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Demandas

Quando deu no jornalzinho da cidade, pouca gente levou a sério. O comentário ficou grande foi depois que o padre anunciou na prática. Aí todo mundo pedia opinião uns aos outros, ninguém mais botou dúvida: a coisa era pra valer. No Sindicato Rural, avisaram que os homens do banco chegariam em oito dias, a sala deles já estava sendo preparada.


Os moços vieram no dia marcado. Gente fina, bastava ver o jeito deles. Mas, o Povo, sabe como é? Uns duvidavam que eles pudessem entender de lavoura, outros garantiam que nunca tinham pegado num cabo de enxada. Depois, com aquela casa de menino, deviam de não ter prática nenhuma da vida.


De noite, foram apresentados aos fazendeiros pelo Presidente do Sindicato. O primeiro era o doutor Teodoro, chefe dos outros dois. Falou sobre o tal projeto do Banco pra emprestar dinheiro mais de acordo e animar os fazendeiros da região a aumentar o plantio. Era até bem ajeitado, falava de modo que o povo compreendia, só de vez em quando escorregava, o palavreado ficava meio complicado. Mas entendia do riscado. Também não era vantagem: tinha nascido na roça, depois é que foi estudar Agronomia, não sei se em Lavras ou Viçosa.


O tal do doutor Teodoro deu lá a explicação dele, então apresentou os companheiros: doutor Sérgio, economista, e doutor Renato, advogado. Contou o serviço de cada um e disse que os três ficavam à disposição dos interessados a partir do outro dia. Antes de terminar a reunião, esclareceu as condições do empréstimo e a lista documentos.


Na manhã seguinte, algumas pessoas passaram por lá, fizeram perguntas, pediram informações, mas ninguém aventurou. De tarde, apareceu um baita dum homem falando gritado e procurando o responsável pela documentação. Doutor Renato, o advogado, pegou os pápeis, começou a examinar. Foi folheando, conferindo, fazendo assim com a cabeça, como quem diz que é isso mesmo. Satisfeito, o homem ia acompanhando.


De repente, o advogado ficou sério:

- Seu Epaminondas?
- Sim, Doutor.
- O senhor já leu esta Certidão Negativa?
- Quer dizer, ler, mesmo, eu não cheguei a ler não senhor... Algum problema?
- Aqui reza que nada consta contra o senhor a não ser... E vem um rosário de ações que correm contra o senhor. É isso mesmo ou tem algum engano?
Espantado, o homem perguntou:
- Uai, Doutor, o que é que diz aí?
- Bastante coisa: que o nome de uma firma foi usado indevidamente e o seu companheiro, por isso, quer desfazer a sociedade.
- É mesmo? Fé da mãe! Que mais?
- Que o senhor mudou o tapume na divisa da fazenda e o vizinho exige a volta da cerca para o lugar antigo...
- Fala assim? Desgramado!
- ... E que o senhor não pagou um título vencido, proveniente da compra de umas novilhas. A lista é grande, tem mais um punhado de coisas.


Com uma cara que era ao mesmo tempo de ódio e de pena, Epaminondas falou, a voz meio chorosa:
- Tem gente, Doutor, parece que veio ao mundo sem ter mãe. O senhor não faz idéia a infelicidade que é um cristão viver num lugar tão atrasado, depender de gente sem mentalidade.
- Mas o que é que houve, afinal?
- Tudo que o senhor leu, Doutor, é até uma vergonha eu ter de dizer isso... depõe contra a nossa justiça. Mas o que é que eu posso fazer? O sucedido é que esse maldito escravãozinho de merda – me desculpe lhe falar assim – cismou comigo, vive me perseguindo, quer me prejudicar de todo jeito.
- Então esta certidão é falsa?
- Falsa, totalmente, não digo que é. Errada, eu garanto.
- Errada como, seu Epaminondas?
- As demanda, essa corrumaça toda, existe. Só tem um, porém: eu é que troquei elas todas. Esse fedaputa – me desculpa, Doutor, é que trocou tudo, só pra atrapalhar esse empréstimo no Banco. E agora? O senhor tem coragem de deixar eu ficar prejudicado só por culpa dum irresponsável?


Com pena do homem, o advogado disse que ia examinar o caso com calma, pediu prazo até o outro dia, no mesmo horário. Exatamente vinte e quatro horas depois, lá vinha ele de novo:
- Come, Doutor. Chegou numa conclusão sobre o meu assunto?
- Acho que cheguei, seu Epaminondas.
- Posso saber qual foi? – o indagou, confiante.
Meio desconcertado, medindo as palavras, o advogado foi dizendo:

- Olha aqui, seu Epaminondas. Andei examinando uma documentação, olhando uns processos, dei uma chegada até o Cartório...
- Vamos logo, seu Doutorzinho! O senhor fica aí todo arreminado, eu vou lhe dizer que não sou homem que careça de rodeio não. Tem um ditado antigo, o senhor deve de conhecer, quem não deve não treme. Então solta a franga, moço!
- Pois é. O rapaz lá do Cartório, como é mesmo o nome dele?
- O Deuscadará? Que que tem aquele sem-vergonha?
- Disse que é como veio escrito na Certidão, quer dizer, as demandas são todas contra o senhor mesmo.
Acabou de falar, ficou esperando a reação. Epaminondas não mexia um músculo. Nem piscar ele piscava. Só perguntou, dum jeito controlando:
- Ah, é?
- É, sim senhor – respondeu o advogado, aparentando calma.
- E o Doutor, o que que acha?
O jovem advogado reuniu toda sua coragem, encarou aquela massa humana e respondeu, tomando cuidado para não tremer a voz:
- Eu concordo com ele.
Epaminondas sacudiu a cabeça dum modo concordado e falou, manso:
- Pois tá certo...

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