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Bartolomeu Queirós - Janeiro 2008

  • Escritor Bartolomeu Queiróz - Junia Teixeira

Infância e fantasia sempre estiveram intimamente ligadas. Nas obras de Bartolomeu Campos de Queirós, a infância em Minas é retratada de maneira simples, mas que traz, para cada um de nós, um lampejo da criança que fomos um dia, brincando com batatas e chuchus nas cidades do interior ou inventando uma aventura na cidade grande. O autor deixa o recado de que, o mais importante, é sonhar, não importando a época em que se vive ou a idade.


Por Janaina Oliveira


Portal Descubraminas - O livro "Indez" procede a um minucioso inventário da cultura do interior de Minas Gerais e conquistou o premio do Concurso Internacional de Literatura Infanto-Juvenil. De onde veio a idéia para o livro?
Bartolomeu Queirós -
O "Indez" é parte de uma trilogia que eu falo da minha infância, que eu não entro no campo da ficção, da fantasia. O Indez é o livro em que falo sobre todos os hábitos, o comportamento, da religiosidade da minha família. Eu sou do interior de Minas, de Papagaio, então faço este levantamento.


PD - Em 1974 publicou seu primeiro livro, O peixe e o pássaro, e desde então vem firmando seu estilo de escrita como uma prosa poética da mais alta qualidade? Quais autores o influenciaram princípio da carreira?
BQ -
Toda vida, eu sempre fui um bom leitor. Leio tudo. Essa prosa poética que a crítica me confere esse tipo de estilo, é a ligação muito estreita que tenho com a poesia. Sou um bom leitor de poesia, toda vida fui muito influenciado por poetas brasileiros e também estrangeiros: em geral, pela Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Henriqueta Lisboa e também pela poesia internacional. Leio muito García Lorca, Fernando Pessoa... Essa minha ligação muito diária com a poesia, com a leitura da poesia é que talvez me leve a fazer essa prosa poética. Mas o escritor que mais gosto, a quem mais recorro, não é um poeta, é o filósofo francês Albert Camus.


PD - De que você mais sente saudades de Papagaio, sua terra natal?
BQ -
Não sinto saudades. Sinto saudades do mundo que eu não conheci ainda. A vida é curta para conhecer tudo. Então vai ficar muita coisa sem ser vista e que eu não vou ver.


PD - Você disse que, quando visita um lugar, fica atento a cheiros, sabores e sentidos. Qual foi o cheiro, o sabor e o sentido mais marcante que conheceu?
BQ -
Sou muito observador. Sou muito atento a cor, a cheiro.. Tem cidades que cheiram melhor, por exemplo, Madri tem um verde que nunca vi entre outro lugar do mundo. Como sinto também que todos os shoppings do mundo têm o mesmo cheiro, cheiram a sabão. Tem cidades que têm uma certa luminosidade bonita, como é o caso de Belo Horizonte, que é a cidade que tem a luz mais bonita do Brasil. Tem lugares que tem um certo perfume, como a Bretanha, onde são plantados muitos campos de tulipas.


Tem uma cidade no Brasil que eu gosto muito, que é Belém. São muito acolhedores e acolhem muito mais depressa do que o mineiro. O mineiro demora muito a acolher. Às vezes, a gente vai embora sem ser acolhido. Belém não, são acolhedores e imediatos.


PD - Alguns de seus livros são para crianças, e estes livros são usados por professores como material de apoio ao aprendizado. Quando você escreve, pensa em como sua obra pode ser um instrumento para auxiliar na educação?
BQ -
Não. Quando você faz um texto literário, você tem compromisso apenas com a beleza. Não tem compromisso com a verdade, nem com a mentira, nem com o real, nem com o imaginário. Tem o compromisso apenas de fazer um texto bonito. Nós, que trabalhamos com arte, acreditamos que a beleza é fundamental, que ela move as pessoas, é capaz de arrastar... Ela é movedora por si só. Se meu texto tivesse a preocupação de ensinar alguma coisa ele não seria literário, ele seria didático. A didática tem a preocupação de ensinar, o texto literário quer só que o leitor admire as coisas, aprenda nada.


O mais difícil em escrever é ter uma idéia e achar a primeira frase. É ela quem dá o tom de como vai ser o resto do texto. Às vezes demoro muito para encontra ro tom de como vai ser aquele texto. Eu não acredito muito em inspiração. Acredito em trabalho, muito trabalho. Escrever, reescrever, sempre. Como disse um pensador: o escritor não termina um texto, ele o abandona. Se eu ler um texto novamente, eu volto a modificar. Depois que você encontra uma idéia, você vai pesquisando, vai se encantando, e a palavra vai se escrevendo em você também. Ou às vezes, não, você parte de uma palavra. E ela é suficiente para um texto. Às vezes, eu brinco com uma palavra. E a própria palavra vai conduzindo o texto, isso é muito normal acontecer comigo . Sou muito atento ao que está escondido dentro da palavra. Tem umas palavras que são ricas, outras são mais pobres...


PD - Um aspecto de seus livros é remeter o leitor a um mundo fantasioso, de faz-de-conta. Você acredita que, as crianças, principalmente, estão sonhando menos e preocupando-se mais cedo com alguns problemas que só deveria os afligir em idade mais avançada?
BQ -
Eu acho que, na medida em que o mundo nos incomoda, é que a imaginação floresce. Se você não está satisfeito com o que está em torno, com esse real que cerca você, é que começa a pensar como deveria ser. Acho que hoje se imagina mais do que se imaginou anteriormente. A insatisfação que nos cerca hoje, o mundo contemporâneo, ela é muito grande. È um mundo muito propício à fantasia, à imaginação. As crianças gostam do imaginário, gostam de pensar as coisas de uma forma ainda não acontecida. Então, eu vejo que não, as crianças dialogam bem com a fantasia. As crianças continuam as mesmas, o mistério do mundo ainda não foi revelado.


O homem desde sempre, desde que nós povoamos o mundo, nossos problemas continuam os mesmos. Eu posso ter um computador muito bom, mas quando estou triste, não tem um botão que apague minha tristeza. Quando eu tenho medo da morte, o computador não me dá um botão para apagar este medo. Se eu acho o mundo pesado, o computador não tem um botão que me ajude a sair dessa. Os nossos problemas do medo, da angústia, do luto, eles são antigos, eles vão perdurar sempre. Não tem jeito, os nossos problemas são os mesmos de sempre.


PD - Você já foi presidente da Fundação Clóvis Salgado, trabalhou em diversos projetos nas áreas de educação e cultura. Como você vê hoje as políticas públicas para cultura e educação?
BQ -
Tenho trabalhado muito nos movimentos de leitura, na política do livro. Meu trabalho envolve muito seminário sobre leitura, sobre literatura. Acho que a gente está andando bem. Cada dia está se sentindo mais a necessidade de um país leitor. Há vários projetos que estão em andamento. Com relação à educação, ando meio distante dos projetos de educação. A educação é um apêndice da cultura. A escola é um apêndice da cultura, e a cultura é muito maior que a escola. Se a escola não recorre à cultura para poder estabelecer seu trabalho, ela não tem onde mais recorrer. Nós não estamos tão vinculados a educação à cultura. Cada uma acha que pode ir sozinha. A cultura vai sozinha, porque o homem sempre vai ser cultural. Mas não se faz escola sem cultura.


Tenho observado uma coisa, principalmente em Minas: a casa mais velha da cidade, todo mundo fala que vai fazer uma casa de cultura, como se a cultura fosse uma coisa velha, combinasse com aquela casa velha. Não dá conta de ver que um museu exige outros espaços, que uma biblioteca, um cinema exigem outros espaços, não. Casa velha serve pra fazer casa de cultura, a cultura, para nós, é uma coisa velha. A maioria do povo e a maioria dos políticos, principalmente, não está muito preocupado com isto. Eles acham que a cultura é uma coisa do passado. O conceito de cultura nosso é meio atrasado.


PD - Recomende sete clássicos da literatura mineira para os nossos internautas.
BQ -
"Adágio para o Silêncio", de Luís Giffoni, "O Vestido", de Carlos Herculano, "Pousada do Ser", de Henriqueta Lisboa, "O Pirotécnico Zacarias", de Murilo Rubião, "À Procura dos Motivos", de Osvaldo França Júnior, "Soltem os Cachorros", da Adélia Prado e "Contos Contidos", da Maria Lúcia Simões.

 

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