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A Corrente Luminosa - Lenda de Mariana

Era nefanda a da escravidão. As cidades onde abundava a maior percentagem de negros eram Mariana e Ouro Preto.
Nessas legendárias metrópoles, o braço do escravo constituía o acervo do progresso material, significativa, aliás, a máquina humana para o serviço sem trégua e sem salário.

 

Uma multidão de negros, sob a chibata de feitores desumanos agia em trabalhos forçado, e nenhuma consideração se lhes davam, a não ser relativo alimento, escassas roupas e, por descansos, a sórdida senzala, para que da promiscuidade gerassem, como animais, novos rebentos para engrossar o número de mártires e sofredores.

 

Época calamitosa e inqualificável, sob o ponto de vista moral e humano. Escravizava-se o homem de cor, encarcerando-se o espírito, o pensamento e sentimentos mais nobres de sua personalidade.

 

O quadro dantesco, tenebroso, indescritível em seu aspecto de terror e miséria, colocava o pobre negro abaixo da indignidade humana, enquanto a sociedade dos nobres se comprazia no luxo e nas orgias luxuriantes, que o poder do oiro lhes facultava.

 

A alta elite vivia sustentada com o produto do sangue e suor desses anônimos miseráveis, cujo trabalho forçado garantia a posição privilegiada e nababesca dos potentados, intensamente conquistada, aprovada, convertida e gozada, resumindo tudo isso na sagrada fomedo ouro, que dominava e comandava a classe opulenta daqueles tempos, incentivando-a às mais ousadas conquistas em busca do vil metal.

 

Pobres e desgraçados escravos.

 

O ouro que arrancavam das profundas escavações locupletavam o erário dos poderosos. A missão do cativeiro era a era a perpetuidade do sofrimento.

 

Por essa razão, nos solares vetustos, nos monumentos da Arte e Arquitetura, no deslumbramento milenar de nossos templos, em cada detalhe, enfim, dessas construções que desafiam os séculos, paira, como sombras misteriosas, a evocação do martírio, cantando cada pedra a odisseia desses obreiros cujas mãos libertas, embora toda vontade subjugada, traçaram com lágrimas toda a história trágica da escravidão no Brasil.

 

Mariana, a mais antiga cidade de Mina, sede da aristocracia e em cujo meio se esboçou a primeira reação para proteger e defender o negro africano, dentro das bases salutares da caridade, - notabilizou-se pela iniciativa do aproveitamento dos operários nos serviços de construção de suas igrejas.

 

Os negros aprenderam vários ofícios com os afamados mestres portugueses, tomando a parte mais pesada no levantamento das principais casas e igrejas da cidade. A obra de pedra na sua totalidade era serviço mais penoso, chegando a esgotar as forças de muitos escravos que logo sucumbiam ou eram afastados como máquinas imprestáveis.

 

A série de infortúnios, sofrimentos e torturas devia ter um fim.

 

Almas dedicadas e tementes a Deus resolveram humanizar a situação dos negros e para isso fundaram duas Irmandades; a de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora das Mercês, esta última intitulada: Co-Redentora dos Cativos de Mariana.

 

Ambos os sodalícios se propunham por todos os meios à libertação dos escravos na sede da Capitania das Minas Gerais.

 

Incentivados por essa poderosa missão, os escravos empenharam-se na construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e muitos obstáculos tiveram de vencer até o remate final do grande templo.

 

A reação das duas Irmandades, conjugadas dentro de um único objetivo, libertou mais de dois mil escravos, que se integraram na sociedade como homens livres. Dóceis e obedientes, disciplinados e amantes da paz e da ordem, espalharam-se por toda a Capitania de Minas, trabalhando na busca do ouro e pedras preciosas e nas construções de casas e igrejas.

 

Os últimos remanescentes da legião africana em Mariana esclarecem os pormenores da construção das Igrejas do Rosário e das Mercês da história cidade.

 

Muitas lendas são evocadas e, de todas, as mais importantes aqui registramos.

 

Contou-se uma velha preta, que faleceu com a idade de 130 anos, familiar de todas as casas e cria de nossos bisavós.

 

- O grande templo de Nossa Senhora do Rosário já estava terminando. O ouro tinha se esgotado e os negros não sabiam aonde adquirir o dinheiro para concluir a parte interna. Faltavam os altares e as imagens, bem como o remate das duas torres, que por falta de verba se destoaram do risco arquitetônico, por medida de economia, o que muito comprometeu o belíssimo conjunto iniciado e não terminado conforme a planta.

 

Chico-Rei da Irmandade conclama seus irmãos à prece. Mai de dois mil negros, diariamente, às 24 horas, se punham de joelhos e falavam à Senhora do Rosário com toda a piedade:

 

- "Nada temo, tudo demo, agora venceremo a vancê Sinhá Nossa. Rica Sinhá de Senhô, Mãe, pede pra nóis ao dono do ouro e das minas, traga pra nóis algum ourinho pra móde terminá esta casa".

 

A esperança não se esgotou. Queremos, repetiam, viver nesta casa que é o nosso descanso final. E de fato consultamos os livros da Irmandade; as campas internas guardam as cinzas de milhares de escravos, filhos prediletos da Virgem do Rosário.

 

Lição maravilhosa e estupenda. Diz a crença que muitos operam milagres, bastando invocar as almas dos cativos para se obter qualquer graça junto de Deus.

 

Vários dias a oração era repetida com amis intensidade e confiança.

 

Certa noite desaba forte tempestade acompanhada de relâmpagos e coriscos, trazendo o pânico no seio da população.

 

Em dado momento, um estrondo violentíssimo abala o interior do templo. De súbito abre-se um clarão e surge no alto do teto da Capela-Mor a visão de Nossa Senhora do Rosário, igual à pintura que ali se acha.

 

A Virgem Santíssima, com o menino nos braços, deixa cair sobre os negros estupefatos uma grande "Corrente Luminosa".

 

Era o símbolo da opressão e do martírio dos escravos aqui na terra.

 

A prece fora atendida.

 

A Corrente, a extensa corrente que circulou toda a igreja, iluminando-a totalmente, era toda de ouro. E o templo dedicado a Nossa Senhora do Rosário foi concluído.

 

O Brasão de Armas da Irmandade originou-se, então, de uma corente dourada que forma distintamente as duas letras: S. R., recordando junto à efígie da Rainha o amparo milagroso obtido.

 

A Igreja do Rosário conserva ainda a riqueza primitiva, que se observa nas imagens, alfaias e altares rendilhados a ouro e prata, cujo esplendor a ação do tempo não pôde destruir ou simplesmente ofuscar.

 

Lamentavelmente, desaparecem as nossas queridas e famosas Irmandades, mas os templos que construíram simbolizam para os presentes e vindouros a imortalidade de uma grandeza moral, material e espiritual.
Tudo passa a eles aí ficam com a sua história e com as suas lendas.

 

São exemplos que deveriam e tinham de ser, em nossos dias, melhor imitados ou ao menos compreendidos!...

 

Bibliografia

SANTOS, Waldemar de Moura. Lendas Marianenses. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1967

 

 

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