmando seu estilo no cinema brasileiro. Existe algum cineasta que foi influência e referência no princípio de sua carreira?
HR:
Acho que todos os filmes que vi me influenciaram. E sempre vi de tudo, cinema brasileiro, cinema autoral europeu, principalmente o francês, cinema americano, asiático, latino, de tudo. De cada filme que vejo, alguma coisa fica. Um movimento de câmera, uma sacada de roteiro, um plano, o momento de um ator, uma sequência... Quando crio uma sequência para um filme meu, quando planejo os planos com que vou contar um capítulo dessa história, minha escolha sobre onde colocar a câmera ou como orientar os atores traz também o que aprendi vendo todos estes filmes. Mas se aprendo com tudo que vejo, os filmes de diretores como Kubrick, Hitchcock, Billy Wilder, Clint Eastwood, Polansky, Almodovar, para citar apenas alguns, me interessam mais.


DM: Seus filmes estão entre os nacionais mais premiados mundialmente. O que significa para você levar o cinema mineiro para outros países? E em Minas, como você avalia a aceitação de seus filmes pelo público mineiro?
HR:
Mais do que levar o cinema mineiro, me sinto levando um pouco da nossa cultura, da gente que vive em um certo pedaço do mundo que fica no Brasil. Sem provincianismo mas com caráter, com DOC, como os bons vinhos que expressam de onde vieram no sabor e no rótulo. Nossa cultura é muito rica, simples e sofisticada ao mesmo tempo. Meus filmes são aceitos com carinho pelo público mineiro. As pessoas vão assisti-los e me abordam muito pra comentar, e eu gosto bastante dessa troca. Sinto meu trabalho muito bem acolhido por meus conterrâneos.


DM: Acredita que o cinema brasileiro tem vivido bons tempos e conquistado o público nacional?
HR:
O cinema brasileiro vive um bom momento em termos de produção, nossos filmes têm um nível técnico e artístico muito alto. Mas se a produção vai bem, o mesmo não acontece com a produção e distribuição de filmes nacionais. Temos poucas salas de cinema no Brasil, em torno de 2 mil salas, e o circuito é quase totalmente voltado para o cinema norte-americano. O ingresso é caro e não temos salas populares, o que impossibilita a freqüência ao cinema da maior parte da população. Os filmes brasileiros são estrangeiros em nosso próprio país, têm muita dificuldade em chegar ao público. Nesse momento em especial, a bilheteria dos filmes brasileiros caiu muito, hoje ocupamos apenas 6% do nosso próprio mercado, o restante está nas mãos do cinema norte-americano.


DM: Qual a receita para quem deseja seguir carreira de cineasta em Minas Gerais?
HR:
A democratização e descentralização dos editais de apoio à produção cinematográfica das empresas estatais permitiram o surgimento de talentos em todo o Brasil e não somente no eixo Rio - SP. Quem quer fazer cinema hoje, tem a possibilidade maravilhosa de se exercitar com câmeras digitais de baixo custo e ótima imagem. Além disso, deve conhecer as leis de incentivo da sua cidade, do Estado e do país e deve saber formatar bem seus projetos. Mas acima de tudo é preciso muita paixão.


DM: Treze anos após dirigir o filme infantil "Menino Maluquinho", você volta a produzir para crianças no filme Pequenas Historias. Existe carência em relação a filmes infantis que mostram a cultura de Minas Gerais? Como é adaptar lendas como a Iara e Procissão das Almas, para uma linguagem contemporânea e voltada para crianças?
HR:
Existe uma carência brutal de filmes infantis no Brasil. Produzimos muito pouco para este público, em toda a história do cinema brasileiro, foram produzidos em torno de 80 filmes para crianças ou para a família. Se você pensar que em torno de 40 destes filmes são dos Trapalhões e 20 da Xuxa, a produção independente é mínima. O imaginário de nossas crianças é totalmente ocupado pela produção norte-americana, por filmes impregnados da cultura deles. Nada contra, desde que nossas crianças possam curtir histórias da sua terra nas telas do cinema. Mas isso não vem acontecendo. Para formar público para nosso cinema é preciso acostumar as crianças a verem, desde pequenas, histórias brasileiras nas telas.


Meu filme Pequenas Histórias é um filme moderno, dirigido às crianças de hoje. As boas histórias quase sempre são atemporais, podem interessar a crianças de qualquer época, o que importa é a forma com que você conta estas histórias. Em Pequenas histórias resolvi juntar nossa tradição oral de contar histórias, muito mineira, com a moderna linguagem do audiovisual, com efeitos especiais, e o resultado é fantástico. Meninos e meninas se divertem muito, é um filme que provoca um leque muito grande de emoções.


DM: Quais clássicos do cinema mineiro você recomenda como indispensável para os nossos internautas?
HR:
Sugiro que vejam os filmes de Humberto Mauro, são todos interessantes.
De um diretor mineiro, recente, que continua filmando, Carlos Prates Correa, indico '‘Cabaré Mineiro" e "Noites do Sertão", dois ótimos filmes.

 

Enviar link

Outras entrevistas