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O descendimento da Cruz

Desde cedo começaram a armar a cena do Calvário entre os dois lances da escadaria da Matriz. Primeiro, o painel representando o casario nas colinas. Em seguida, os dois ladrões tendo o Cristo no meio. No fundo, a cidade. Depois vedaram tudo com um pano preto, que só seria removido à noite, na hora da cerimônia.O comércio estava quase totalmente fechado. A única exceção era um hotel, que acolhia pequenos grupos de forasteiros sem outro lugar para comer.


À tarde começou a chegar o pessoal da roça. A maioria vinha a pé, andando duas, três léguas. Para estes, abriam discretamente a porta de uma venda na rua principal. De noite apareceria o carrinho de pipoca, que era também de biscoito de polvilho. As matracas estalaram pelas ruas o dia inteiro lembrando aos fiéis - como se fosse necessário - os seus pecados, a sua culpa, a cerimônia. Às oito da noite, o povo se junta na pequena praça, diante da igreja, entre bancos e bustos de seus maiores.


Às oito e meia, finalmente, a cerimônia começa. A praça está densamente iluminada. O pano preto foi removido, e no Calvário, entre o bom e o mau ladrão, Cristo está morto na cruz, a cabeça pendendo para um lado. No Calvário e aos pés da cruz, os outros personagens devidamente caracterizados. Maria, vestida de azul, tendo João ao lado. Dezenas de centuriões, com capacetes e lanças. Os apóstolos, todos de branco. Verônica, com o sudário. Do púlpito, colocando no meio da multidão, o padre rememora a vida, os milagres, a paixão e a morte de Cristo.


Agora, vai chegando ao auge um ritual que, mesmo repetido a cada ano, sempre atrai os fiéis do lugar, de outras cidades, das roças e povoados. Diz o padre: -“Morto o Cristo, uma alma caridosa tira-lhe da cabeça a coroa de espinhos, que ali fora colocada para humilhar o Filho de Deus. Vamos dar um pouco de repouso a esta pobre cabeça cansada”. (A coroa é retirada, cada um a beija antes de passá-la adiante.)


O padre prossegue: -“Vamos desprender agora esta mão direita que tantos caminhos apontou à humanidade”. Depois: - “Retiramos também o cravo que prende a mão esquerda, para que ela possa apontar melhor os caminhos que não ficaram claros quando mostrados com a mão direita”. Em seguida, com jeito de quem se corrige: -“Não ficaram claros porque somos falhos e pecadores e, por isto, não enxergamos o caminho”.


O povo acompanha atento. Muitas crianças observam tudo dos braços dos pais, sentados em seus ombros ou montados no pescoço. Os meninos suspendem os irmãos pequenos à procura de uma brecha entre as cabeças dos adultos.


Uma criança, dos braços do pai, pergunta à mãe, ao lado:
- Mãe, quê que é discípulo?


A mãe não responde. A criança insiste:
- Quê que é discípulo, isso que o padre ta falando?
- Psiu! Depois eu te conto.
- Fala agora, mãe!
- Cala boca, menina. Presta atenção. Lá em casa te conto.
- Quê que adianta? Eu não entendo quase nada...


Daí a pouco, lá vem a menina de novo:
- Mãe, por que mataram Jesus?
- Depois eu te explico.
- Depois não tem graça. Quero saber é agora.


A mãe, entre impaciente e envergonhada:
- Agora não, minha filha. Já disse que lá em casa te falo. É muito complicado pra explicar assim, no meio da rua.


A menina desiste. O padre prossegue: -“Morto o Cristo, era preciso dar-lhe sepultura. Este dois moços que aí estão fizeram a Jesus essa caridade. São dois rapazes de boa família, que um dia haviam falado com Jesus. Não foram seus discípulos, não chegaram a aderir à sua doutrina, do mesmo modo como nós costumamos ficar indecisos entre as coisas do mundo e as coisas de Deus. Mas eles tinham estado com o Cristo, quem sabe tinham recorrido a Ele num momento de aflição? Agora queriam retribuir-lhe, dando-lhe uma sepultura digna”.


A um leve sinal do celebrante dois jovens de branco começam a subir, cada um por uma escada, levando nas mãos as pontas de um comprido lençol.


Como eu não conseguia lembrar o nome dos personagens bíblicos ali representados, perguntei à minha esposa:
- Você sabe o nome dos dois homens que enterraram Cristo?


Um senhor ao meu lado, simples e solícito, esclareceu:
- Eles ainda não o enterraram não.


Para confirmar, apontou o Calvário, logo adiante:
- Ele ainda tá na cruz. Olha lá! Agora vão tirar.


Eu disse:
- É, mas queria saber é o nome dos dois de branco.
- O senhor não conhece eles não?
- Não


Com uma ponta de orgulho, o homem explicou:
- Aquele dali é o Zezito do Sinhô da Farmácia. O outro é o Tonico Barbeiro.


Agradeci a informação, mas disse, meio sem jeito, que estava tentando lembrar o nome dos dois homens que há quase dois mil anos, tinham enterrado, de verdade, o corpo de Cristo.


Ele me olhou espantado e falou, num tom de desalento:
- Ah, moço, isso que o senhor quer eu não sei não.


E rematou:
- Comé que um infeliz há de saber uma coisa tão antiga?

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