Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Macoud Patrocínio - Outubro 2006

  • Macoud Patrocínio - Divulgação

Uma história erguida pelo esforço de quem construiu um verdadeiro celeiro da cultura e das raízes mineiras! Assim podemos resumir a trajetória do Mercado Central de Belo Horizonte. A história do Mercado começou com a iniciativa do prefeito Cristiano Machado, que decidiu reunir os feirantes da Praça da Estação e da praça da atual Rodoviária num só lugar. Assim, no dia 07 de setembro de 1929, nascia o Mercado, que à época, recebeu o nome de Mercado Municipal.


Belo Horizonte crescia. A cidade planejada se expandia e o Mercado seguia em intensa atividade. Em 1964, o então prefeito da capital, Jorge Carone, resolveu vender o terreno do Mercado, alegando impossibilidade de administrá-lo. Foi então que surgiu a figura de um feirante: Olímpio Marteleto! Sua amizade com os administradores do Banco Mercantil do Brasil permitiu que o atual prédio do Mercado fosse construído no prazo determinado.


Toda garra, perseverança e fé daqueles que, junto ao Sr. Olímpio, conseguiram manter o Mercado funcionando, foi celebrada no último 07 de setembro, quando o Mercado Central comemorou 77 anos! E, à frente da administração desse colosso cultural está Macoud Patrocínio. Patrocínio preside a Associação do Mercado e sua história, também passa por aqueles corredores de aroma bucólico. Seu avô tinha uma barraca de hortifruti e, nos anos 40, mudou o ramo de atividade: abriu uma floricultura. O estabelecimento passou a ser administrado por seu pai e hoje, Patrocínio gerencia o negócio junto dele.


Por ter histórias tão peculiares e a mineiridade de nosso Estado sempre presente em cada estabelecimento, o Portal Descubraminas conversou com Macoud sobre o passado e atualidade desse lugar: referência turística de Belo Horizonte, onde a democracia cultural é o mote. Bem vindos ao Mercado Central!


Descubraminas: O Mercado Central é considerado um dos pontos de encontro mais tradicionais da capital. A sua história se confunde com a história de seus freqüentadores. Você, como um dos comerciantes, acredita que esta atmosfera é o diferencial do lugar?
Macoud Patrocínio:
Sim. Atualmente, este diferencial do Mercado é que dá a ele esse valor no cenário da capital mineira. Explico porquê: shopping, hoje, se tornou uma coisa muito popular, mas é algo ‘importado', não é nacional, não é mineiro. E, o Mercado Central, tem exatamente essa característica da regionalidade, dos produtos da terra e das pessoas da terra.


DM: Desde que os comerciantes construíram o prédio, em 1964, foi formada uma associação para administrar o Mercado Central. Quais os desafios de uma direção que é responsável por 400 lojas?
M.P.:
Os desafios começaram nessa construção. Naquele momento ele (o Mercado) era o grande centro abastecedor da capital. Nós tínhamos 5 anos para reformar o prédio depois da rematação. As pessoas (feirantes) eram humildes, não tinham dinheiro - vários deles tiveram de vender bens próprios: máquina de costura e coisas que faziam a vida deles andar normalmente. A partir de 1969, quando o prédio ficou definitivamente pronto, 15 dias antes do prazo determinado, não havia sido movida uma palha!


Foi aí que surgiu a pessoa do Sr. Olímpio Marteleto, que através da amizade com o pessoal da família Araújo, do banco Mercantil do Brasil, conseguiu quatro construtoras com financiamento do banco e em 15 dias eles fecharam o entorno. Então, nós íamos devolver à prefeitura um prédio que nós havíamos adquirido. Esse foi o maior desafio! De lá pra cá, o Mercado funciona com os recursos privados. Esse é outro grande desafio: todos os outros grandes mercados públicos, não conseguiram vingar no tempo.


O estacionamento foi o grande instrumento que levou o Mercado a ser reformado. Foi dele que surgiram os recursos para bancar as reformas e manter o Mercado bonito e agradável como ele é!


DM: Na década de 70 o setor de hortifrutigranjeiros representava 80% dos produtos comercializados. Hoje esse número foi reduzido a 10%. Qual foi o fator determinante para esta mudança?
M.P.:
Primeiro foi a mudança do hábito. Belo Horizonte na década de 70 estava um pouco além da Avenida do Contorno. De 70 pra cá, houve uma explosão demográfica na capital. Aquelas pessoas que moravam perto da Contorno tinham o hábito de vir se abastecer para o almoço no Mercado. Vinham comprar a alface, a cebolinha, a carne! Com o crescimento da capital, ninguém mais sai de Venda Nova, por exemplo, para vir comprar uma cebolinha na hora do almoço.


O tipo de produto modificou, o comércio modificou. Outros mercados, por serem públicos, não conseguiram vencer essa barreira! O poder público os limitou. Estão todos praticamente destinados ao fracasso - salvo o Mercado do Cruzeiro que ainda está funcionando. Os desafios são constantes, mas, a iniciativa privada tem uma força muito grande: se algo não está bom hoje, amanhã vamos ‘pular' pra outra alternativa.


Isso foi um grande modificador, e também, o surgimento dos sacolões e dos grandes supermercados. Isso mudou a característica de compra. A nossa linha de produto que era hortifrutigranjeira se mantém, mas, o perfil é diferente. Quem procura algo aqui, procura algo diferenciado, uma coisa que o supermercado não tem: o atendimento vip; o próprio dono do estabelecimento atendendendo; aquela verdura especial que o supermercado não tem ‘giro' para a venda. Tudo isso as pessoas encontram no Mercado - o condimento, a especiaria. O cliente vem à procura disso: algo que é comum, digamos assim, mas que você não acha em qualquer lugar! Este é o nosso diferencial! Hoje nosso perfil consiste em sermos especializados em atender bem e atender da forma que o mineiro faz - com carisma e atratividade.


DM: Uma das características do Mercado é a diversidade. Como é possível preservar a identidade regional com tantos produtos contemporâneos comercializados atualmente?
M.P.:
Nós fazemos um trabalho em função de preservar algumas coisas que são do estilo do povo mineiro. Há pouco tempo, nós tivemos um problema com o Queijo Canastra. O Canastra tem um tipo de maturação diferenciada: ele deve ser curtido ao ar livre, não pode ser fechado. Se tapar, muda a característica de composição do queijo. Então, houve um acordo entre os produtores, o Mercado Central (através da administração e dos lojistas) e a fiscalização sanitária para a chegarmos à melhor forma de conservação do Canastra dentro do Mercado. O Canastra tornou-se Patrimônio Imaterial, então sua característica de produção não pode ser mudada.


Outro item: lingüiça pendurada no balcão - a fiscalização não queria mais que ela fosse pendurada. Mas, existe algo mais tradicional que lingüiça pendurada no balcão de um mercado?! Outra característica muito tradicional: o feijão vendido no graneleiro. Você chega a qualquer supermercado e encontra o feijão embaladinho. Não há como escolher. Aqui, não! Você separa! Isso é regionalidade! A forma da carne de sol do norte de Minas é diferente. Aqui no Mercado você acha a carne da região. Nós procuramos manter ao máximo, e os lojistas também, a característica do produto mineiro. E de outros produtos também, como por exemplo, o leite de dendê: ele é comercializado da mesma maneira como é vendido na Bahia. Isso tudo preserva as qualidades de cada região.


Um fato que nos preocupa é a comercialização de animais. Ela é uma tradição no Mercado. Várias e várias pessoas vêm no final de semana para comprar um frango caipira e fazê-lo no domingo. Isso é uma coisa do mineiro: comer frango ao molho pardo no domingo é super tradicional! Tudo isso nós preservamos e temos interesse em preservar. Mas tem o outro lado da modernidade que temos de acompanhar - o Mercado possui dois elevadores, piso novo, segurança, câmeras. O Mercado hoje é um lugar considerado seguro. Em dezembro último, nós tivemos aqui 1,106 milhão de visitantes e nenhum incidente envolvendo polícia. Isso mostra que a segurança e a tecnologia tem de estar presentes. Acho que temos de associar. Logicamente, algumas coisas perdem um pouco a característica, mas nós temos de chegar a outros tempos. Temos de trabalhar para agradar a todos e satisfazer nossos clientes dentro das melhores condições.


DM: Os setores comerciais se expandiram. O Mercado conta com uma agência de viagens e uma casa de câmbio. Este é um indício de que o Mercado Central é uma das principais referências do turismo de Belo Horizonte?
M.P.:
Eu não tenho a menor dúvida que, como referência de turismo, ele é o ponto mais importante. Haja vista que na eleição de 1999, realizada pela Belotur, o Mercado Central foi eleito o ponto mais conhecido dos belo-horizontinos e região metropolitana. Essa característica de ter a agência de viagens e esta oferecer o câmbio, realmente foi uma inovação. Mas antes dela, teve o posto da Belotur: isso foi mais do que um reconhecimento de que o Mercado se despontou como referência de turismo.


Um caso a citar: num domingo do ano passado, duas turistas mexicanas chegaram em Belo Horizonte, foram direto à região da Pampulha e tentaram uma informação turística por lá, mas não conseguiram. Até que alguém chegou e falou: ‘vão ao Mercado Central porque lá tem um posto de informação'. O posto daqui funciona de domingo a domingo. Esse fato foi matéria do caderno de turismo do jornal Estado de Minas. Isso mostra que o Mercado realmente se tornou uma referência.


DM: Qual é o setor mais visitado do Mercado Central?
M.P.:
Nós realizamos uma pesquisa com um de nossos parceiros, a Universidade Estácio de Sá. A equipe da Estácio vem fazendo um acompanhamento de vários tópicos. Dentre eles, o tipo de ramo de atividade. Hoje, o ramo mais procurado do Mercado é o ramo de gastronomia - os bares. Eles correspondem à cerca de 40% da preferência dos entrevistados. Em seguida vem "queijos/laticínios". Esses são os pontos mais procurados aqui.


DM: São registrados, diariamente, 28 mil visitantes. Como é feita tal pesquisa quantitativa? Há algum procedimento para avaliar estatisticamente a entrada de turistas no Mercado?
M.P.:
Sempre se especulava em relação ao número de pessoas que vêm ao Mercado. Era uma mera especulação: falava-se em 15 mil durante a semana e 25 mil no final de semana. Numa reunião da nossa diretoria, foi sugerido comprar contadores, manuais. Daí pegamos nossos próprios porteiros e passamos a contar. No primeiro dia, achamos que eles fizeram serviço errado - ficamos desconfiados, mas o resultado se repetia dia após dia e completamos um ano fazendo a pesquisa. Não é possível que um ano de pesquisa iria maquiar esse montante de 15 e 25 mil pessoas. Nós achamos que há uma diferença de 10% para mais ou para menos, o que é estatisticamente correto, mas o número é bem preciso.


Fizemos o quantitativo de pessoas. A Estácio de Sá fez o quantitativo de turistas. O quantitativo de turistas é muito relativo - se pegarmos o turista externo, ele tem uma baixa penetração. Se pegarmos o turista regional, ele já tem uma penetração grande. E ainda, o turista da região metropolitana: encontramos uma penetração completamente diferente. Mas o fluxo principal, ainda é o povo de Belo Horizonte.


DM: Existe algum programa de capacitação, para que os funcionários do Mercado Central estejam preparados para receber os turistas?
M.P.:
Nós temos no posto da Belotur estagiárias capacitadas para receber os turistas com informações em três idiomas; temos outras duas estagiárias que acompanham estudantes. Quando chega um grupo de turistas que procuram a administração e vem um grupo mapeado, eles assistem um vídeo e são passadas todas as informações sobre o Mercado. Quando o turista vem sozinho e não se comunica com a administração, não temos o controle; a não ser que ele se identifique.


Temos ainda o projeto "Consumidor de Futuro" que consiste em grupos escolares que visitam o Mercado. Todo princípio de semestre enviamos correspondência, convidando as escolas a nos fazer uma visita, sem ônus para a instituição de ensino.


Faz 5 anos que a equipe da Estácio de Sá faz esse acompanhamento. As crianças do projeto "Consumidor de Futuro", são acompanhadas, recebem uma bandeirinha e o folder do Mercado, e ainda, assistem á exibição do vídeo institucional.


DM: A maneira peculiar de atendimento, dos comerciantes, é outro atrativo do Mercado. Esta receptividade coletiva é uma "norma" da administração ou cada comerciante tem seu próprio jeito de cativar o consumidor?
M.P.:
Isso é natural do povo mineiro! O povo mineiro gosta de tratar bem. Se você precisa de uma informação, o mineiro gosta de dar! Aqui no Mercado temos essa característica. Nós somos formados por pessoas de várias regiões de Minas Gerais. Cada um trouxe um pouquinho da sua cultura e anexou ao Mercado. A administração só intervém no aspecto de fazer uma negociação quando há alguma divergência. Fora isso a receptividade é natural.


Numa determinada época, nós começamos a tentar modificar um hábito que algumas pessoas tinham: o de mexer com as mulheres! Este hábito desagradava profundamente à administração. Na década de 70, as mulheres vinham pouco ao Mercado. Isso mudou! Hoje, elas vêm com freqüência. O que acontecia: as pessoas mexiam e afugentavam as mulheres. Elas ficavam com medo! Nós trabalhamos isso durante anos. Hoje não existe mais este hábito entre os lojistas.


DM: São 77 anos de história. O esforço e a luta em preservar este ícone da cultura de Minas é um mérito dos próprios comerciantes. O que esta conquista representa para a nova geração de lojistas do Mercado Central?
M.P.:
Quando eu cheguei à diretoria, realmente, cheguei em novos tempos - o Sr. Olímpio é uma pessoa que prezamos demais, e que ficou na administração durante 30 anos. 90% das reformas acontecidas aqui, surgiram das mãos dele. É uma responsabilidade muito grande para os novos administradores, porque tivemos uma cultura muito forte. Nós tivemos uma representatividade muito forte. Converse com qualquer pessoa de Belo Horizonte, hoje, que tenha o hábito de vir ao Mercado, e comente sobre a pessoa de Olímpio Marteleto: todo mundo o conhece. Ele se tornou a referência. Então a nossa responsabilidade de manter e melhorar é muito grande, pois ele conseguiu fazer, de uma obra que era praticamente perdida para prefeitura, um lugar de sucesso! E um dos poucos do Brasil que é privado.


O sucesso daqui ultrapassou as fronteiras de Minas Gerais. Nós já tivemos aqui embaixadores de diversos países. Em abril, durante a reunião do BID, veio o Cônsul de Honduras e vários representantes de fora. E por que eles vieram aqui? Por causa do trabalho de um homem chamado Olímpio Marteleto! Ele plantou a semente. Nós, novos administradores, temos de regar! Essa cultura que estamos marcando tem de ser preservada.


Quando realizamos a troca do piso, muitos queriam granito. Mas granito não é a cara do Mercado! E o piso ficou assim: não é totalmente rústico, mas também não é ultra-moderno. Apesar de que, este piso que instalamos, foi usado nas Olimpíadas de 2004, em Atenas, para as piscinas do evento e é o mesmo usado na Praça do Papa há 20 anos. Este piso tem uma característica que é a cara do Mercado. O elevador ficou moderno, mas elevador já é algo moderno. Tudo isso é uma grande responsabilidade e os lojistas sabem disso. A gente luta e procura fazer com que o Mercado permaneça com as mesmas características do nosso povo.


Não é fácil, mas a nossa responsabilidade de manter e não transformá-lo num shopping - ele sendo um mercado e tendo a cultura de um mercado -, é o que interessa pra gente. Nós não queremos ser um shopping para que, amanhã, as crianças cheguem aqui e digam: ‘nossa! É igual um shopping.' Nós queremos é que as gerações futuras cheguem e falem que aqui é diferente, que aqui encontra-se queijo; que aqui tem-se animais vivos para comprar; tem uma fruta; tem um condimento. Mas também tem sandálias Havaianas, um salão de beleza que é de primeira linha, com produtos vendidos para todos os grandes salões de Belo Horizonte, sendo ainda, o maior representante e vendedor da Loreal de Paris da capital.


Essa é uma de nossas principais características - ter coisas modernas para atender o público moderno, mas também ter as coisas simples e singelas do povo mineiro!



Enviar link

Outras entrevistas