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Os meninos da grota

O brilho do sol ofuscava as vistas dos jovens que caminhavam silenciosos pelo atalho arenoso. Mais atrás vinha o senhor Lucas carregando a enxada satisfeito da vida por mais um dia na lida. Os dois jovens estavam loucos para chegar, guardar as ferramentas no paiol, rachar a lenha, banhar no córrego e assentar na beira do fogão até a janta ficar pronta.


A choupana onde moravam ficava lá pelas bandas do Córrego de Areia, perto de uma grota escura e de difícil acesso. A noite era comum ouvir o miado da jaguatirica e quando tinha que ir até a fonte buscar água na cabaça, era um Deus nos acuda, ninguém queria.


Na escuridão da noite, só se ouvia o coaxar dos sapos, e o familiar cheiro de café torrado, sinal certeiro de que havia onça por perto. Naquela noite a garapa para o café estava pouca. Mãe Maria não deu conta de tocar sozinha a engenhoca que ficava afastada alguns metros, na coberta junto ao paiol de milho.


Pressentindo que sobraria para ele a missão de ir até à bica, Fausto pegou uma lasca de candeia atiçou com ela o fogo e logo uma labareda enorme iluminou toda a cozinha. Seus olhos negros também iluminaram porque havia lembrado da espingarda do pai que ficava dependurada atrás da porta do quartinho.


A choupana de adobe era comprida e muito acolhedora. Bem rebuçada e espaçosa, três quartos grandes e um quartinho comprido onde eram guardados todos os apetrechos, como arreios, ferramentas, balaios e cabaças. Num canto muito bem organizado ficava o mantimento.


O restante do café que era colhido na propriedade e vendido no arraial ficava armazenado numa caixa de madeira que ficava no fundo do corredor. Na época da colheita, toda a família se unia em torno do cafezal, que era imenso. Às vezes, era preciso contratar alguns parentes para ajudar a coletar os preciosos bagos.


À tardinha, mãe, pai, filhos e amigos regressavam ao lar, felizes da vida, com os balaios abarrotados de grãos. O terreiro era enorme e ali ficavam os jiraus de esteiras prontos para receber o produto para a devida secagem debaixo do sol escaldante.


Na coberta ficavam as caixas grandes de madeira onde o café era armazenado até melar. Aí sim estava no ponto de colocar para secar. Espalhado nos jiraus, era remexido a todo instante para que a secagem acontecesse por igual.


O aroma gostoso de café secando naturalmente misturava com o cheiro do mato da região. Era agradável apreciar o prazer dos agricultores na lida, nas idas e vindas dos cafezais, trazendo balaios abarrotados, sinalizando ano de muita fartura. Os cantos engraçados retratavam a simplicidade e a alegria daquela gente.


Assim iam tocando a vida, sempre felizes e sem maiores perturbações. Para os dois meninos daquela família não tinha nada melhor do que aquele mundo distante que para eles era um paraíso.

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