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Rafael Grimaldi - Março 2008

  • Belo Horizonte - Maestro Rafael Grimaldi - Junia Teixeira


A importância da música colonial mineira é que esse é o último repertório inédito do ocidente. Maestro Rafael Grimaldi


Por Junia Teixeira


Portal Descubraminas - O senhor já esteve à frente de diversos corais como Sesiminas, Correios, Associação dos Funcionários do Banco do Brasil e, hoje, o Ars Nova. Os festivais de corais, que têm acontecido em Belo Horizonte, são um incentivo para a arte do canto coral. O senhor tem percebido resultados destes festivais, como a criação de novos coros ou o interesse de pessoas em participar de corais?
Rafael Grimaldi -
Certamente que os festivais têm o mérito de fazer a divulgação da música coral, mas não percebo, em minha vida prática, um resultado no sentido de que pessoas se interessem mais pelo canto coral devido os festivais. As pessoas vêm para os corais porque querem e gostam de cantar.


PD - O senhor foi aluno da UFMG e de Guerra-Peixe, um dos grandes compositores da música brasileira. O que de mais significativo dos ensinamentos desse músico ou de sua personalidade permanecem e influenciam em sua carreira?
RG -
Guerra-Peixe era um homem encantador e de uma inteligência muitas vezes não perceptível à primeira vista. Ele era despojado, gostava de pimenta, farinha e cachaça, mas um homem muito sofisticado. Grandes composições do século 20 são do maestro Guerra-Peixe. Ele era muito amigo de seus alunos, lutava por eles e abria o espaço.


Os conhecimentos técnicos e as conversas nas aulas de composição e orquestração eram excelentes e, além disso, o maestro tinha histórias muito agradáveis. Trabalhou na Rádio Nacional, no Rio de Janeiro e conviveu com músicos populares importantes como Elis Regina, Ary Barroso e outros artistas. Nestas histórias, Guerra-Peixe contava que se a rádio o comunicava que tal pessoa iria cantar naquele dia, era necessário fazer um arranjo direto para a pessoa cantar. E o contato com essa prática foi muito importante, pois nós, alunos, acabamos conhecendo um mundo que não é mais o nosso. Não é nem melhor, nem pior, mas diferente. Ter contato com outras realidades é muito rico. Essa foi a grande lição de Guerra-Peixe.


PD - Como foi assumir a regência deste coral premiado, reconhecido nacionalmente e internacionalmente, com importantes apresentações, e que esteve sob a batuta do maestro Carlos Alberto por mais de 40 anos?
RG -
Dos 40 anos que Carlos Alberto trabalhou no coro, eu estive com ele quase 30, o que é bastante tempo. Éramos amigos há bastante tempo. Carlos Alberto Pinto Fonseca foi um grande músico, um regente estupendo. Ele fez um trabalho digno de nota. Mas a responsabilidade é uma coisa sempre um tanto pesada. Ao mesmo tempo em que se respeitam algumas coisas, que aconteciam numa determinada época, e não acontece mais em outras é preciso mudar. Mas é sempre prazeroso, é o lugar onde eu sempre trabalhei. Carlos Alberto a gente não substitui, mas continua o trabalho.


PD - O coral Ars Nova já gravou dois discos. Quais os projetos que o coral tem desenvolvido atualmente?
RG -
O coro já gravou vários discos e, agora, estamos em busca de patrocínio, com um projeto aprovado, de execução e divulgação de música mineira do período colonial. Existiram diversos compositores, mas estamos mais focados no maestro Manuel Dias de Oliveira, tanto na parte de execução e divulgação, através de vídeo-clipes e concertos em igrejas coloniais. Queremos contextualizar novamente essa música colonial mineira, que é uma das coisas mais ricas que o Brasil produziu culturalmente e é um repertório inédito da produção musical do ocidente.


Queremos colocar o repertório dentro das igrejas não mais como música ritual, mas como concerto e possibilitar às pessoas a escuta dessas músicas dentro da acústica para a qual elas foram feitas, que é muito diferente. A música mineira colonial não precisa de um complemento. Ela é interessante em qualquer sala de concerto. Mas, já que nós estamos perto das igrejas, como Sabará, por exemplo, podemos aproveitar as possibilidades. Ainda nesse projeto queremos publicar, junto com as partituras, edições críticas das partituras.


PD - Qual a importância de um coral trabalhar com um repertório composto de música colonial mineira? Quais as adaptações foram necessárias para a execução dessas músicas, uma vez que existe uma distância de mais de dois séculos?
RG -
É um assunto complexo e é justamente o trabalho que querermos desenvolver. Houve e há certo desdém de uma parte da classe musical - regentes e cantores - sobre a música colonial mineira. É algo de pasmar, pois há muita pesquisa sobre essa música. A Universidade de São Paulo (USP) realiza importantes pesquisas, Minas também, porém em menor quantidade. O resultado das pesquisas percorre caminhos como Inglaterra, Suíça e Bélgica que são centros de execução de música antiga - música feita antes do período clássico. Eles levam esse repertório para lá porque, aqui, não se encontra executantes.


Uma parte da dificuldade de se conseguir execução em Minas deve-se ao fato de que a maioria do repertório exige instrumentação específica, como uma orquestra napolitana: com dois violinos e contínuo ou uma orquestra clássica: com trompas flautas e as demais instrumentações, além do órgão ou cravo. A importância da música colonial mineira é que, esse, é o último repertório inédito do ocidente.


Na Alemanha, em 1847, o compositor Mendelsohn descobriu a composição "Paixão Segundo São Mateus", de Bach, e levantou este músico do esquecimento. Não estou comparando Bach com mais nada. Só estou dizendo que é muito semelhante o fato de que a música colonial mineira, aqui do nosso meio, está esquecida como Bach esteve. E, ao levantar essa música, o desdém continua o mesmo.


O desdém esta em afirmações que já ouvi, como: "não há nenhum Beethoven", "não há nenhum Mozart". Realmente. Mozart nasceu na Áustria e é único. A música colonial mineira é de um tempo muito anterior a Beethoven e a Mozart. O compositor Manuel Dias de Oliveira, que vamos cantar, é bem anterior a Mozart. Manuel Dias de Oliveira nasceu em 1735 e Mozart em 1756.


As pessoas precisam perceber a importância cultural da música colonial mineira e a significativa identidade que temos com este repertório. É uma música que lança mais uma vez em dúvida a conceituação do que vem a ser música erudita e música popular. Não podemos dizer que a música colonial mineira é um concerto de música erudita, mas de música religiosa. Obviamente ela não é uma música popular, mas é uma música que o povo ouvia e ainda ouve em cidades como Tiradentes, Mariana, São João del-Rei. É a cultura popular no sentido que somos, todos, povo. Não é o mesmo conceito de música popular como Chorinho, Samba, mas a música colonial mineira não deixa de seu um tipo de música popular.


PD - Qual é o público que freqüenta as apresentações do Ars Nova? A música erudita, de concerto continua restrita a poucos ou tem ampliado o número de seus apreciadores?
RG -
A questão, hoje, de repertório de música erudita ou popular é a questão de divulgação. Uma coisa que os músicos precisam aprender é procurar os veículos de comunicação para divulgar suas apresentações. O que não é divulgado pela mídia sofre um problema sério. Sempre que há a divulgação de um concerto há público, como na apresentação que fizemos há dois anos atrás: "Matinas e Encomendação de Defuntos", do padre Zé Maurício, feita pela primeira vez em BH e muito bem anunciada pela mídia. A igreja São José ficou lotada. As pessoas sempre vão.


Escolher a priori o que o público quer ouvir é uma ignorância e uma irrealidade enorme. Alguns dizem que vão levar para o público o que o público quer ouvir. Mas onde está escrito o que o público quer ouvir? Quem foi que disse? Certamente quando há divulgação e acesso, as pessoas comparecem aos concertos e gostam. É um tipo de música que tem a capacidade de se entranhar.


PD - No mês de fevereiro aconteceram as inscrições para o coral. Qual deve ser o perfil de um músico que queira fazer parte do Ars Nova?
RG -
Acaba existindo. Não como política administrativa de empresa. É um perfil enevoado, meio fora de foco. É claro que a pessoa precisa ser afinada, deve gostar do repertório e precisa ter competência para aprender o repertório, que não é fácil. As peças são grandes e no momento não estamos sequer trabalhando música colonial, e sim Palestrina. Somente este é o perfil. Já, fato de ser solista implica outras questões mais complexas. Vozes bonitas existem várias, mas um tipo de sonoridade, de cor de voz, que o regente e a direção artística esperam, acaba se tornando opção e o perfil vocal. Há um perfil musical e também determinados tipos de comportamento em grupo que podem ser fator desagregador. Mas os perfis são difusos.


PD - Quais compositores de música colonial mineira ou peças musicais o senhor indicaria para nossos internautas que desejem conhecer e apreciar esta escola musical?
RG -
A escola da música colonial mineira tem um período muito grande, pois inclui uma parte do século XIX, até mais ou menos o compositor Carlos Gomes, cujo pai pertenceu a essa tradição da música religiosa mineira e brasileira.


Há o site do Museu da Música de Mariana, www.mmmariana.com.br, que disponibiliza música antiga brasileira e nesse site é possível encomendar os discos, que correspondem a praticamente a 4% do acervo do Museu. Há o disco do Ars Nova, que pode ser adquirido no Conservatório de Música da UFMG, que se chama "Mestres da Música Colonial Mineira" e os discos do Festival de Música Antiga de Juiz de Fora.


Quanto a uma peça específica, procurem escutar, com toda força, o Magnificat, de Manuel Dias de Oliveira. É uma das coisas mais bonitas que a humanidade já produziu. E não falo isso apenas por paixão. Basta escutar para perceber que é uma maravilha.

 

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