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Rômulo Duque - Fevereiro 2006

  • Belo Horizonte - Rômulo Duque - Roberta Almeida

Rômulo Duque, presidente do SINPARC (Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais), entidade responsável pela Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, revelou ao Portal DescubraMinas as venturas de uma vida dedicada aos palcos.


DM: No início, a Campanha de Popularização era realizada pela APATEDEMG (Associação dos Produtores, Artistas e Técnicos de Minas Gerais). O que levou o SINPARC assumir tal responsabilidade?
R.D:
O projeto é de 72. Começou no Rio de Janeiro com o Serviço Nacional de Teatro. A partir de 73 expandiu para outros estados do país, incluindo Minas Gerais. O Ministério de Educação e Cultura, da época, através do Serviço Nacional de Teatro - órgão do Ministério -, realizava esse projeto e colocava as entidades como a APATEDEMG em Minas e a Associação dos Artistas do Rio de Janeiro, para cuidar da realização e organização do projeto. Com o afastamento do Governo Federal, o projeto passou a se chamar "Campanha das Kombis".


Antes, o Governo pagava um percentual sobre o valor do ingresso, ele dava toda a parte gráfica, a partir da "Campanha das Kombis", ele foi diminuindo a participação. Chegou num determinado momento, tal participação era tão pouca que alguns Estados deixaram de realizar o projeto. Nesse momento, por volta de 88/89, já tinha surgido em Belo Horizonte a AMPARC, que hoje é o SINPARC (Associação Mineira dos Produtores de Teatro). Essa associação resolveu, então, abraçar o projeto e não deixá-lo parar.


A partir daí, a AMPARC começou efetivamente a realizar o projeto, independente da participação do Governo Federal, Estadual ou Municipal. Nesse período, por alguns anos, a campanha foi feita com recursos dos próprios produtores. Quando chegou o Governo Collor, acabou o Ministério da Cultura que era algum tipo de apoio da época. Mesmo assim, os produtores foram bancando. Com o advento das leis de incentivo, a Associação começou a utilizar desses benefícios fiscais para investir no projeto. Ou seja, até a década de 80, o projeto era realizado pelo Governo com organização das entidades dos trabalhadores. No início dos anos 90, a Associação dos Produtores assume o projeto e vem tocando até hoje.



DM: Quais são as maiores dificuldades para a realização de um evento desse porte?
R.D.
A maior de todas é uma questão de nível nacional mas que em Minas Gerais é muito forte. Você está a todo ano começando do zero. Um projeto como esse, com 32 anos, com o sucesso que é, com a abrangência, com a inserção social que ele proporciona, com seu efeito multiplicador, isso tudo não basta. Nós temos que todo ano discutir com o Governo, dizer que é um projeto importante, que vale a pena apóia-lo. Nós temos de ir atrás dos patrocinadores que estão vinculados às leis de incentivo, então, o grande problema que eu vejo no projeto é que a Campanha deveria já estar incluída no orçamento do Estado, do município, da União, pois é um projeto que deu certo para a popularização da cultura nesse país. A maior dificuldade é não ter certeza que o projeto aconteça no ano seguinte. Já estamos com problemas para a 33ª edição.


DM: É fato que o evento se consolidou. Como foi esse caminho para chegar até a 32ª edição?

R.D.
Realmente não foi fácil. O único momento tranqüilo foi no primeiro ano no Rio de Janeiro, quando o pessoal viu que a idéia era boa. A partir daí, a luta foi constante. Inclusive, nos dez primeiros anos, nós tínhamos o complemento do valor do ingresso para o produtor: para cada R$1 que o produtor abria mão, o Governo dava R$1 de complemento. Quando o Governo se afastou, foi uma dificuldade, a AMPARC teve que assumir, não foi fácil num primeiro momento. Eu lembro de Campanhas que a gente teve de rachar o custo do material gráfico entre os produtores, assim mesmo, conseguindo apoio de gráficas que não cobravam o valor da mão-de-obra. O processo era muito complicado. A partir da 24ª edição, com as leis de incentivo, nós profissionalizamos o projeto: ele é feito com recurso suficiente para apresentar ao público um bom produto.


DM: Como é feito o planejamento para cada edição?

R.D.
Nosso grande desejo era que tivéssemos um único patrocinador para esse projeto. Durante esses anos, fomos consolidando parcerias importantes, desde a 24ª edição. Então não faz mais sentido, pois as empresas já estão envolvidas com a Campanha, tanto que o projeto faz parte das atividades com funcionários, com clientes.


Agora, o que acontece, é que estamos correndo o risco de perder algumas parcerias. Nós temos consolidados seis parceiros através de cotas, tanto nas leis federal, estadual e municipal. Mas esse ano, perdemos dois parceiros e corremos o risco de perder outros. Isso porque na lei estadual, a campanha sempre foi aprovada no valor máximo permitido que é R$300 mil. Esse valor era dividido em seis cotas de R$50 mil. Só que agora, temos patrocinadores que podem comportar uma cota maior, porém, temos menos recursos, já que a Secretaria Estadual aprovou R$200 mil para a próxima edição. Isso nos penaliza tanto em nível de patrocínio quanto em nível de expansão e melhoria do projeto.


DM: Qual será o maior desafio para a próxima edição?
R.D.
Vai ser, principalmente, superar essa questão da aprovação na lei estadual. Hoje o grande espírito da Campanha, além de ser um projeto de popularização, seria um projeto de intercambio da produção cultural do Estado como um todo. Nós pretendíamos fazer a Campanha de Popularização simultaneamente em oito regiões de Minas Gerais.


Já estamos na Zona da Mata e no Vale do Aço. A idéia era irmos para o Triângulo e para o norte de Minas. Mas como nos foi tirado R$100 mil, vai dificultar muito essa interiorização. E o pior: se não encontrarmos alternativas, provavelmente não faremos em Juiz de Fora, onde a Campanha já acontece pelo 6º ano e em Ipatinga, com a 3ª edição este ano. Nós corremos o risco de interromper um projeto que começa a consolidar fortemente, nessas duas regiões. Esse será, com certeza, o maior desafio para a 33ª edição: arrumar recursos para superar a retirada do Estado.


DM: Como é feita a seleção das peças? Participam somente montagens mineiras?
R.D.
O princípio é exatamente esse. O projeto é feito para a produção de Minas Gerais. Então, um item que consta no edital, é que o espetáculo tem que ser produzido em Minas Gerais, por produtor de Minas Gerais. Um outro critério que é relevante são as assembléias que realizamos todos os anos com os produtores para discutirmos a campanha seguinte. Isso serve para aprimorar o projeto do próximo ano e para discutir como entrar, como manter, como participar, etc. O básico de todos os anos é que o espetáculo tem que ser uma produção profissional, composta por artistas profissionais e que tenham estreado no ano anterior ao que vai acontecer o projeto.


DM: Fale um pouco da preferência do público mineiro pela comédia. É mesmo o gênero preferido dos mineiros?
R.D.
Eu acredito que seja o gênero preferido. Inclusive nós tivemos um projeto em Belo Horizonte, que se chamava "BH a Capital da Comédia". Sempre perguntam: porque o público só vai em comédia?. A Campanha mostra isso, ela mostra que há um universo de produção de comédia muito grande e o público adora! Mas a gente também percebe que isso não é um privilégio de Minas Gerais. É um privilégio do mundo! O mundo adora comédia. Não há um lugar no mundo onde o drama faça mais sucesso que a comédia. Se alguém souber, nós vamos lá! Mas, não existe.


O bom da Campanha é que ela é um projeto democrático: tem comédia, drama, clássico. Não se prende a uma determinada linha de montagem teatral, tem todos os gêneros. E dentro da Campanha, os espetáculos que não são comédia estão com casa lotada e fazendo sessão extra, isso é muito importante. Mas há uma preferência nítida para o gênero de comédia e a maioria dos produtores, como são profissionais, além da preocupação com a questão do teatro em si enquanto montagem, como estrutura de discussão, tem também essa questão do teatro enquanto entretenimento, como seu ganha pão. Então, a grande maioria dos produtores prefere esse gênero com uma coisa que temos que aplaudir: fazem bem, com qualidade e fazem talvez, uma das melhores comédias desse país. Temos atores talentosíssimos, de primeira linha.


DM: Depois da Campanha há outros eventos com esse propósito?
R.D.
Em linhas gerais, para o SINPARC, esse é o maior projeto. O que há são ações que vamos desenvolver em 2006, a partir da criação do Centro de Apoio à Produção do SINPARC. Vai ser um departamento da entidade, composto por três ou quatro produtores executivos, que vão cuidar da ampliação do acesso ao público ao teatro e do público no teatro. Nós não vamos trabalhar só na forma de viabilizar o acesso através da baixa de preços. Vamos ter também uma faixa da população que tem recursos para pagar o preço justo. Vamos trabalhar com esse pessoal, pensar como traze-lo, vamos trabalhar muito com esse público que sempre nos interessou e que se afastou do teatro, que é o público universitário.


Vamos começar algumas ações mais vigorosas com este público, no sentido de oferecer a ele o acesso ao teatro a um preço inferior à meia entrada. Queremos levar aos universitários uma proposta que sempre foi nossa: o estudante não precisava preocupar com a meia entrada, ele sempre teria um preço muito mais justo e mais acessível, principalmente na área do teatro. Belo Horizonte já tem outras ações importantíssimas também. Não é só a Campanha, não. Temos o Festival Internacional do Teatro, o Encontro Mundial de Artes Cênicas, Festival Internacional de Circo, Festival Internacional de Bonecos. São ações importantes feitas por outras pessoas, outras entidades, mas que tem essa responsabilidade de formar e tornar o acesso à cultura maior para o público de Minas Gerais.


DM: Qual a relação do SINPARC e a produção das montagens com o término da Campanha?
R.D.
O SINPARC congrega dentro dos seus filiados, provavelmente 97% de todas as produções que participam da Campanha, ou seja, hoje, praticamente todo o produtor da cidade é filiado ao SINPARC. A entidade não é um ser vivo, é um conjunto desses produtores, daí a razão da entidade ter uma força muito grande na discussão política do Estado e no município junto aos órgãos públicos e dentro desse projeto que é a Campanha de Popularização, que só dá certo porque esses produtores abraçam esse projeto. Durante o ano nós discutimos como agir em função de melhorar o público, melhorar a questão artística e técnica das montagens. Esse debate é constante entre os produtores de teatro.


DM: Existe total adesão à fórmula adotada?

R.D:
Posso falar da 24ª edição pra cá, que foi quando assumi. Não houve um ano em que o edital, o regulamento, não tenha sido aprovado pela maioria, ou não tenha sido discutido com o conjunto da produção do Estado. Certamente, muita gente discorda de alguns critérios, de algum formato. Mas é parte do processo democrático. Eu não posso jamais colocar a Campanha para ela ser, o que eu acredito que seja o melhor caminho dela. Eu vou tocar esse projeto de forma que ele seja o melhor para a minha categoria, como um todo. Mas preservando o essencial: trata-se de um projeto de popularização do teatro e da dança.


DM: O sr. acredita que a Campanha é a única forma de popularizar o teatro e a dança ou existem outras alternativas?

R.D.
Com certeza, não é a única. A Campanha é um instrumento de popularização. Eu não sei se é o melhor, mas é um instrumento que tem dado certo. Mas existem outras formas de popularizar a Campanha, através de uma ação mais vigorosa de quem teria a obrigação de cuidar da cultura desse país, que é o Estado. O Estado tem por obrigação cuidar da cultura e facilitar ao máximo o acesso. Tem que procurar introduzir a cultura e principalmente o teatro e a dança, a partir da adolescência e da infância. Nós precisávamos ter projetos, no currículo escolar, que já mostrasse ao estudante, no jardim de infância, no grupo e adiante, a importância do teatro na sua formação. A grade curricular da chamada educação artística, se restringe a mexer com massinha, desenho. Não é tão abrangente como eu acredito que deveria ser.


Outra coisa seria no nível do curso médio, porque há um hiato entre a fase do teatro infantil, aos 9 anos e a fase do teatro adulto, com 18. É preciso fazer um trabalho junto à juventude, e aí, a gente falha também. Poderíamos desenvolver projetos mais consistentes com a participação do Estado e das escolas, para trazer esse público, porque chega determinado momento que esta faixa etária não quer ficar parada, eles não querem saber de ficar sentados à uma cadeira assistindo uma peça. O adolescente quer ir pra um show e botar pra quebrar na balada. E faz ele muito bem. Mas ele deveria arrumar algum momento do seu período e ir ao teatro. Porém, não temos montagem em grande escala para esse tipo de público. No Rio de Janeiro há uma demanda maior da juventude para o teatro e muitos espetáculos já foram montados. Em Minas Gerais, existe uma deficiência que o produtor poderia superar.


Outra alternativa seria usar o teatro e a dança como instrumento educativo, utiliza-los nas questões de esclarecimento público, de campanhas de apoio à não violência. Usar esse mecanismo para trazer o público para dentro do teatro, vai popularizar muito mais. Uma terceira alternativa seria a ação do governo, principalmente na questão econômica. O Governo criou agora mais uma taxa: toda produção teatral paga 2% de ISS (Imposto sobre serviços). Em São Paulo e no Rio de Janeiro, paga-se 5%. Isso faz o ingresso ficar ainda mais caro, diminuindo o número de pessoas que vão consumir.

 

 

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