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A morte anunciada

Quando morreu tio Ambrósio, lembro como se fosse hoje, meu avô, na volta do cemitério, deu um suspiro tão fundo que as irmãs pararam de soluçar e os irmãos homens lançaram sobre ele os olhos vermelhos. Aí meu avô falou, muito sério: - “É, gente, o cacho de banana começou a despencar...” Nos dias seguintes a frase foi repetida vezes sem conta de um jeito aparentemente casual, mas que, na verdade, mal-e-mal disfarçava a ameaça sentida por todos.


Até então só tinha morrido o tio Tavico. Mas ele quase não passava de uma criança, uma fruta que nem chegou a vingar, caiu ainda de vez. Não podia contar como banana despencada do cacho. Também já fazia tanto tempo, dele tinha ficado pouco mais que um retrato na parede em frente à Santa Ceia. O bigode, na fotografia, era ralo, o cabelo muito liso e partido no meio, o ar sério e triste, quem sabe já não era o pressentimento da morte?


Talvez porque tenha passado muito tempo depois do tio Tavico, a morte do tio Ambrósio mexeu tanto com o pessoal. Por causa de qualquer dê-cá-essa-palha, lá vinha um deles com aquela frase, de novo a história do cacho, cada um achando que era a próxima banana a despencar. E o pior é que começaram mesmo a adoecer, macacoa comum da idade. Mas foi dando aquela cisma, o medo apertando, ameaçava todo mundo como uma peste. Além da idade, eram todos muitos unidos, os casamentos feitos entre primos, uns mais longe, outro mais perto. Por isso, quando chegou a vez da tia Esméria, seis meses depois do tio Ambrósio, foi como se o cacho falado pelo meu aço fosse despencar todo de uma vez só.


Antes da missa de ano da tia Esméria, embarcou tio Tertuliano, casado com tia Bárbara, que vinha a ser irmã do meu avô. E aí foi indo, repicado, de seis em seis meses lá ia um.


Mas, onde eu quero chegar, mesmo, é no tio Joviano e na tia Neguita. Viviam os dois, mais uma empregada antiga, na casa da cidade. Criada a família, iam comendo o dinheiro da fazendinha vendida, moíam o tempo apreciando o movimento da rua, falando de novidades miúdas, esperando o dia de amanhã com o sossego dos que têm o coração puro e a consciência leve.


Tia Neguita era uma santa, todo mundo dizia. Meio aperrengada ultimamente – um começo de palpitação, no tempo de frio uma dor nas juntas que só vendo -, desacorçoou de subir a ladeira até a igreja e acabou parando com a comunhão diária. O padre vinha aos domingos, o sacristão na frente tocando a campainha. Ela comungava, agradecia, renovava o brilho dos olhos e a suavidade do sorriso.


Tio Joviano, também muito bom, era homem franco, sem rodeio. Um dia, entrando em casa, foi direto pro quarto, onde ela fazia seu tricô, enrolada num cobertor. Vendo o marido chegar esbaforido, paralisou as mãos no ponto em que estava, olhou por cima dos óculos e perguntou:

- Que cara é essa, homem de Deus? Andou vendo passarinho verde?

Ele, sem cerimônia:

- Olha, Neguita. Eu tava quentando meu solzinho lá fora, fiquei pensando. Primeiro foi o copadre Ambrósio. Depois a Esméria...

- E aí?

- Aí, foi o pobre do Tertuliano. Ultimamente, de seis em seis mês, a Parca leva um. Uma vez do seu lado, outra vez do meu, né mesmo?

- É. E então?

- Então, o próximo vai ser aqui em casa.

Antes que tia Neguita abrisse a boca, ele completou, apontando para ela:

- E marra as calça que vai ser do seu lado!

Ela não disse nem pau nem pedra. Deu um sorriso, que só ela. Menos de seis meses depois, descansou. Tio Joviano quis ir atrás, mas não teve ordem. Ainda viu muita banana despencar antes de chegar a vez dele.

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