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Adriana e Beatriz Apocalypse - Junho 2006

De Charles Perrault a contos populares. Tudo é permitido quando marionetes estão à frente do enredo. O Giramundo, há mais de três décadas explora, de maneira sutil, a imaginação do público, seja no Brasil ou no exterior. Esta entrevista é um convite ao fascinante universo do Giramundo e seus enigmáticos bonecos.


DM: O Giramundo tem 36 anos de sucesso. Sua trajetória é marcada por vários prêmios nacionais e internacionais e reconhecidas peças. Como foi o início dessa jornada?
B.A.
O Giramundo começou em 1969, quando dois professores da Universidade Federal (Álvaro Apocalypse e Teresinha Veloso) foram para a França participar de um concurso para atividades artísticas. Nesta oportunidade, eles tiveram contato com vários grupos franceses de teatro de bonecos. No Brasil, a idéia ainda não era difundida, mas, na França, era muito comum encontrar esses grupos na rua, nos trens. O teatro de bonecos era uma forma que os franceses usavam para fazer críticas à política. O Álvaro e a Teresinha trouxeram a idéia para o Brasil e se juntaram à Madu (Maria do Carmo Vivacqua Martins). O começo foi como uma brincadeira - as apresentações eram feitas para a família. Depois, eles começaram a se apresentar no Parque Municipal de Belo Horizonte, com o espetáculo "A Bela Adormecida", de Charles Perrault. De lá, eles seguiram com a peça para o Teatro Marília e foi neste teatro a primeira apresentação do Giramundo.


DM: O grupo sempre participou de diversos festivais. Dentre tantos eventos há também participações em solenidades e incursões no cinema. Conte um pouco dessa experiência do Giramundo na sétima arte.
B.A.
O primeiro filme que participamos foi "A Dança dos Bonecos", em 1984/85. Esta primeira participação foi muito positiva, mas muito trabalhosa. Tivemos de construir vários tipos de manipulação - eram três personagens, mas eram vários os tipos de manipulação de cada um. A segunda vez que participamos de um projeto cinematográfico foi no filme "Castelo Rá-tim-bum", em que fizemos duas personagens: "Dr. Vítor" e "Morgana". Foi extremamente positivo entrar em contato com esse mundo do cinema, pois possibilitou contatos com vários atores e diretores. Foi uma forma de acompanharmos a maneira de trabalho deles: as gruas, as roldanas, as técnicas de filmagem. Isso abriu caminho para que o Giramundo pudesse investir em animação. Nós esperamos fazer ainda várias participações no cinema. Eu acho que combina muito bem o jeito artesanal do boneco com o cinema.


DM: O Giramundo preserva a produção de seus bonecos de forma artesanal. Como o Grupo interage com a tecnologia em seus trabalhos?
B.A.
Hoje em dia existem diversos mecanismos e materiais que melhoram o nosso trabalho. Tem muita coisa nova, que traz milhares de possibilidades a nível de mecanismo de bonecos. O Giramundo conta com um grupo de aproximadamente 15 pessoas muito criativas e que sempre propõem a utilização de novos materiais para a confecção. Nesta questão de mecanismos, o Giramundo nunca esteve tão bem, justamente porque, hoje, encontramos fios mais adequados, roldanas, madeiras excelentes, estamos abolindo o uso do isopor. Procuramos sempre renovar. O Grupo tem, atualmente, um setor de animação. Em nosso próximo espetáculo, vamos utilizar a técnica de manipulação junto à animação. Vamos interagir com o vídeo, mas conservando a tradição artesanal.


DM: Em junho acontece o 7º Festival Internacional de Teatro de Bonecos (FITB). O que representa para o Giramundo estar ao lado de grandes atrações internacionais como a companhia alemã Erfreuliches Theater Erfurt?

B.A.
É muito boa a iniciativa desses festivais porque fazemos novos contatos e podemos assistir aos espetáculos. Nós só lamentamos o fato de apresentarmos no FITB apenas uma peça, "A Bela Adormecida". Apesar de ser um belo espetáculo, nós queríamos ter feito mais. Mostrar o "Pinochio" e outros também. Mas é muito importante essa troca. Espero recebê-los (as companhias que participam do FITB) aqui no museu, fazer novos contatos e encontrar velhos amigos.


DM: O Ministério da Cultura instituiu 2006 como o ano nacional dos museus. O Giramundo participou, em maio, das comemorações da 4ª Semana Nacional de Museus. Você acredita que tais iniciativas contribuem para atrair mais visitantes?
A.A.
Creio que sim. Durante a Semana Nacional, as apresentações foram gratuitas, o que atrai um número maior de pessoas aos espetáculos. Recebemos a visitação de mineiros, de turistas de outros estados e também de estrangeiros.


DM: O Museu Giramundo está funcionando normalmente?

A.A.
O Museu Giramundo está funcionando normalmente. Nós trabalhamos com agendamento de visitas para escolas e grupos maiores. Os grupos percorrem o espaço do Museu e ao final, assistem ao vídeo de um espetáculo sobre a história do Grupo, desde 1970, ou seja, desde os primeiros bonecos. Mas a visitação não é só com agendamento, o Museu funciona de terça a sábado, de 9 às 17 horas.


DM: A entidade desenvolve projetos sociais como o Teatro Oficina de Bonecos (TOF). Como é feita a inserção dos jovens no TOF? Este é o único projeto social do Giramundo?
B.A.
O TOF começou há dois anos. Trata-se de uma parceria com a C&A. A turma atual foi selecionada na Pedreira Prado Lopes (bairro São Cristóvão, nordeste de Belo Horizonte). Este é o terceiro ano consecutivo dos meninos - eles passaram por um espetáculo em 2005: o espetáculo de sombra. Os meninos tiveram contato com a construção de boneco e material artesanal. Agora, no terceiro ano, eles estão tendo aula de "planejamento e projeto", aulas práticas na oficina e, para finalizar, estamos fazendo um espetáculo em conjunto sobre a vida de Lampião. Assim, eles vão aprender como se divide um texto, como é feita a adaptação para a montagem, como é a criação dos personagens, figurino, trilha sonora e gravação no teatro. Dessa maneira, eles terão contato com refletores, coxia, araras para guardar os bonecos. O pessoal vai apresentar o espetáculo e encerrar o curso com a formatura. A gente pretende abrir a próxima turma no segundo semestre deste ano, a partir de outubro. Vamos ter de realizar uma seleção porque existem várias pessoas que nos procuram para fazer a "Escola do Giramundo" e também porque ainda não temos infra-estrutura para atender um volume maior de alunos. Então, em setembro, já começam as inscrições para o processo de seleção.


Além do TOF, o Giramundo recebe várias escolas no Museu - eu acho muito importante esta questão da sociabilidade com as crianças, fazemos apresentações em algumas entidades, temos a escola, a oficina e apresentações pelo interior de Minas.


DM: As apresentações no interior do Estado, incluem as oficinas e espetáculos do Teatro Móvel. Conte sobre essa iniciativa itinerante do Giramundo.
B.A.
O Projeto Teatro Móvel já vinha acontecendo, não é a primeira vez. O grupo sempre teve vontade de levar o teatro de bonecos para lugares onde as pessoas não têm acesso e nem condições financeiras. Levamos um caminhão totalmente adaptado, que se transformou em palco, onde apresentamos a peça "A Bela Adormecida". Esta é uma remontagem da peça original de 1970, em que foram construídas réplicas porque os bonecos originais estão sendo preservados e expostos no Museu. Nós fazemos uma pré-seleção das cidades que recebem esse projeto. Depois, apresentamos para as prefeituras e patrocinadores, para a análise de viabilidade do Teatro Móvel nessas cidades. Antes das apresentações são oferecidas oficinas gratuitas para a comunidade, que têm de 5 a 6 dias de duração.


DM: O Giramundo se inspira no universo lúdico para criar suas peças, atraindo tanto o público infantil, quanto adulto, à seus espetáculos. A que vocês atribuem essa mistura de mundos que tanto encanta o público adulto?
B.A.
Acredito que seja a seleção que a gente faz, unindo bons textos a boas músicas. E também a manipulação dos bonecos, que envolve bons atores e bons marionetistas. Para selecionar um novo texto a gente faz uma pesquisa bastante intensa. O que sempre atrai nos espetáculos do Giramundo são os textos, às vezes desconhecidos, de alguns compositores. A qualidade da música foi um fator primordial para a escolha do texto de espetáculos como "Pedro e o Lobo", "O Carnaval dos Animais" e "Cobra Norato". A gente sempre procura conciliar bons autores com bons músicos.


É difícil colocarmos essa questão, se é para adulto ou para criança. Quando nós tínhamos o nosso teatro, iam cinco adultos acompanhando uma criança para assistir "A Bela Adormecida". Às vezes, num espetáculo ‘adulto', vão várias crianças, como no "Cobra Norato". A criança que vai assistir à uma peça como "Cobra Norato" não vai entender muito do poema, mas, com certeza, ela vai se deliciar com as imagens e peças. O teatro de bonecos trabalha muito a imaginação, tanto do adulto quanto da criança ou adolescente. Ao contrário do que muita gente pensa, a criança observa mais. Nós somos muito exigentes para fazer um espetáculo infantil, não porque o adulto vai assistir, mas porque as crianças são extremamente observadoras. Acho que os espetáculos do Giramundo são para todo mundo.


DM: Quais serão os próximos "giros" do Grupo?
B.A.
Vamos estrear "A Flauta Mágica", dia 4 de agosto, no Teatro Dom Silvério. Ainda no segundo semestre, teremos a estréia de "Lampião", com os meninos da Escola, temos a estréia do espetáculo "Vinte Mil Léguas Submarinas" e daremos continuidade ao projeto do livro "Manual do Marionetista".

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